A “JAULA DE FERRO” CHAMADA AUTONOMIA DO BANCO CENTRAL

chaplin

Foto: Charles Chaplin em “Tempos Modernos”

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

Muitos defensores da “Nova Política” dispensam as obras de pensadores clássicos das ciências sociais. Marx, Weber, Durkheim, Kant, Hegel, Freud, Bodin, Keynes e tantos outros são descartados como um amontoado de papel sem valor.

 

Outros, como Maquiavel e Adam Smith, têm as sua teorias diariamente deturpadas, e são transformados em ícones do mercado, apresentando ideias que jamais defenderam.

 

Os novos worckaholics de Wall Street e da Bovespa conhecem apenas pedaços do Príncipe, mas não sabem que Maquiavel era Republicano. Já a ideia de livre circulação de mercadorias de Smith foi lacerada, com a exclusão da sua pré-condição de funcionamento: “todos devem ser iguais”.

 

A teoria de Smith, portanto, tem fortes traços idealistas, e está longe da guerra diariamente praticada pelos arautos do neoliberalismo.

 

Muitos não sabem que o debate sobre a reforma agrária não começou com o MST, nem com a pastoral da terra, está no bojo do ideal revolucionário do liberalismo iluminista, defendido, inclusive, por intelectuais como Jean Jacques Rousseau e John Locke.

 

Mesmo Habermas, um dos mais brilhantes teóricos da atualidade é afastado pelos amantes do livre mercado por sua densidade teórica. É chato, dizem alguns tolos, inconsequentes em todos os sentidos!

 

Na minha época de estudante, muitos reclamavam que o centenário acervo da Biblioteca da Faculdade de Direito, da Universidade Federal de Pelotas, fundada em 1912, estava cheia de livros velhos, e já não mais fornecia condições de “preparar os estudantes para o mercado”.

 

Leia-se: obras originais de Cirne Lima, de Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, Clóvis Beviláqua, Nelson Hungria, todas as coleções de Francisco Cavalcante Pontes de Miranda, dentre não obras de valor inestimável, não serviam para o mercado.

 

Toda esta alienação do conhecimento, numa acepção que supera a própria visão marxista, já que não estamos apenas falando da perda da identidade e da relação com o mundo, mas da total e completa falta de preocupação com o conhecimento, é repetida diariamente pela cartilha dos financistas, e aceita facilmente pelas máquinas que são programadas nos bancos dos assentos universitários.

 

Nem George Orwell conseguiria pintar um retrato tão apavorante do nosso presente, algo que lembra muito obras como “Os Meninos do Brasil”, de Ira Levin. É um mundo de seres programados, sem espírito, sem alma. O mundo da anencefalia neoliberal! Da perda da liberdade, da perda da vida!

 

Estamos diante do comércio de valores, do pensamento ensacado no formulismo da apostila, acrítico, decorado, repetido reiteradamente como numa crença dogmática. É o dogma da supressão dos direitos e da diferença.

 

Há uma proliferação do conhecimento parcelado, incompleto, não histórico, dissociado da realidade. Da crescente perda dos sonhos, dos ideais. Do fortalecimento do pragmatismo estacionário, da “jaula de ferro” da nova onda de racionalidade mercadológica.

 

É por isso que os clássicos perdem valor, pois não representam mais direitos autorais, somente podem ser republicados, ou reciclados pelos servos da indústria editorial em publicações ofensivas aos seus autores originais. Isto quando tais obras não são reproduzidas em resumos apócrifos disseminados pela rede mundial de computadores.

 

Enfrentamos a preguiça de pensar, de confrontar as grades violentes que cercam o entorno, como a mentalidade reacionária do projeto defendido por Marina Silva e seus seguidores.

 

Triste imagem, voltada a uma juventude cujo único e principal objetivo é ser um bom profissional. Não há preocupação humanística, nem mais o sonho de transformar o mundo. Tais pessoas querem apenas satisfazer a sua vontade egoística de consumo num mercado cada vez mais cheio de opções estéreis e fugazes.

 

É o relato de uma classe média conservadora, que oprime o seu igual, que renuncia o passado de trabalho dos seus pais, e que não consegue superar o limitado horizonte dos shoppings-centers.

 

É neste ponto, nosso discurso começa a ficar mais claro. Estamos presos numa jaula de ferro, idêntica àquela prevista por Weber quando da evolução do capitalismo industrial.

 

O sociólogo alemão inicialmente observou o mérito do racionalismo capitalista na constante intelectualização da sociedade. Já não era mais necessário recorrer a pensamentos mágicos, razão pela qual este processo resultou no “desencantamento do mundo”.

 

Mas ao mesmo tempo em que o mundo se afastava da visão ritualista das sociedades rurais e tradicionais, também perdia um pouco da sua beleza estética, e passa a ser construído sob a lógica do rigor frio da matemática, como ocorreu durante o modernismo. Desencantar, portanto, também é retirar o encanto, é a frieza dos traços retos e do cálculo racional. É a supressão de diferentes formas de pensar.

 

A civilização industrial transformou a diferença numa figura do passado, e todo o conhecimento tradicional foi convertido em “folclore”. É vendido em beira de estradas ou confinando em mercados de turismo.

 

Num primeiro momento Weber viu algo positivo na intelectualização da sociedade, como o afastamento gestão pública do patrimonialismo que vigorava na Alemanha. O patrimonialismo corrói a estrutura do Estado, transforma o bem público num acervo da elite dominante.

 

São os patrimonialistas que consideram a construção de cartéis contra o bem público como uma coisa comum, tal como José Serra. Ou não observam nenhum problema em realizar obras públicas em terrenos da família, como o insignificante playboy Aécio Neves.

 

Max Weber via nos processos racionalizados, instrumentalizados, legalizados e geridos pela burocracia estatal, um avanço significativo em relação ao patrimonialismo vigente. Haveria um potencial positivo na dominação do intelecto sobre o uso pessoal e privado da máquina administrativa.

 

Ocorre que o mestre das ciências sociais não era uma pessoa ingênua, e percebeu que no seio do processo de racionalização também nascia algo contraditório, e perigoso ao domínio do conhecimento, que cada vez mais fica parcelizado, na divisão deste conhecimento em pequenos pedaços controlados por especialistas, tecnicistas.

 

Por mais que Weber visse méritos na valorização da técnica, também percebia que os homens se tornavam cada vez mais medíocres, e menos capazes de confrontar a totalidade do conhecimento. Neste ponto ele comunga, de alguma forma, com Karl Marx, quando este último denunciava a crescente alienação provocada pelo capitalismo.

 

Se Marx de forma otimista acreditava que no seio da sociedade opressora surgiria uma Revolução transformadora, Weber era cada vez mais pessimista…

 

Weber incomodava-se com a divisão crescente do trabalhado, e a transformação dos operários da fábrica e da administração burocrática em especialistas em pedaços, com atuação rigidamente limitada à reprodução diária e contínua de ações tão monótonas como insignificantes. Ele via o surgimento da “Gehäuse der Hörigkeit”, a famosa “jaula de ferro”.

 

Surge, então, um Weber preocupado, pessimista, que passou a desacreditar no discurso humanista do “homem livre”. O pensamento em parcelas, a exacerbação da técnica sobre a liberdade, tornava os seres humanos unidimensionais, presas fáceis ao pensamento totalitário vindouro.

 

Weber atravessou a fase mais aguda da revolução industrial, viu a unificação alemã, acompanhou a primeira guerra mundial e a industrialização da guerra. São elementos suficientes para a desesperança com a técnica exacerbada, esvaziada de qualquer conteúdo ético ou moral, com o pragmatismo niilista, algo que explodiria na década de trinta com o fascismo e o nazismo.

 

Nem mesmo a ruptura por líderes carismáticos trouxe liberdade quando conjugada com a técnica alienada. Ao contrário, o mundo nunca passou por um período tão violento, tão triste, tão unilateral!

 

Daí, a afirmação de Weber:

 

O limitar-se ao trabalho especializado, com a renúncia à faustiana universalidade do homem por ela subentendida, é uma condição para qualquer trabalho válido no mundo moderno; daí que a realização e a renúncia, hoje, inevitavelmente se condicionam uma à outra”.

 

Mas como atestou a Escola de Frankfurt, especialmente o notável Hebert Marcuse, o home do pós-guerra continuou unidimensional. Preso nas barreiras do industrialismo aperfeiçoado, e de um capitalismo cada vez menos dependente das suas raízes humanas, que começava a flutuar nas nuvens do mercado financeiro internacional.

 

Para o racionalismo tecnicista limitado, nada mais adequado do que a renúncia à liberdade em nome da dominação racional. Se num mundo impessoal e sem valores é correto o combate à corrupção, também é correta a pena de morte, a castração de mulheres em clínicas de aborto clandestinas, o aborto eugênico, a destruição da economia de um país em nome da capitalização e da liquidez do mercado de ações.

 

É por essa razão que, muitas vezes, Weber via um conflito entre a racionalidade exacerbada e a democracia, posto que homens unilaterais e desprovidos de princípios, também afastariam o conteúdo essencial da política, que é a defesa de valores, da liberdade de pensamento, de expressão, da igualdade material, da vida em sua essência.

 

O domínio exacerbado da técnica sobre os valores é uma desconstrução da sociedade, a nossa transformação em autômatos, em seres vazios. A própria mágica das religiões, ainda socialmente sancionadas como elementos de valoração do humano, é substituída pelo dogma cego, pelo comércio de crenças, pela perda do halo da salvação espiritual.

 

A religião também se transforma em instrumento racional de dominação, numa estratégia do poder. Mais ascética, menos mágica. Mais calculista, mesmo salvadora. Surgem apóstolos messiânicos montados no cavalo do capital, e transformam o mundo da fé, no mundo do poder elitizado. Novamente, numa “jaula de ferro”. Assim foi a inquisição, assim foi o fascismo protegido pelo silêncio católico, assim é o uso da religião para o combate a direitos fundamentais de pessoas excluídas.

 

E por este motivo que nada mais traduz o pensamento autocrático de Marina Silva, do que afirmar que a autonomia do Banco Central é aceita por todos os partidos. Ela excomunga aqueles que não seguem a sua religião, como o PT, o PSOL, e os partidos que ainda levantam a bandeira da soberania e da liberdade.

 

Para Marina é tão racional entregar o Banco Central ao controle do capital financeiro, como é renunciar à soberania nacional na Floresta Amazônica. Por isso certa vez alguém ligado à candidata disse:

 

A soberania do Brasil é algo relativo, pois até a lei brasileira prevê que os pais percam a guarda dos filhos, no caso de não tratá-los condignamente” (O Ministério das ONGs. Revista Solidariedade Ibero-Americana. Volume XXI, nº 06, Agosto de 2014, p. 14).

 

A “Nova Política” de Marina Silva segue de forma rígida a dogmática do capital. Aceita como parceiros os defensores das Leis da intolerância, perseguidores de homossexuais e da diferença, e aceita como racional a entrega da nossa soberania territorial e econômica.

 

Marina também defende o domínio da técnica sobre a política, como fizeram os militares em 64, ou os fascistas com seu pragmatismo radical na década de 30 do século passado.

 

Afirmou, in litteris, no seu programa de televisão, que não é aceitável que a economia do país seja controlada por políticas econômicas, e com isto ofende a essência da Democracia, é a entrega da soberania popular, pedra angular da nossa Constituição Cidadã, para um grupo de técnicos especialistas vinculados ao capital financeiro.

 

É o governo dos melhores de Marina Silva, dos por ela chamados de homens de bem, aquele propõe participação apenas como uma cosmética inútil, pois entrega o principal, que o direito dos cidadãos e cidadãs eleitores escolherem o seu projeto econômico, ao capitalismo internacional.

 

Vestida numa roupagem de carisma construído pela mídia televisiva, como messias do fim do mundo corrupto da política, a “nova Marina Silva” realmente propõe algo novo. Uma “Nova Jaula de Ferro”, intitulada autonomia do Banco Central.

 

Como isto, pretende aprisionar o futuro e desconstruir todo um projeto de liberdade e soberania desenvolvido nos últimos 26 anos no país. Lembro que Mussolini também prometeu combater a máfia italiana, e conseguiu. Mas o custo foi pago com milhões de vidas.

 

Assim como Jérôme Valcke, o histérico vigilante da FIFA, Marina prefere conversar com poucos, e torpedeia diariamente a política, o nosso Pacto Federativo e a nossa Soberania. Prefere ser ela a soberana, num país a ser destruído, sem emprego, sem alma, sem destino…

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