HAVERÁ LIMITES PARA A ESTUPIDEZ HUMANA? Um rápido debate sobre o “especismo” e a violência contra animais.

chipanze-tigre

Foto: amizade entre fêmea de chipanzé e filhote de tigre albino (disponível na rede mundial de computadores)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado no Rio Grande do Sul, mestre em ciências sociais.

 

Embora o termo “especismo” tenha ganhado força com a obra notável de Peter Singer, “A Libertação Animal”, a palavra foi criada pelo psicólogo britânico Richard D. Ryder, um dos pioneiros na campanha contra a utilização de animais para testes em laboratórios.

Segundo Ryder, o “especismo” é mais uma das várias formas de discriminação praticadas pelo homem, dirigida diretamente contra as outras espécies. De acordo este autor, aqueles que praticam o “especismo subestimam as semelhanças entre o discriminador e aqueles que são discriminados”, medida esta que é comum a todas as formas de discriminação.

Mesmo sendo vegetariano, optei pela construção de um texto com caráter mais descritivo do que militante, buscando demonstrando a gravidade do problema do especismo para a sociedade, e como este tipo de prática discriminatória está incluído no âmbito das práticas de degradação ambiental exclusão da diferença.

A preocupação de Ryder e de Singer se justifica por vários motivos, pois o ser humano, até hoje, foi a única espécie animal capaz de promover a extinção de outras espécies e vegetais. Recentemente foi publicado um estudo pela American Journal of Primatology, afirmando que o ser humano não era o único animal que praticava a extinção, afirmando que os chipanzés de Uganda poderiam levar outra espécie de primata, o colobo, à extinção pelo caça contínua do referido animal. Mas o estudo é falho, desconsiderou uma variável fundamental, pois o principal motivo para a queda na população dos colobos não é a caça realizada pelos nossos parentes genéticos mais próximos, mas a degradação ambiental causada pelo próprio no homem nas florestas locais, diminuindo as fontes de alimentação dos colobos e, em consequência, afetando a cadeia alimentar da qual fazem parte os chipanzés.

Portanto, quando falamos na extinção de espécies, ou temos fatores exógenos (como a queda de um cometa, por exemplo), o que provavelmente causou a grande extinção dos dinossauros em passado remoto, ou a ação decisiva dos seres humanos, como no caso do mítico pássaro dodo, do leão europeu, do leão de atlas em diversas das suas regiões originais, dentre outras milhares de espécies.

A caça indiscriminada, a poluição e, principalmente, a destruição de habitats e ecossistemas, são os principais responsáveis pela extinção de espécies numa luta injusta que inclui a pesca agressiva de tubarões, atuns, baleias, golfinhos e, a caça de tigres, leões, leopardos, elefantes, onça, dentre outras várias outras práticas predatórias, como a montagem de armadilhas, cercas elétricas, redes envenenadas, etc..

Mas existem outros fatores que contribuem para a extinção de espécies, como a falta de saneamento e a própria disseminação de doenças transmissíveis para indivíduos do mesmo tronco genético, como é o caso da ameaça do ebola para gorilas, chipanzés, bonobos, e outros grandes primatas africanos.

Não podem ser esquecidos os fatores culturais e a utilização da caça como alternativa de vida em face das péssimas condições sócio econômicas, como nos constantes ataques ao pacífico e imponente “gorila da montanha”, em regiões pobres como Uganda e Ruanda, para sustentar um mercado negro de venda de partes do corpo do animal, especialmente das suas mãos.

Elefantes são caçados pelo marfim, rinocerontes pelo cifre, felinos pela pele, tartarugas pelo casco, dentre outros. Nunca podemos desconsiderar a ação do capitalismo selvagem e o egocentrismo estético dos seres humanos.

É a crescente busca por pastagens e pela expansão descontrolada da fronteira agrícola, com o uso de técnicas superadas no tempo (como é o caso das queimadas), resultando na destruição de ecossistemas relevantes, como no caso do Cerrado brasileiro, das savanas amazônicas, e da Caatinga, destruindo, assim, o espaço de sobrevivência de milhares de espécies, como o Lobo Guará, o Tamanduá-bandeira, e o símbolo da copa, o Tatu-bola, além de degradar importantes fontes de recursos hídricos, o que impacta não apenas na vida das espécies aquáticas, mas dos próprios seres humanos.

Já o egocentrismo estético faz com que muitas empresas do mercado internacional de cosméticos ainda patrocinem absurdos e desnecessários testes laboratoriais em animais, ou que tubarões e tigres sejam caçados para a utilização de partes do corpo com a finalidade afrodisíaca ou estimulante. Neste último caso, sem nenhuma base científica que ofereça sustentação para condutas tão atrasadas. O caso dos tubarões é a demonstração típica do primitivismo predatório do caçadores, pois muitos destes peixes tem as barbatanas cortadas e são devolvidos ao mar, sem nenhuma condição de sobrevivência.

Com relação aos testes laboratoriais em animais, a boa notícia é que muitas empresas brasileiras do setor estão livres desta prática selvagem, como é o caso do Boticário, da Feito no Brasil, da Nazca, da Skala, dentre outras, o que garante uma importante vantagem comparativa comercial para a indústria nacional.

Mas a estupidez humana “especista” pode ganhar requintes de crueldade e atingir mesmo os animais que possuem a sua condição de animais não humanos que fazem parte do nosso dia à dia, companheiros seculares, e caca vez mais responsáveis por nos oferecer companhia, como no caso de cães e gatos.

Sob a tutela de uma Lei de Crimes Ambientais, neste ponto, inconsistente, o Brasil acompanhou recentemente dois escândalos absurdos, derivados de profunda covardia e ignorância. O primeiro foi o envenenamento de 126 cães e 3 gatos no Município de Bom Jesus no Rio Grande do Sul, pela ação de servidores públicos, provavelmente comandados pelo ex-Secretário Municipal de Desenvolvimento. O Segundo foi a morte de pelo menos duas centenas de periquitos nativos em Manaus, Amazonas, pelas redes de proteção envenenadas de um condomínio de luxo. Em ambos os casos, alguns traços comuns, como a irracionalidade, o egoísmo, e a covardia.

Somente covardes e criminosos podem sair por aí envenenando animais, algo que muitas vezes pode ser indicativo de psicopatia.

Tais fatos colocam uma questão fundamental: “Há limites para a estupidez humana?” Enquanto tivermos animais sendo covardemente envenenados, usados para a produção de cosméticos, atropelados ou indiscriminadamente caçados, a resposta continuará como a afirmação negativa, “não há“.

Afinal de contas, a ação predatória do ser humano não atinge apenas as outras espécies, possui caráter endógeno, motivo pelo qual não podemos esquecer que até o sangue humano tem virado objeto de comércio em muitos hospitais privados, mesmo que a sua origem, em regra, seja a doação benemérita daqueles que possuem preocupação com a vida.

 

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