O ORGULHO GAÚCHO FRENTE À FARSA DE ANA AMÉLIA

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

Karl Marx, no seu clássico “18 Brumário de Luis Bonaparte”, fez uma declaração peremptória ao afirmar que os fatos e personagens importantes da História ocorrem, pelo menos, duas vezes, “mas a primeira como tragédia e a segunda como farsa”.

 

Na época o grande filósofo e político alemão denunciava a repetição dos Bonapartes, primeiro Napoleão, depois seu sobrinho, Luís Napoleão.

 

O primeiro Napoleão representou uma mudança estrutural do poder francês, mas levou o país a uma guerra sem fim em toda a Europa e na tragédia de milhões de mortes. Quanto mais crescia a megalomania de Napoleão, maior a tragédia francesa, representada pela fracassada invasão da Rússia, onde morreram mais de 700 mil soldados.

 

Já a ascensão de Luís Napoleão foi uma farsa golpista, quando a alienada pequena burguesia restaurou o poder dos monarcas do país, acabando com o processo transformador instaurado pela Revolução Francesa.

 

Ambos os Napoleões foram freios ao sentimento Republicano criado pela Grande Revolução e pelo Iluminismo. O primeiro levou o país à Guerra. O Segundo restaurou o império em detrimento do movimento republicano que estava enraizado em todo o território francês.

 

Para Marx, os pequenos burgueses viam no horizonte das suas pequenas propriedades o limite de uma pátria, e tinham medo de perder poder com o crescimento do proletariado organizado. O povo já conhecia o seu poder após a derrubada de imperadores, e não teria medo de levar a ditadura imposta pelo capitalismo exacerbado novamente ao chão.

 

De fato, Marx tinha razão, e novamente a história se repete! A trajetória do Rio Grande do Sul se confunde um pouco com a do ideal republicano da Revolução Francesa. Até hoje o arquétipo do gaúcho é de um agente libertário, de um revolucionário, de alguém que luta contra a entrega dos valiosos bens construídos no seu passado.

 

Por maiores que sejam as minhas críticas à Revolução Farropilha, pois entendo que os verdadeiros heróis morreram no “massacre de Porongos”, os “lanceiros negros”, é inegável que estes pagos contribuíram e muito para a transformação no país.

 

Lula sempre venceu as eleições no Estado antes de se tornar o maior Presidente e Estadista deste país. Aqui é a terra de Brizola, que armou seus seguidores contra a ditadura militar. Também é a terra que construiu o mais importante projeto de participação popular já conhecido, o “Orçamento Participativo”, levado de Porto Alegre para o mundo através da figura icônica do “Galo Missioneiro Olívio Dutra”.

 

Também em terras gaúchas surgiu o Fórum Social Mundial, espaço onde todos passaram a acreditar que “Outro Mundo É Possível”, colocando de vez as agendas da inclusão e da preservação ambiental nas estratégias de desenvolvimento, e contribuindo de forma decisiva para a derrota do neoliberalismo.

 

Ocorre que mesmo sendo o gaúcho orgulhoso do seu arquétipo, de guerreiro e de transformador, não está completamente imune às farsas, especialmente aquelas construídas pela mídia. Sabemos que o Estado possui um oligopólio nos meios de comunicação, o que reduz o potencial de crítica em rede aberta.

 

Vejamos o mais gritante exemplo, que a corrente presença de figuras vinculadas à maior rede de comunicação do Estado, a RBS, como candidatos aos cargos eletivos. São exemplos Antônio Britto (atualmente no PPS), Paulo Borges (DEM), Ana Amélia Lemos (PP) e Lazier Martins (PDT).

 

Apesar de se apresentarem em diferentes partidos, todos mantém a mesma linha discursiva voltada aos interesses do grande capital financeiro e às políticas de privatização. Lazier Martins, por exemplo, é uma desonra à história de Leonel Brizola, partido que tem o colunista do Jornal do Almoço (RBS) como candidato ao Senado.

 

Mas voltando à narrativa eleitoral, e seguindo as frases notáveis de Olívio Dutra, Antônio Britto (1994-1998) foi primeiro “cavalo do comissário” com mandato no Rio Grande do Sul. O “ex-jornalista” da RBS se apresentava como uma versão modernizada do PMDB, mas carregava nas suas costas todo o comprometimento com o capitalismo neoliberal, com o privatismo, proporcionando uma onda de exclusão e quebradeira empresarial sem precedentes no Estado.

 

Antônio Britto, cuja figura patética era muito diferente da do general francês, assumiu o poder defendendo a guerra fiscal, o que ampliou a crise financeira do Estado. Também foi responsável pela desconstrução da indústria calçadista do Vale dos Sinos, pelo massacre aos direitos dos servidores públicos, pela privatização da Companhia Riograndense de Telecomunicações – CRT, e pela entrega das duas partes mais lucrativas d CEEE para a iniciativa privada.

 

Mas antes de comercializar a CRT, criada por Leonel Brizola em 1959, realizou um forte investimento em infraestrutura, ampliando a capacidade lucrativa da empresa. Já CEEE, também criada por Brizola foi desmantelada e dividida em três, sendo os dois pedaços mais lucrativos na época, entregues de presente para iniciativa privada, sobrando apenas a área que era considerada como deficitária na época, a Zona Sul do Estado.

 

Mas o pior legado deixado por Antônio Britto ao Rio Grande do Sul foi negociação da dívida pública federal com o governo FHC. Tal medida deixou o Estado sem a menor capacidade de investimento, comprometendo gravemente a administração estadual, e prejudicando a execução dos serviços públicos.

 

Yeda Crusius tentou retomar a agenda de Antônio Britto, mas uma desastrada administração financeira e o estouro do escândalo do DETRAN colocaram o governo contra a parede, em completa inoperância.

 

Mas se o governo Antônio Britto foi uma tragédia, agora surge uma nova versão farsesca: Ana Amélia Lemos, na medida em que a candidata se negou, até, a informar quais são as suas propostas para o Estado num simples debate de televisão.

 

A nova versão do discurso neoliberal, representada por Ana Amélia Lemos, segue o mesmo roteiro de Antônio Britto. Aliás, assim como o ex-governador também era funcionária da Rede Brasil Sul de Telecomunicações – RBS.

 

Mas diferentemente de Britto, que abertamente indicava quais eram as empresas que seriam privatizadas e qual era a sua única proposta de governo, Ana Amélia tergiversa e foge da discussão.

 

Mesmo assim, os indicadores do seu receituário já estão surgindo em algumas cidades administrada por sua base no Rio Grande do Sul. O mais gritante ocorre em Uruguaiana, governada por um partido da base da candidata, o PSDB de Yeda Crusius, que já entregou todo o serviço de água e esgoto para a iniciativa privada. O imediato resultado da privatização foi a elevação da tarifa a valores surreais.

 

Comparando o modelo de gestão com o adotado em Rio Grande, por exemplo, onde foi mantido o serviço de saneamento como uma atividade pública, observamos que não cidade do Sul, além de não ocorrer elevação de tarifa, existe uma projeção de crescimento da cobertura de coleta e tratamento de esgoto em 400% até o final de 2014.

 

Por outro lado, parece-me claro quais são os dois principais alvos da nova representante do projeto da direita. Desta vez Ana Amélia tem à sua disposição um rentável pedaço da CEEE, localizada na região de maior crescimento econômico do estado, onde encontramos o Pólo Naval de Rio Grande e, obviamente, a rentável e saneada CORSAN.

 

Nesse sentido, fica para os gaúchos, na data em que comemoram o seu orgulho revolucionário, a escolha entre dois caminhos absolutamente distintos: defender os seus ideários libertários, ou entregá-los para a nova versão farsesca da trágica era Antônio Britto.

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