MARINA SILVA E O TEMPO NO PRÉ-SAL

Por: Sandro Ari Andrade de Miranda

Já escrevi diversas vezes que o uso de combustíveis fósseis necessita de alternativas, não apenas em razão do impacto sobre a capacidade do suporte do planeta, mas pelo risco de um colapso futuro de energia.

Quem pensa a política ambiental deve sempre olhar para o futuro. Mas também atuar de forma razoável, pesar os prós e os contras das suas ideias e a necessidade de reconstrução do modelo econômico. O radicalismo sectário e intolerante é sempre o pior caminho.

É exatamente por isso que falamos em sustentabilidade, e não em desenvolvimento regressivo.

Digo isto para analisar a nova afirmativa da candidata Marina Silva, a de que é necessário “dar um tempo na Exploração da Camada de Petróleo do Pré-Sal”. Pode ter sido alguma manifestação precipitada ou a defesa irresponsável de uma convicção. Mas em qualquer hipótese, a proposta de Marina Silva poderia criar uma tragédia econômica e social sem precedentes, especialmente nas cidades que compõe os Pólos Navais-Petroleiros do país, dentre as quais destaco a gaúcha Rio Grande.

Em 2006 a cidade tinha apenas 156 mil habitantes. Hoje possui uma população de mais de 207 mil moradores conforme estimativas do IBGE. Este crescimento decorre dos investimentos realizados no Município pelos Governos Lula e Dilma durante o período, que correspondem, em estimativas menos otimistas, em R$ 14 bilhões. Isto apenas no Pólo Naval-Petroleiro.

Os efeitos em cascata em outros segmentos podem ser observados em toda a região. Hoje Pelotas, a 58 km da cidade portuária, é um dos maiores mercados da construção civil do país. Diferentemente de Rio Grande, o espaço territorial pelotense é maior e menos conflituoso sob o ponto de vista ambiental, favorecendo o crescimento mais célere da atividade construtiva.

Contudo, Rio Grande vem alcançando a antiga capital do doce no campo da indústria da construção, especialmente empurrada pelas necessidades habitacionais de um grupo superior a 50.000 trabalhadores vinculados apenas ao sindicato dos metalúrgicos que trabalham nos estaleiros existentes em Rio Grande.

Se somarmos os familiares destes trabalhadores, com um cálculo bastante conservador, podemos afirmar que mais de 150 mil pessoas dependem diretamente do mercado criado pelo Pré-sal apenas em Rio Grande. Mas se observamos outros segmentos, como o da construção civil, do comércio, da educação, hotelaria, etc., obteremos uma cadeia produtiva muito maior.

Além disso, a cidade vizinha de São José do Norte, do outro lado da Laguna dos Patos, vem superando as estatísticas de pobreza extrema desde o anúncio de instalação de um estaleiro na cidade, também voltado ao Pré-sal.

Assim, “dar um tempo no pré-sal”, como pretende a candidata Marina Silva, pode resultar numa verdadeira tragédia social, e numa desconstrução em cadeia de toda a economia local, fazendo a Zona Sul do Estado do Rio Grande do Sul voltar aos tempos minguados da época de abertura econômica realizada por Collor e mantida por Fernando Henrique.

Tal impacto se estenderia a todo o Estado, pois o mercado naval e petrolífero de Rio Grande possui efeitos diretos e indiretos em todo o complexo lagunar, se estendendo pela Zona Metropolitana de Porto Alegre, e pelo complexo do Rio Jacuí.

Mas o que Marina não sabe, talvez por falta de interesse e desinformação, é que Rio Grande já vem trabalhando no mercado do futuro, com a implantação de Pólos de Energia Eólica. Um dos maiores das Américas, que envolve as cidades de Rio Grande, São José do Norte e de Santa Vitória do Palmar.

Contudo, este último, como eu disse, é o mercado do futuro. Seus efeitos serão sentidos apenas à longo prazo. A economia de hoje, mesmo que isto contrarie em parte as minhas convicções ambientalistas mais radicais, envolve uma forte dependência de combustíveis fósseis.

Não há razões para um corte radical no modelo construído com base no Pré-sal. Isto seria uma total irresponsabilidade, com impactos negativos inclusive sobre o meio ambiente.

Rio Grande atravessa hoje o período de maior investimento em saneamento, saúde e educação da sua história. Também há um significativo investimento em políticas ambientais e de inclusão social. Todas puxadas pela cadeia produtiva naval-petrolífera.

É por isso que eu acredito que, como a Presidenta Dilma, nós devemos utilizar o Pré-Sal para constituir uma poupança, investindo em saúde, em educação e em infraestrutura, até mesmo na construção de novas fontes de energia, como aposta da atual governante.

Não há razões para um corte radical na política de investimentos do Pré-sal, salvo se os interesses da candidata Marina Silva, da Rede de Sustentabilidade (em memória de Miguel Arraes me recuso a chama-la de candidata do PSB), forem para reduzir o volume de investimentos da Petrobrás e oferecer maior liquidez ao mercado de ações.

A atuação de pessoas vinculadas ao mercado financeiro nas sua base indica a necessidade de, no mínimo, precaução.

Nossa região tem um forte potencial turístico, hidroviário e energético, inclusive com a exploração ainda pouco estudada da energia gerada pelas ondas do mar. Mas o futuro disto tudo depende de planejamento, da construção paulatina de um novo modelo econômico inclusivo, como tem ocorrido nos últimos 12 anos.

Evidentemente não podemos esperar muita coisa da outra alternativa de oposição, Aécio Neves, que defende o modelo econômico da década de noventa, uma economia com omissão do Estado e que fazia o Brasil importar plataformas de petróleo de outros países, exportando postos de trabalho para locais como Coréia do Sul, Cingapura e China.

Portanto, apenas posso fazer apenas um comentário sobre o pensamento messiânico de Marina Silva: Pobre Rio Grande! Pobre Brasil!

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Um comentário

  1. Para quem acredita, Marina é bem intencionada… Entretanto, o velho Dante Aleghieri, que na Idade Média escreveu a célebre obra “A Divina Comédia”, já advertia que “de boas intenções o Inferno está cheio!”
    Nunca é demais desejar boa sorte e juízo a todos e todas…
    Orildo Longhi

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