O (ANTI) AMBIENTALISMO DE MARINA SILVA

 

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Foto: “Apocalypse”, de Viktor Vasnetsov

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

É possível que encontremos raízes do ambientalismo já na antiguidade. Que o tema da ação negativa do homem sobre a natureza já tenha sido tratado por diversos autores e filósofos, dos mais progressistas aos conservadores.

 

Mas, segundo o sociólogo inglês Anthony Giddens, o que conta a história é que o Sierra Club, fundado por Henry Thoureau nos Estados Unidos em 1892 pode ser considerada a primeira organização ambientalista de atuação significativa no mundo.

 

Desse momento modesto do final do século XIX muita coisa já passou. Muitas organizações ambientalistas surgiram, especialmente em meados das décadas de sessenta e sessenta do século XX, algumas com estruturas transnacionais, que se afirmam sem pátria, sem território e sem partido, tema que retomaremos mais adiante.

 

Mas o movimento ambiental nem sempre foi afirmativo, revolucionário, transformador. Eu diria, que um grande grupo, dominado por financiamentos privados de grandes corporações ainda está longe disto. É possível, por exemplo, realizar uma ação radical contra o petróleo no Mar do Norte, mas fechar os olhos contra a tragédia que é a atuação da British Petroleum nos Estados Unidos.

 

Isso não quer dizer que a luta dos ambientalistas seja uma coisa ruim, mas o contrário. Afirma isto sim que, como todas as lutas políticas sem um centro ideológico, o ambientalismo também pode servir para diversos interesses, inclusive para a exclusão social e como subterfúgio para o exercício imperialista das grandes potenciais econômicas.

 

Vejamos o caso do Oriente Médio, incontestavelmente possui uma biodiversidade relevante, com uma grande riqueza pouco conhecida, sendo o centro de uma grande produção cultural. Mas durante o bombardeio de Gaza pelos israelenses, além das milhares famílias massacradas, centenas de animais também perderam a vida. O Zoológico de Gaza, com algumas espécies raras, foi absolutamente destruído, e com ele a esperança científica de recuperar cepas genéticas importantes e garantir a sobrevivência de determinadas espécies.

 

A biodiversidade do Oriente Médio só foi apresentada ao mundo quando numa loucura de Saddam Hussein foram derramadas milhares de toneladas de Petróleo no mar da Arábia, matando peixes e pássaros. Contudo, toda a violência da invasão americana não foi apresentada, e todos os dias é realizada uma pesada exploração do combustível negro no Kuwait, na Arábia Saudita e no mundo fabuloso dos xeiques dos Emirados Árabes Unidos, e nenhuma palavra na imprensa!

 

Dubai é linda para o turismo, mas qual o custo? Qual o impacto do aterramento de imensas áreas das margens sobre a biodiversidade marinha? Qual é o efeito do uso intensivo de vidros espelhados e da construção de arranha-céus por desejo egocêntrico sobre o habitat das aves? Nada, Dubai é apenas um cartão postal do sucesso do capitalismo globalizado.

 

A Nigéria é uma das maiores produtoras de petróleo do mundo, mas o controle realizado pelas potenciais internacionais sobre a produção tem afastado críticas dos grandes veículos de comunicação.

 

Então, não sejamos hipócritas, o ambientalismo ainda é hoje muito utilizado como instrumento de dominação, como instrumento de perseguição ou de catecismo de comunidades tradicionais e indígenas. Alguém já se perguntou a quantidade de conhecimentos, crenças e valores que são perdidos diariamente em razão da ação de grupos religiosos estrangeiros sobre os povos indígenas?

 

É evidente que as falhas do oportunismo de determinados grupos não pode servir de desculpa para a destruição do planeta, para a permanência de um modelo de consumo insustentável, e para a prática de maus-tratos contra animais, ou para o exercício continuo de extermínio de espécies animais e vegetais.

 

Mas também fica o questionamento: quando será que as potências econômicas internacionais pagarão a imensa dívida que possuem para com os países em desenvolvimento, dada a agressão sem precedentes sobre a nossa biodiversidade?

 

Muito do massacre diário aos Gorilas da Montanha (os gigantes gentis) em Uganda e na República Democrática do Congo, uma das espécies de primatas geneticamente mais próximas ao ser humano, pacíficos e sociáveis, mas criticamente ameaçados de extinção, são decorrentes da introdução da cultura opressora dos brancos europeus, e da pobreza sem precedentes imposta no período colonial.

 

Uganda é um dos países mais pobres da África e do Mundo (164º quarto colocado no ranking do IDH), e ainda sofre com a pobreza trazida ao país pelo colonialismo inglês. Como esperar que uma população em miséria absoluta, na maior parte analfabeta, vá conseguir avançar na proteção das outras espécies? O imperialismo impôs uma autofagia não apenas entre humanos, mas entre outras espécies, e somente superando a pobreza e a exclusão social que conseguiremos construir a consciência ecológica necessária para preservar as espécies ameaçadas.

 

Por outro lado, não faz muito tempo que o ex-Rei da Espanha, Juan Carlos passou um tempo visitando a África. Mas não para pagar a dívida histórica de exploração do norte do continente, e sim para caçar Elefantes, outra espécie em processo de extinção. Neste caso, a imprensa europeia tratou do assunto como apenas uma excentricidade de sua majestade, ao contrário de condenar o sua falta de civilidade!

 

Nunca podemos esquecer que não foram os nativos brasileiros que quase levaram o Pau-brasil ao seu fim, mas a ação predatória do colonialismo português financiado pelo capitalismo nascente na Inglaterra. O roteiro se repetiu no Peru, no México, na Argentina, e em diversos outros países do nosso Continente, em nome da prata, do ouro e de outros recursos naturais.

 

O mítico pássaro dodô, personagem constante em desenhos animados e na obra Alice no País das Maravilhas, não foi extinto pelos nativos das Ilhas Maurício, mas pela ação predatória do marinheiros holandeses que chegaram ao arquipélago a partir de 1598. Passados apenas 64 anos, a espécie de ave estava extinta.

 

Portanto, a dívida Ecológica das economias centrais é gigantesca, e deve ser colocada na Balança Geopolítica do Desenvolvimento. Não existe sustentabilidade com exclusão, com a fome, a falta de acesso ao saneamento, com dívidas externas impagáveis a fundos abutres, em síntese: não existe sustentabilidade num mundo onde predomina o capitalismo selvagem imperialista.

 

Então, há muito em jogo quando falamos de ecologia, razão pela qual é necessário destrinchar o pesado jogo ideológico envolvido neste campo.

 

Voltando a Giddens, o autor lembra que o Nazismo tinha um movimento interno de à proteção da natureza. Mas era uma visão estética, de natureza intocada, com nenhuma preocupação com o futuro. Havia um movimento conservacionista, uma agricultura orgânica crescente e, acreditem, até mesmo vegetarianismo!

 

Assim como o signatário deste texto, como Leonardo da Vinci e Gandhi, Hitler também era vegetariano! Mas não era um vegetarianismo por concepção filosófica, por preocupação com o respeito aos demais ocupantes da natureza. O comandante nazista mantinha florestas intocadas, onde seus oficiais da SS e da Wehrmacht poderiam caçar veados e outras animais sem a menor preocupação. Como afirmei, a visão ambientalista dos nazistas era estética, busca-se a pureza, a construção de um verdadeiro Santuário, de um mundo ideal para a vida dos Arianos – “todos sob a proteção da Cruz Suástica”.

 

Hitler amava a sua cadela pastora alemã, mas sobre o seu comando milhares de cães foram chacinados numa política de melhoramento de espécies, ao ponto de muitas doenças de natureza genética que hoje afetam as raças pastor Alemão, rotweiller, e dobermann, como a displasia coxofemoral também foram criadas nesta época.

 

Hitler também se utilizava constantemente da injeção de hormônios de carneiro, numa outra insana medida para manter a sua vitalidade e demonstrar o poder de grande chefe do Terceiro Reich.

 

Portanto os nazistas retratavam no seu pensamento ambiental a mesma visão de exclusão, de pureza racial e genética, e de extermínio da diferença. Assim como judeus, ciganos, gays e outros seres humanos foram massacrados em campos de concentração e nas câmaras de gás do complexo Auschwitz-Birkenau, outras espécies que não demonstravam a “pureza” pretendida, tiveram o mesmo caminho de eliminação.

 

Não é ao acaso que a primeira manifestação do movimento ambientalista de vertente purista tenha surgido na Alemanha. Muito do pensamento do antigo regime estava enraizados em determinados grupos, ao ponto do lema “nem à direita, nem à esquerda, verde” ter fomentado o retorno do conservadorismo expresso na eleição União-Democrata-Cristã, de Helmut Kohl, que instaurou uma onda privatista sem precedentes na Alemanha pós-nazismo.

 

Kohl, assim como Thatcher e Reagan formaram o tripé da onda reacionária que varreu as economias do capitalismo avançado nas décadas de setenta e oitenta, e a América do Sul na década de noventa, onda esta popularmente conhecida como neoliberalismo.

 

O discurso neoliberal ganhou um casamento interessante com grupos puristas do segmento ambiental, aqueles que se situam acima da direita e da esquerda, graças ao uso inadequado e deturpado do conceito de “crescimento zero”.

 

Ao contrário da visão original, criada por economistas de esquerda onde o “crescimento zero” tinha por objeto melhorar a distribuição dos resultados da atividade econômica. A visão ecológica-neoliberal associa a redução do crescimento com a redução dos impactos sobre a capacidade de suporte do planeta. Não há uma discussão sobre a distribuição de ganhos, mas um jogo de soma-zero onde todos perdem.

 

Uma redução de investimentos em infraestrutura, como estradas na Amazônia, por exemplo, resulta em menos impactos no meio ambiente. Em compensação também resulta em maior desemprego e exclusão social. O excedente é transferido para o capital financeiro e aplicado nas bolsas verdes, que financiam a ação excludente de muitas entidades que defendem o ambientalismo de Santuário.

 

O uso de algumas tecnologias de robótica pode resultar numa redução imediata de parte do impacto no meio ambiente, além da maior agregação de capital. Mas, em contrapartida, se não estiver associada a um acordo coletivo de trabalho que também reduza o tempo da jornada de trabalho, não nenhuma distribuição é diminui o número de postos de trabalho.

 

O exemplo clássico é a incineração de resíduos, adotada em cidades como Nova York, que são responsáveis pela geração de fontes de energia, mas não muda a cultura de consumo e não possui a mesma capacidade de geração de postos de trabalho do que logística reversa associada à parceria com cooperativas de catadores. Logo, embora verde, não é sustentável!

 

Portanto, muitas posturas conservadoras do neoliberalismo são simpáticas para o ambientalismo purista, de santuário, isso sem contar o crescente uso da marca ambiental por empresas que atuam no mercado de consumo.

 

Podemos, a priori, reduzir o movimento ambiental em três grandes grupos:

 

  1. os ambientalistas de santuário – normalmente formados por grupos puristas que defendem conceitos ambientais importantes, mas fecham os olhos à desigualdade social, como a prática de algumas grandes ONGs internacionais;

 

  1. os ambientalistas sustentabilistas – grupo formado por vários grupos de centro, de esquerda e de centro esquerda, onde a preservação da natureza é um imperativo categórico, diretamente vinculado à inclusão social; e

 

  1. os ambientalistas de capital – são os grupos que usam a marca verde apenas como uma alavanca para os seus produtos, nas suas aplicações financeiras, mas nem sempre apresentam resultados inclusivos.

 

É exatamente neste ponto que se marcam as diferenças. Se é verdade que, por um lado, o movimento ambiental como um ente orgânico não existe, é uma ficção, por outro é uma grande mentira afirmar que o crescimento da pauta ambiental surgiu pela organização de ONGs e dos ambientalistas de santuário.

 

Eu iria mais longe, ao afirmar de forma peremptória que a proliferação de grupos ambientalistas surgiu pela luta das comunidades excluídas e pela construção intelectual da esquerda.

 

Na Escola de Frankfurt, também na Alemanha, as teorias de Adorno, Max Horkheimer, e Herbert Marcuse demonstraram a falácia do sucesso da sociedade industrial do pós-guerra, denunciando as graves consequências da cultura de consumo para o futuro da humanidade, bem como a sua contribuição para a crescente alienação da sociedade. No mesmo caminho seguiu o pensamento de marxistas, como André Gorz e James O’Connor.

 

Mais recentemente Enrique Leff tem revolucionado o pensamento ambientalista com a defesa de uma agenda política focada na participação direta das comunidades. A racionalidade ambiental de Leff tem uma linha efetivamente sociológica, defendendo a importância da associação entre a proteção da natureza, da inclusão social e da participação efetiva dos integrantes da sociedade.

 

O mesmo caminho tem sido seguido por Boaventura de Sousa Santos, Jared Diamond e pelo próprio James O’Connor.

 

Já no campo das lutas sociais não precisamos ultrapassar as fronteiras da América Latina, onde predominam os movimentos dos seringueiros, da reforma urbana, dos catadores de material reciclável, de Chiapas e, especialmente, dos trabalhadores rurais sem terra, para mostrar que a agenda ambiental está fortemente vinculado à luta por inclusão social.

 

São exatamente estas frentes políticas de luta que colocaram a bandeira do ambientalismo transformador na pauta política nacional. Digo mais, a política ambiental cresceu no Brasil não pela pífia atuação do Partido Verde, mas da luta construída pelo Partido dos Trabalhadores, especialmente nas décadas de oitenta e noventa.

 

O PT foi o grande responsável por alavancar a defesa do meio ambiente como uma ação concreta, e não apenas como um discurso dos sonhos dos moralistas de santuário. Quadros políticos como Chico Mendes, João Pedro Stédile, Carlos Minc e Leonardo Boff são muitos mais importantes para a construção da política ambiental brasileira do que Marina Silva.

 

Marina combina no seu discurso e no seu apoio político dois tipos de ambientalistas: os de santuário e capital. Em nenhum dos modelos, como demonstramos, existe espaço para a inclusão social. Os ambientalistas de santuário vivem atrás de um mundo idílico, com o afastamento da atuação das comunidades tradicionais. Os de capital, da agregação de valor aos seus produtos pelo uso de um selo verde.

 

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (Acre), antiga base de atuação de Chico Mendes:

 

“os trabalhadores rurais da base territorial do Sindicato de Xapuri (Acre), não concordam com a atual política ambiental em curso no Brasil idealizada pela candidata Marina Silva enquanto Ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista e de grandes Ong’s internacionais. Essa política prejudica a manutenção da cultura tradicional de manejo da floresta e a subsistência, e favorece empresários que, devido ao alto grau de burocratização, conseguem legalmente devastar, enquanto os habitantes das florestas cometem crimes ambientais”.

 

Mas eu iria mais longe. Os próprios ambientalistas de santuário ocupam um espaço marginal entre os apoiadores da neopesebista. A grande base ambiental de Marina Silva é formada por empresas capitalistas típicas, e aqui não falo apenas dos aplicadores no mercado verde da bolsa de valores, mas de empresas como a comandada pelo seu ex-candidato a vice-presidente em 2010, a Natura.

 

Numa perfeita adequação ao mundo do capitalismo pós-moderno, Marina Silva é um simulacro ambientalista! Uma fantasia sem conteúdo concreto, um espectro da antiga seguidora de Chico Mendes. É a nova representação icônica do capitalismo financeiro monopolista.

 

Já a Natura é símbolo de um modelo capitalista radical, que usa o selo da proteção da natureza apenas como marketing. Não falo apenas do uso de conhecimentos tradicionais, mas essencialmente da forma de tratamento dada aos seus funcionários.

 

Diferentemente do Boticário, seu principal concorrente no mercado nacional de perfumes e cosméticos, a Natura optou pela prática da venda direta, modelo criado pelo empresariado norte-americano na década de sessenta para a venda de utilidades domésticas.

 

Na venda direta não é formada nenhuma relação trabalhista, não há carteira assinada, nem direitos trabalhistas.  Diferentemente do seu maior competidor no mercado nacional, o Boticário, que mantém lojas franqueadas com funcionários registrados e de carteira assinada, a Natura usa predominantemente a venda direta.

 

A venda direta se surgiu na década de sessenta nos Estados Unidos com um discurso voltado à criação de renda alternativa para as mulheres, mas a Natura estabelece metas e cotas de vendas que devem ser cumpridas mensalmente por suas representantes, dentro de um regime extremamente rigoroso. Nem a norte-americana Avon, pioneira na venda direta de cosméticos no Brasil, é tão rigorosa com relação às suas metas comerciais.

 

Temos, portanto, subordinação a regras fixas para vendas, hierarquia formada na rede de representação, é uma série de elementos que induzem a uma relação trabalhista travestida de venda direta, mas este será um tema a ser abordado em outro artigo.

 

Portanto, é sempre necessário desconfiar das empresas que pregam o uso intensivo e discriminado do selo ambiental, mas não demonstram com clareza o trato que oferecem aos seus trabalhadores e colaboradores. Precisamos olhar todo o ciclo produtivo e comercial dos produtos, desde o processo de concepção inicial da tecnologia que será vendida às relações que se estabelecem no mundo do mercado.

 

Uma empresa que tenha por objetivo a marca da sustentabilidade deve cumprir alguns requisitos básicos, como reconhecer o conhecimento socialmente produzido pelas comunidades tradicionais, remunerando de forma justa tais comunidades por isso, garantir o pleno respeito aos direitos trabalhistas, estabelecer um ciclo comercial integral, inclusive com logística reversa, não realizar testes de produtos em animais, reinvestir em projetos de inclusão social e proteção ambiental, dentre outros. A empresa que não cumpre estes requisitos mínimos, pode apresentar a marca verde, mas está longe de ser sustentável.

 

Como se observa, as parcerias ambientais de Marina Silva estão distantes da constituição de uma política efetivamente sustentável.

 

Só que o desenho do seu projeto político é bem mais perigoso, colocando em risco a capacidade do Estado de proteger a natureza, e a própria soberania política do país. Marina tem se afastado até mesmo das entidades com visão de santuário, pelo menos de um santuário soberano.

 

Alguns mitos já derrubados pela ciência, como o de que a Amazônia é o pulmão do mundo ainda compõem a sua proposta, mesmo que a maior extração de CO2 seja realizada pelos Oceanos e pelas calotas polares. Na verdade, tal região representa, isto sim, uma imensa biodiversidade e um enorme fonte de conhecimentos, com grande peso estratégico para o futuro do país.

 

Mas como falava anteriormente, a ex-ambientalista, e hoje ícone do conservadorismo e defende um modelo econômico absolutamente regressivo e contrário a qualquer projeto de proteção soberana dos nossos recursos naturais.

 

A candidata da “nova velha política” carrega consigo o tripé do capitalismo selvagem neoliberal e uma visão de que a proteção da natureza deve ser realizada no âmbito privado, uma espécie de Welfare-State-Ecológico-Conservador (fazendo uma alusão ao modelo alemão de bem-estar onde predomina a ação subsidiária do Estado).

 

A atuação do Estado é meramente subsidiária, cabendo ao mercado competitivo e às entidades da sociedade civil agir diretamente na proteção da natureza. Ao contrário da implementação de reservas extrativistas, como defendido no passado por Chico Mendes, e áreas de Proteção Ambiental ou outros modelos de unidades de conservação mantidas pelo poder público, mas com o uso sustentável pelas comunidades tradicionais, Marina representa o modelo da reserva particular do patrimônio natural, e das concessões de florestas, dentre outras medidas com perfil claramente privatista.

 

O centro desse modelo é que o Estado é um instrumento ineficiente, por isso deve a iniciativa privada tomar conta da sua gestão, seja por meio de concessões, da privatização pura e simples, ou ainda das “velhas organizações sociais”.

 

Quem viveu no Rio Grande do Sul no período do desgoverno de Yeda Crusius sabe do que estou falando. Na época a ex-governadora propôs a transformação da FEPAM, principal órgão de fiscalização ambiental no Rio Grande do Sul numa organização social, bem dentro do modelo do Plano Diretor de Reforma do Estado de FHC.

 

Dentro dessa lógica, o Estado repassa para certas entidades da sociedade civil o controle sobre algumas políticas sociais, incluindo todo o acervo patrimonial e financeiro por meio de um contrato de gestão. Ou seja, temos uma privatização assistida do poder de polícia que deveria ser exercido pelo Governo. A própria ideia de guarda-noturno dos liberais revolucionários dos séculos XVIII e XIX cai por terra, e a estrutura do estado retorna ao medievalismo patrimonialista.

 

Particularmente não sou totalmente contra as organizações sociais, mas entendo que tal modelo deve ser utilizado de forma invertida. Ao contrário de repassar as estruturas do Estado para a iniciativa privada, acredito que o correto é utilizar o contrato de gestão para fomentar ações que já são desenvolvidas pela sociedade civil. Ou seja, a ação da sociedade civil é que deve ser subsidiária, mas não a do Estado. Trata-se de um tema que merece um amplo debate em artigo específico.

 

Mas o centro da política de Marina Silva é o do Estado Subsidiário, com menor soberania e, por via de consequência, como menor controle social. Vejamos, por exemplo, a proposta do seu principal assessor para políticas Ambientais, João Carlos Capobianco, em relação à Amazônia.

 

Quando Marina perdeu o sonhado controle do Plano Amazônia Sustentável para a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, em 2008, largou o Ministério do Meio Ambiente, e não se dignou nem a comparecer na posse do seu substituto, um dos mais importantes ambientalistas brasileiros, Carlos Minc.

 

Para tanto, a atual candidata pelo PSB encaminho Capobianco como substituto, que na época fez um dos mais controversos discursos da base marineira, conforme relato do Jornal Hora do Povo de Pernambuco, datado de 04 de junho de 2008:

 

Durante a transmissão do cargo ao novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o então secretário-executivo daquele Ministério, João Paulo Capobianco, discursando como ministro interino, afirmou que a soberania do Brasil sobre a Amazônia é algo relativo, pois “até” a lei brasileira prevê que os pais percam a guarda dos filhos, no caso de não os tratarem condignamente.

 

Aqui temos uma reprodução de tudo que foi dito anteriormente. Para a “nova política” de Marina Silva o Estado deve ser afastado da política ambiental que, por sua vez, deve ser repassada para o setor privado. Ou seja, podemos perder o controle sobre 61% do nosso território, quase 2/3, hoje é ocupado pela Amazônia. Portanto, não enfrentamos apenas uma discussão sobre projetos distintos, mas sobre a soberania nacional.

 

Seguindo a tese de Marina e de Capobianco, hipoteticamente uma entidade como a WWF (World Wide Fund for Nature), por exemplo, que recebe recursos de entidades como HSBC, Philip Morris, Chevron, Exxon e Mobil, as quais, diga-se de passagem, não possuem nenhuma preocupação ambiental, poderia perfeitamente assumir a gestão da Amazônia por meio de contrato de gestão.

 

No exemplo acima temos perfeitamente o retrato da política das organizações sociais projetada pelos oráculos do capitalismo monopolista na década de noventa. As entidades privadas associadas ao capital financeiro exercem o controle sobre o patrimônio público e as políticas sociais. O Estado fica como mero fiador, como agente subsidiário, com reduzida capacidade de intervenção efetiva.

 

Tais ilações podem ser perfeitamente realizadas quando comparamos o discurso ambientalista de Marina com a sua proposta econômica, especialmente a de independência plena do Banco Central e o tempo na exploração das reservas Pré-sal.

 

Lembro que a nossa plataforma continental no Oceano Atlântico é muito mais do que o pré-sal, mas também uma verdadeira “Amazônia Azul”, fonte de conhecimentos e uma grande biodiversidade que ainda não foram completamente estudados e identificados.

 

Não podemos esquecer que, assim como Aécio Neves do PSDB, a candidata do PSB também carrega consigo uma série de esqueletos da onda privatista de FHC, como André Lara Resende e o fundamentalista do neoliberalismo Eduardo Giannetti da Fonseca. Isso quer dizer que a socialite e dona do Itaú Neca Setúbal é apenas um dos grandes peixes no meio da “Rede” de tubarões de capitalismo financeiro internacional que cercam Marina Silva.

 

Se Aécio é inegavelmente um agente do atraso, do patrimonialismo, do privatismo, da destruição do estado e do arrocho financeiro, o mesmo pode ser afirmado, sem a menor dúvida, sobre Marina Silva, inquestionavelmente uma candidata tão reacionário como o represente oficial dos tucanos.

 

Portanto existe algo mais grave no pensamento de Marina Silva do que a sua descrença em Darwin! Aliás, é curioso que a luta contra as mudanças climáticas do planeta possa ser entregue a uma pessoa que não reconhece o mínimo de ciência séria, que é a teoria da evolução.

 

O baú de contradições de Marina Silva está apenas no discurso. No seu projeto político o Brasil deve virar uma mera “República de Bananas”, e entregar toda a soberania aos abutres do capital especulativo internacional.

 

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– Artigo publicado no Diário Liberdade em 22 de setembro de 2014: http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/410-consumo-e-meio-natural/51408-o-anti-ambientalismo-de-marina-silva.html

– Artigo publicado em América Latina em Movimento em 23 de setembro de 2014: http://alainet.org/active/77377&lang=es

– Artigo publicado no Sul21 em 23 de setembro de 2014: http://www.sul21.com.br/jornal/o-anti-ambientalismo-de-marina-silva-por-sandro-ari-andrade-de-miranda/

 

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