ENTRE A PRÁTICA E A PREGAÇÃO: Uma breve discussão sobre o cenário político eleitoral

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

De acordo com Mahatma Gandhi, “uma pitada de prática vale mais do que toneladas de pregações”. Apesar da sua sólida formação intelectual como advogado, e da sua crença no pacifismo, o mestre indiano era um homem de ação, que mudou a vida do seu país sem levantar uma arma através do exercício da resistência pacífica (a Satyagraha).

 

São poucos os atores políticos que contribuíram tanto para a demonstração de que é possível mudar o seu mundo através do exercício ativo da cidadania. Mas longe do mero voluntarismo, o que Gandhi demonstra é que o discurso vazio não traz resultados. É necessária a dialética da ação consciente, do enfrentamento das dificuldades, mesmo que estas, como o Império Britânico na Índia, às vezes pareçam imbatíveis.

 

As vitórias de Gandhi foram além da independência do seu país. Ele é responsável pela construção da maior Democracia do mundo. Apesar da sua formação hindu, jamais tentou impor qualquer forma de governo teocrática, sempre afastando a política da religião, e lamentando a divisão da Índia em duas partes, através da criação do Paquistão. Para Gandhi, não havia diferenças entre hindus e mulçumanos, e o seu país deveria ser aberto para o respeito tolerante de todas as forças de crenças.

 

Os ensinamentos de Gandhi são importantes para a compreensão de temas presentes ao debate da política brasileira atual, especialmente quando comparamos as obras e os discursos dos quadros embrenhados na disputa pela Presidência da República. Cada um dos três principais candidatos já demonstrou no passado e no presente o resultado das suas ações, das suas atitudes e dos seus erros.

 

Mas Gandhi também deveria ser lido todas as vezes que determinados grupos políticos tentam cindir a nossa sociedade entre cristão e não cristão, entre católicos e evangélicos. Uma das maiores conquistas do país é o Estado Laico, onde são respeitadas todas as vertentes religiosas.

 

Se olharmos de fora acurada as ações de cada um dos postulantes ao cargo maior da nação, será possível traçar um caminho para compreender a capacidade dos mesmos na intervenção de processos importantes, como a continuidade da marcha da inclusão social, a Reforma Política e a Reforma Tributária.

 

Dos três candidatos, com certeza, a que demonstra mais consistência no seu projeto político é Dilma Rousseff. Inicialmente a atual Presidenta da República está assentada numa forte base partidária, que incluí as duas maiores agremiações políticas do país: o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Diga-se de passagem, ambos com forte influência na consolidação da nossa jovem Democracia.

 

A Economista mineira, radicada no Rio Grande do Sul, foi responsável pela implementação de alguns dos mais inovadores programas sociais do planeta, como o “Brasil-sem-Miséria”, o “Minha Casa Minha Vida”, o “Mais Médicos” e o “Pronatec”. É a candidata do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), e da exitosa Copa do Mundo.

 

Acrescenta-se ainda ao forte acervo de Dilma, a continuidade de programas sociais de sucesso criados no Governo Lula (como o Bolsa Família), e a elevação da renda e da taxa de emprego, mesmo com uma economia pressionada pela crescente decadência do mercado consumidor europeu e pela crise da dívida externa da Argentina, principal parceiro do MERCOSUL.

 

No caso de Aécio Neves, não há muito a acrescentar. Herdeiro de tradicionais famílias do patriciado mineiro, o Senador é o homem das frases de efeito, e de propostas megalomaníacas e impopulares, como a criação de superministérios, e a extinção do “Programa Mais Médicos”. Nada que já não tivesse sido pregado no passado por figuras como Fernando Collor de Mello, cujos resultados desastrosos já são conhecidos.

 

Além do mais, o neto de Trancredo Neves não consegue se desvencilhar da sua imagem de playboy, e de várias condutas de natureza patrimonialista na gestão do Governo do Estado de Minas Gerais, como a construção de um aeroporto numa cidade de pouca expressão econômica, mas dentro de terreno e próxima a fazendas pertencentes a familiares.

 

Por fim, resta-nos a figura curiosa de Marina Silva. Elevada à condição de candidata após a trágica e inesperada morte de Eduardo Campos. A ex-ministra e ex-senadora não consegue demonstrar coerência. Ora sustenta uma política econômica fortemente regressiva, pautada num pesado ajuste fiscal e na elevação do superávit primário, ora sustenta o uso do plebiscito como instrumento para a solução de todos os seus problemas.

 

E aqui um ponto de corte essencial entre Dilma e Marina. No ano passado, a Presidenta propôs um plebiscito para discutir os principais pontos da Reforma Política. Mas diferentemente da candidata acreana, a atual detentora do comando do Planalto já defendia abertamente questões essenciais, como o financiamento público de campanha, o voto em lista, e as eleições proporcionais para os cargos legislativos da Câmara Baixa. O plebiscito surgia como uma forma de incluir os anseios de participação da comunidade política nos rumos do país.

 

Já Marina, utiliza o plebiscito como subterfúgio, como um “mecanismo de fuga” para assuntos espinhosos como, por exemplo, o aborto. Se tanto Dilma como Aécio defendem a manutenção atual aparato legislativo, e que o aborto deve ser tratado como um assunto de saúde pública, a claudicante candidata do PSB aponta o plebiscito, mas não expõe com clareza a sua posição. Afinal, é difícil para Marina Silva manter a imagem de modernidade frente a sua formação criacionista.

 

É relevante ainda observar uma forte tendência para o discurso niilista com traços milenaristas na candidata neossocialista. Situação que coloca em dúvida a sua capacidade para enfrentar de forma consistente a Reforma Política vindoura, especialmente se considerarmos a dificuldade que a mesma possui para manter fidelidade partidária, posto que frequentou as fileiras de 04 (quatro) partidos em apenas 04 (quatro) anos (incluindo a fracassada Rede de Sustentabilidade).

 

Portanto, tomando por base a racionalidade política, não restam dúvidas de que Dilma Rousseff é a melhor candidata, especialmente se considerarmos o fortalecimento futuro da sua base parlamentar, o que deve facilitar a transição para um novo modelo político e tributário. Não que este seja um trabalho fácil, mas para quem já enfrentou a tortura nos porões da ditadura, não tem medo de dificuldades!

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