QUEM É O RESPONSÁVEL PELA CRISE HÍDRICA DE SÃO PAULO?

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Foto: Vista da represa Jaguari-Jacareí, do Sistema Cantareira, em Joanópolis/SP – Fonte Mananciais.org.br

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

 

Muito tem se falado sobre a falta d’água em São Paulo, inclusive com uma reportagem bisonha da Rede Globo, no programa televisivo Fantástico, onde afirmam ser este um problema gerado pelo corte de uma árvore na Amazônia.

Se é bem verdade que o desmatamento é um problema grave a ser enfrentado por meio da ação articulada entre os entes federativos, a afirmativa pregada pela Globo é absolutamente inconsistente, e demonstra a estratégia midiática para esconder a gravidade da crise produzida pela falta de investimentos da SABESP em políticas ambientais e de saneamento.

Assim como aconteceu no apagão de FHC em no início deste século, novamente a Rede Globo e o PSDB insistem a jogar as responsabilidades pelos problemas exclusivamente ao clima.

Para tentar compreender o problema de forma mais ou menos razoável, utilizei a farta bibliografia disponível na rede mundial de computadores, medida esta que pode ser realizada por qualquer pessoa que conheça o mínimo de metodologia de pesquisa científica.

O Sistema da Cantareira é a maior bacia de abastecimento do Estado de São Paulo, atingindo uma população de 8,8 milhões de pessoas. Criado em 1960, recebeu o último investimento para ampliação do sistema em 1976, com a criação dos reservatórios de Jaguari e Jacareí.

E aqui temos um grande problema a ser enfrentado, que é a ausência de investimentos neste segmento pelo Governo Paulista, situação esta que ficou agravada com a onda privatista instaurada com a ascensão dos governos do PSDB na década de noventa.

De acordo com o professor Antonio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), especialista no setor hídrico:

No dia seguinte à inauguração do Cantareira, a Grande São Paulo deveria procurar outras opções, (…) e esse planejamento existia, tanto que o slogan do Cantareira (em 1983) era ‘Água para 2010’, e em 2010 já deveria existir outro Cantareira, ou outros Cantareiras, e isso infelizmente não aconteceu”, disse. “O planejamento existiu, só que ele não foi executado“.

[disponível em: http://portal.tododia.uol.com.br/_conteudo/2014/08/cidades/38720-seca-no-cantareira-deve-zerar-tambem-o-alto-tiete.php, Acesso em 15/10/2014].

Além disso, outros fatores contribuem para o colapso do sistema. Um dos maiores exemplos são as obras do interminável Rodoanel (suspeita de inúmeros indícios de corrupção), como atesta relatório de 2002, do Instituto Sócio Ambiental – ISA:

A RMSP [Região Metropolitana de São Paulo] apresenta um dos quadros mais críticos do país em relação à garantia de água em quantidade e qualidade adequada para abastecer seus habitantes. Além da baixa disponibilidade hídrica natural da região, o quadro se agrava em função da ausência de política de proteção dos mananciais. Isso pode ser comprovado pela população ali residente – 1,6 milhão de pessoas ou quase 10% do total da RMSP – e pela inexistência de políticas de conservação e reutilização da água. O resultado é uma ameaça constante de racionamento, de crise de abastecimento e mananciais à beira da exaustão – como é o caso das represas do Sistema Cantareira que, após 30 anos de uso, já apresentam sinais de colapso. Além disso, serão afetados pelo trecho norte do Rodoanel”.

[disponível em: http://www.socioambiental.org/esp/rodoanel/pgn/index_html/, Acesso em 15/10/2014].

A falta de preocupação com recuperação e preservação de mananciais tem sido uma constante no Governo de São Paulo, ao ponto do Ministério Público ter cobrado o DERSA (Desenvolvimento Rodoviário S. A.), em 2011, pelo atraso na realização das ações de compensação ambiental do projeto do Rodoanel, especialmente destinadas à preservação do Sistema Cantareira.

Outro ponto crítico na argumentação do Governo Alckmin (PSDB) e da Rede Globo é que de fato existe uma baixa influência da Amazônia sobre a rede hídrica do Estado. Como demonstra o mapa abaixo, todas as bacias paulistas herdam a contribuição do complexo do Rio Paraná, que tem o cerrado como principal fonte de contribuição.

 

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Na prática, se Alckmin (PSDB) quisesse culpar um terceiro pela falta d’água de São Paulo deveria cobrar os seus companheiros governadores de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná, Estados que possuem os principais corpos hídricos de contribuição para as bacias paulistas. São todos administrados por tucanos! Aliás, Goiás e São Paulo também estão entre os campeões de queimadas e desmatamentos.

Se os tucanos insistirem em culpar a Amazônia sobre a crise hídrica, também deveriam realizar uma cobrança interna, pois o governador do Estado onde existe o maior desmatamento da Região, o Pará, também é filiado ao PSDB.

De acordo com a Agência Nacional de Águas, não podemos desconsiderar a falta de planejamento do Governo tucano por não ter apresentado um plano de contingência para evitar a continuidade da crise, a qual, diga-se de passagem, já era de conhecimento do Governo Estadual desde o início de 2014:

Outra crítica do diretor-presidente da ANA é que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo não apresentou até hoje – oito meses após a admissão da crise pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) – um plano de contingência efetivo para o Cantareira. “Até agora só se fala de tirar água do volume morto”, comentou Andreu. Em julho, o GTAG já havia recusado um primeiro plano por somente propor aumentos de vazão entre os meses de julho e novembro deste ano”.

[Disponível em: http://www.espaco.org.br/site_mananciais/?p=893, Acesso em 15 de outubro de 2014].

Mas o uso do volume morto deve ter um efeito perverso ainda maior para o combate à seca. A redução da umidade nas regiões de captação tem efeitos negativos sobre a flora e temperatura do entorno, contribuindo para o avanço da crise e o aumento da falta d’água.

Outro exemplo problemático no discurso do Alckmin (PSDB) é a afirmação de que São Paulo sofre uma seca sem precedentes. Os mapas abaixo, extraídos do sistema de controle do clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, demonstram que a seca no Estado ficou apenas entre média e moderada, situação distinta, por exemplo, do sertão Nordestino.

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Ocorre que no Nordeste não vemos um escândalo tão grave como o paulista, fruto do planejamento governamental e do investimento federal em obras de recuperação de mananciais, transposição dos São Francisco e no programa de cisternas, tanto que o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, disse em entrevista à BBC Brasil, que São Paulo deve aprender com o Nordeste a enfrentar as crises de seca.

[Disponível em:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140820_crise_agua_nordeste_sudeste_rb, Acesso em 15/10/2014].

Por fim, resta lembrar que o PAC 2 destinou 2,8 bilhões de recursos para investimentos em Saneamento, vantagem aproveitada com ênfase pelos governos nordestinos e pelo Rio Grande do Sul. Mas a postura autocrática de Alckmin fez São Paulo perder o trem da história, assim como já tinha feiro em políticas de saúde, como no famoso caso da SAMU.

Logo, se existem responsáveis pelo problema hídrico e de abastecimento em São Paulo, eles estão no comando do Governo estadual desde 1994, com maior responsabilidade do atual Governador Geral Alckmin, que tem preferido bravatas a enfrentar a crise com seriedade.

 

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