A GEOPOLÍTICA DO FUTURO NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS

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Foto: Encontro dos BRICS no Brasil em 2014.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

O processo eleitoral que se desenvolve no Brasil tem uma importância estratégica para a economia internacional por vários aspectos que, na maior parte das vezes, não são relevados pela grande mídia.

 

O primeiro é a criação de um movimento alternativo de poder à polarização internacional entre Europa e Estados Unidos. A criação do G20 e da UNASUL, o fortalecimento do MERCOSUL e, principalmente, o surgimento dos BRICS, alteram completamente a dinâmica da economia e da política internacional.

 

Hoje as economias do Brasil, da China, da Rússia e da Índia são as mais dinâmicas e importantes do planeta, e tem forçado uma revisão que se impõe até ao fluxo financeiro. Não é à toa que a União Europeia apresentou medidas apenas cosméticas sobre a Rússia depois do conflito da Ucrânia, diferentemente do que ocorria em tempos de Guerra Fria.

 

A Rússia é o principal consumidor dos estoques parados na falida economia do euro. Uma briga completa com a Rússia importaria numa quebradeira ainda maior no mercado comum da região ocidental do continente.

 

Mas a narrativa é ainda mais importante, pois tanto a China, como a Índia, como o Brasil, apresentam-se como rivais poderosos aos agentes financeiros americanos, europeus e japoneses, tanto no desenvolvimento de projetos de infraestrutura como na criação de políticas de fomento.

 

O maior dos exemplos foi a criação do Banco dos BRICS. É uma significativa medida em contraposição ao modelo imposto no consenso de Washington através do FMI.

 

É certo que o Japão sofreu um baque com o tsunami, e que alguns os bancos europeus e americanos sofreram com uma quebradeira em 2008. Mas o dólar ainda é o principal fator de conversão do comércio internacional, e a proposta do Brasil de utilizarmos um conjunto de moedas para esta ação seria outra pancada da força estadunidense.

 

 

Aqui não discutimos se o modelo político e econômico chinês ou russo é um exemplo a ser seguido, ao contrário, o que buscamos demonstrar é que tais países impõem junto com o Brasil, a África do Sul e a Índia, estes últimos democracias bastante sólidas, uma nova agenda de poder no planeta que coloca em risco o poder militar e financeiro americano-europeu.

 

É por isso que a eleição no Brasil é tão importante. Diversamente do que ocorria até a época de FHC o nosso país passou a ser um protagonista na agenda política internacional. O comentário do “sub-sub-sub” da diplomacia de Israel sobre o “nanismo” do Brasil no conflito da Palestina é uma imbecilidade. É tão frágil e inconsistente como um factoide da Veja.

 

Na verdade, mesmo que o governo Dilma não tenha a mesma exposição midiática de Lula, hoje o Brasil é um dos maiores articuladores da agenda política, econômica, e ambiental nas Nações Unidas.

 

Além dos BRICS, do MERCOSUL, e do G20, o Brasil de Dilma foi essencial na exposição da espionagem ilegal realizada pelos Estados Unidos, e pelo salvamento da Conferência Rio+20, realizada em 2012.

 

Também são exemplos do poderia no Brasil o crescimento da nossa inserção no mercado internacional de Petróleo, no movimento contra a ação militar americano-israelense, o fortalecimento da UNASUL, onde somos o principal articulador e dirigente, e a luta pela mudança da configuração do Conselho de Segurança da ONU.

 

Se Dilma não possui o mesmo carisma do Lula, “o maior estadista que este país já teve”, reconhecido como “o cara” por Barack Obama, a sua seriedade impõe a condição de figura feminina mais poderosa do planeta, em empate técnico com a alemã Angela Merckel.

 

O sucesso da Copa do Mundo foi uma demonstração pública internacional do poderio econômico do país, derrubando todo o ceticismo de alguns setores resistentes da mídia internacional, e enterrando o “complexo de vira-lata” da oposição (leia-se: Revista Veja, Organizações Globo, Estadão e Folha, pois os partidos de oposição são absolutamente incompetentes para desenvolver esta atividade).

 

Portanto, quando Marina e Aécio criticam o nosso modelo de diplomacia e propõem um recuo para o passado vivenciado na década de noventa, há inequívoco risco de retrocesso, e mais, do retorno ao modelo do Brasil como correia de transmissão da diplomacia norte-americana.

 

Tanto Aécio, como Marina, são defensores do estado mínimo, da liberdade para o capital internacional, da formação de acordos bilaterais com outras economias e, principalmente, da autonomia plena do Banco Central.

 

Mesmo que a autonomia plena do Banco Central somente possa ser implantada no Brasil por meio de golpe de Estado, a mera ilação da proposta demonstra uma visão retrógada e subalterna. Marina é Aécio são o retorno ao “complexo de vira lata”, e do Brasil atuando ajoelhado frente às potências capitalistas euro-americanas.

 

Neste contexto, três questões importantes não podem ser esquecidas, posto que essências para o debate geopolítico futuro: energia, biodiversidade e água.

 

Não é preciso ser um grande intelectual para saber que o Brasil possui uma das maiores reservas de biodiversidade do Planeta. É só lembrarmos a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e a Mata Atlântica. Mas não podemos esquecer a plataforma continental marinha, o pampa e a caatinga.

 

Assim como o Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul também são reservas de biodiversidade, sobre a qual não há controle europeu e americano.

 

É por isso que é preocupante a aproximação crescente de Marina Silva de organizações políticas internacionais. Se é bem verdade que as nossas florestas e os nossos Biomas devem ser protegidos, por outro e inegável que necessária a ação soberana do Brasil sobre estas riquezas.

 

Quando Marina Silva teve a oportunidade de proteger este patrimônio a sua atuação foi uma tragédia. A única grande proposta da ex-ministra foi a concessão de florestas, ou seja, a transferência da exploração e catalogação da biodiversidade ao capital internacional.

 

Sou um dos proponentes da Agenda 21 do Bioma Pampa, através da Rede de Organizações e Movimentos Sociais do Bioma Pampa, mas sem nenhum apoio da gestão de Marina do Ministério do Meio Ambiente. Aliás, toda o Programa Agenda 21, incluído às duras penas no PPA, teve resultados pífios, dada a ausência de uma posição concreta e definitiva sobre a sua execução.

 

Aliás, diferentemente do que os movimentos sociais e organizações da sociedade civil esperavam durante o período de Marina no MMA, não ocorreu nenhum reforço na organização social para proteção dos Biomas. Marina Silva foi a mais relutante e ineficiente gestora do Ministério do Meio Ambiente durante os últimos 12 anos.

 

Podemos afirmar que relutância e indecisão são sinônimos da condutada da candidata oposicionista, e foi somente com a sua saída do Ministério que as políticas ambientais deslancharam e resultaram num aumento do nosso protagonismo da agenda internacional.

 

Marina foi tão ineficiente que perdeu o comando do Plano Estratégico de Desenvolvimento da Amazônia, gota d’água para a ruptura da ex-ambientalista com o Governo e com o seu Partido de Origem.

 

Sobre Aécio Neves, com certeza o candidato mais frágil programaticamente dentre os principais postulantes ao Planalto, não podemos falar numa agenda ambiental assertiva, pois a retomada agenda privatista e a predominância de uma visão patrimonialista na política agropecuária (e não agrária), indicam uma destruição ainda maior do Cerrado e da Amazônia. Talvez por isso um dos seus principais financiadores de campanha seja um frigorífico e abatedouro que atua nessas regiões.

 

Em relação à Dilma, temos a favor várias medidas, como a efetiva implementação da Agenda Ambiental da Administração Pública – A3P, e o sucesso do Projeto Esplanada Sustentável. Pela primeira vez na história deste país a administração pública compreendeu que a proteção ambiental é também uma vantagem econômica, dada a maior eficiência no aproveitamento dos recursos.

 

O programa de política energética, que será tratado mais adiante, também é bastante positivo. O pré-sal é apenas uma parte de um projeto de reestruturação deste sistema, com predomínio de energias renováveis. São exemplos a construção do segundo maior pólo eólico do mundo, o fortalecimento da base hidroelétrica e o crescimento do uso da biomassa e biocombustíveis (como o sucesso do biodiesel).

 

Há uma crescente pesquisa sobre o uso de motores elétricos puxados pela Eletrobrás e pelo parque científico de Itaipú. Existem projetos habitacionais no nordeste do “Programa Minha Casa Minha Vida” que são autossuficientes no uso de energia eólica, e que vendem energia para as cidades. Na verdade, vamos verificar que se apresenta como discurso pela candidata de oposição, já é uma realidade concreta na vida energética brasileira implantada nos Governos Lula-Dilma.

 

Talvez se Marina se preocupasse menos em copiar os tucanos e verificasse a realidade do país não precisaria ficar reproduzindo textos meramente acadêmicos e um fundamentalismo messiânico contra o pré-sal.

 

Mas Dilma Rousseff tem razão quando destaca a importância estratégica da questão energética. Não só da exploração do pré-sal, mas das outras fontes de energia construídas nos 12 anos de governo do PT.

 

Se há alguma coisa que a economista Dilma conhece bem é energia, e o sua importância não apenas para o futuro, mas para o presente do país. O Brasil possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, e um potencial energético em potencial gigantesco a ser explorado. A ideia defendida no passado de país potencia, hoje é uma realidade no campo da geração de energia.

 

Além disso, o país tem sido incisivo na aquisição na expansão da sua rede de influência no mercado de energia. A propalada aquisição da refinaria de Pasadena é um exemplo disso. Foi uma ação direta da Petrobrás dentro do maior mercado consumidor de petróleo do mundo, e a superação da nossa antiga postura subordinada.

 

A criação de um escândalo sobre de suposto esquemas de corrupção na Petrobrás não é apenas mais um factoide da oposição, mas uma medida para conter o nosso protagonismo geoestratégico sobre o mercado de energia.

 

Cada faniquito da Veja, da Revista Época (Rede Globo), da Folha ou do Estadão, corretamente classificados por Paulo Henrique Amorim como PIG (Partido da Imprensa Golpista), é uma tentativa de barrar o crescimento da estatal, um incentivo à cultura privatista e um golpe contra a Democracia.

 

Uma pessoa desconhecida vira um protagonista da noite para o dia e um guardião moral, enquanto isto as agências financeiras internacionais, a maior parte sem uma base territorial fixa, pressionam as ações da Petrobrás na Bolsa e a estabilidade da nossa moeda.

 

O privatismo sobrevive de escândalos montados, que duram apenas o período da venda de jornais e revistas, e se tivéssemos um Banco Central desatrelado da política econômica, poderíamos estar vivendo uma tragédia. Vejam o número de Bancos com capital internacional que patrocinam as principais representantes da mídia dominante.

 

A Petrobrás é hoje a principal fiadora do nosso crescimento no campo da energia, e reduzir o seu potencial econômico, através destes escândalos é uma tentativa de sustentar a voracidade do capitalismo internacional sobre o nosso potencial energético.

 

Privatizar a Petrobrás, assim como oferecer autonomia plena ao Banco Central é sinônimo de fragilidade econômica e perda de soberania. O impacto não atingiria apenas a expansão dos modelos alternativos de geração de energia, mas derrubaria a retomada da nossa indústria naval, que vem se estruturando a partir da venda de produtos para estatal petrolífera.

 

O papel geoestratégico da Petrobrás é imenso, e jogo dos escândalos causa mais prejuízo ao país e à empresa por meio do mercado de ações, do que qualquer ação isolada de um dirigente corrupto. Além disso, há um impacto direto à nossa moeda. Eventuais corruptos responder à Polícia Federal e ao Ministério Público, e não aos arautos do privatismo.

 

A conduta da oposição que prega o “quanto pior, melhor”, além de irresponsável, esconde interesses outros que não a nossa estabilidade econômica e a construção de uma nova geografia de poder e de inclusão social.

 

Mas se o pré-sal é estratégico, a nossa biodiversidade também. Aliás, a mesma medida adotada para proteger militarmente o pré-sal tende a defender a nossa costa e todo o seu potencial para o futuro como fonte de conhecimentos e alternativas econômicas.

 

O governo também vem crescendo, desde 2003, no desenvolvimento das pesquisas científicas destinadas ao uso sustentável da biodiversidade. Para tanto, vinculou a nossa pesquisa à expansão do ensino técnico e superior. Neste curto período de 12 anos, o Brasil criou mais do que o dobro de cursos de pós-graduação, de programas de pesquisas e de universidades públicas federais do que em todos os 500 anos anteriores. E são estes centros de pesquisa que vão apontar para um melhor aproveitamento da biodiversidade.

 

As universidades federais hoje são os grandes laboratórios de pesquisa de medicamentos e tratamentos, que incluem o uso de células tronco embrionárias. Além disso a expansão de financiamento pela FINEP, e a reestruturação do papel da EMBRAPA criaram um potencial inestimável de aproveitamento deste imenso capital chamado biodiversidade.

 

O Brasil é pioneiro no mapeamento do genoma de espécies vegetais, e no combate biológico a doenças endêmicas como a dengue.

 

No caminho contrário do governo Alckmin, que está quebrando centros de inteligência como a USP, a UNESP e a UNICAMP, tanto Lula como Dilma viram a importância de associar a formação científica com a produção de tecnologia. Há também um investimento pesado na formação de cientistas por intercâmbio através do Programa Ciências sem Fronteiras.

 

Isso quer dizer que, apesar da anacrônica gestão educacional do PSDB nas universidades paulistas, o Brasil vem crescendo de forma significativa no campo da produção de conhecimento. Produção esta que está associada à inclusão por meio de políticas afirmativas.

 

Por fim, resta a importância do nosso potencial hídrico. O Brasil possui uma das maiores reservas de águas superficiais e subterrâneas. Para a preservação destes potenciais desde 2003 o Governo Federal tem encaminhado as nossas bases militares para as regiões de fronteira, inclusive com a redistribuição das bases aéreas e o uso de equipamentos de voo não tripulados.

 

A água é um recurso escasso, e muitos já falam que será objeto de futuras guerras. Portanto, são interessantes as ações adotadas pelo Governo Federal para a recuperação das bacias, não apenas para a construção de hidrovias, mas para a preservação de cursos d’água.

 

No ano de 2009 foi instituída a Política Nacional de Mudanças do Clima, através da Lei 12.187/2009, a qual está associada à Política Nacional de Saneamento Básico e à Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei 12.305/2010 (que ficou anos trancada no Congresso e foi destravada pela iniciativa do Governo Dilma).

 

Além disso, os pesados investimentos do PAC nas áreas de saneamento a habitação tendem a reverter um quadro dramático de destruição das reservas hídricas urbanas, evitando a transformação dos nossos rios em “novos Tietês”.

 

Tais medidas são adotadas com a plena consciência de que não são as árvores da Amazônia que provocam a seca e falta d’água em São Paulo, mas a omissão da agência de saneamento estadual que passou anos sem investir na preservação de bacias e no controle da emissão de efluentes. A privataria e o controle fiscal rigoroso defendidos por Aécio, Marina e Alckmin, são os maiores inimigos do abastecimento de água, e não as árvores da Amazônia.

 

Aliás, de a candidata do PSB ainda lembra dos seus tempos como ambientalista, deve ter lido em algum lugar da Bíblia que a Amazônia não é o pulmão do Planeta, e sim os Oceanos e a Antártida. Quando uma árvore é cortado na Amazônia, temos um impacto direto e negativo sobre o Bioma, e não seca em São Paulo.

 

A seca em São é causada por problemas próprios do Estado, como queimadas, construções em áreas de preservação permanente e mananciais, poluição hídrica por lançamento de efluentes sem tratamento, falta de planejamento do governo estadual, e falta de investimentos dos governos tucanos em saneamento e na melhoria das condições dos mananciais.

 

Assim, dado este conjunto de informações, é importante alertar a população contra os discursos privatistas que defendem “um tempo no pré-sal”, a “autonomia do banco central”, “a privatização da Petrobrás”, e outras medidas de austeridade econômica.

 

Durante a crise econômica de 2008 o único país que apostou de forma total e irresponsável no receituário neoliberal foi a Grécia. Pergunte aos milhões de desempregados gregos, o que eles acham disso.

 

Façam uma leitura sobre a realidade da Espanha onde mais de 1/3 da população é classificada como inimpregável, especialmente os jovens. Vejam a realidade da Inglaterra e da Itália, entregues a governos conservadores e com economias estagnadas.

 

O único país com governo conservador que mantém uma economia com índices negativos, mas ainda sem abalos significativos, é a Alemanha. Contudo este país drena os recursos de toda a União Europeia para manter o euro (que tem o antigo marco alemão como ponto de sustentação).

 

É por isto que vemos a eleição brasileira como fundamental em termos geoestratégicos. O Brasil tem a possibilidade de continuar crescente e expandindo a sua capacidade de intervenção, ou retornar à lamúria nos anos noventa, de regência tucana e privatista, quando a principal estratégia do Governo era atingir 100 dólares. Alguém lembra disso? Hoje o Aécio defende apenas a determinados empresários que o salário alto barra o crescimento da economia. E a mesma cantilena da tragédia grega recente.

 

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3 comentários

  1. Muito profundas essas reflexões. Só não sei se a maioria da população consegue se dar conta disso, pois o PIG, ou seja parte da grande mídia faz força para desvirtuar as coisas. Além disso, infelizmente há pessoas que tratam da questão política e das eleições como se estivessem brincando de disputas futebolísticas. Mesmo assim, vale a pena continuar lutando.

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  2. O texto por si só é muito esclarecedor. Escorreito e de fácil entendimento. E para auxiliar ainda mais o debate é importante acrescentar que, para a proposta de enxugamento do Estado, que é agenda permanente da turma do Aécio e parece fazer parte do programa da Marina, este enxugamento não significa ausência de Estado, mas privatização de serviços rentáveis e políticas públicas voltadas a favorecer o grande capital…

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