SARTORI, A MÍDIA, E A AMEAÇA AO SERVIÇO PÚBLICO NO RIO GRANDE DO SUL

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

 

Passados dois meses da posse, o governo de José Ivo Sartori (PMDB) vem demonstrando com clareza do que já havíamos previsto: uma tragédia! O problema só não parece maior porque os descalabros da atual administração gaúcha têm passados incólumes pela mídia.

Simplesmente não há nenhum comentário crítico, seja do grupo RBS (Rede Globo) ou do grupo Correio do Povo, sobre a ameaça absurda de não pagamento da folha dos servidores, especialmente se considerarmos que o Estado não sofre mais com os pesados juros da dívida, fruto de uma negociação incansável do ex-governador Tarso Genro (PT) junto ao Ministério da Fazenda e ao Senado Federal.

Lembro que durante todo o Governo Tarso, em momento algum, ocorreu ameaça de atraso no pagamento da folha. Então, por que isto acontece de forma tão repentina? Qual o motivo de tamanha inversão de prioridades? Um breve estudo do histórico da chegada do atual governador ao poder pode servir de referência para a análise crítica.

O primeiro elemento que deve ser analisado é que José Ivo Sartori (PMDB) foi um candidato sem programa e sem propostas claras. “Foi o candidato da não política, um arquétipo midiático construído sem preocupação efetiva com os problemas a serem enfrentados no período pós eleições”.

Sem assumir nenhum compromisso com a sociedade gaúcha, ressalvado o slogan niilista “meu partido é o Rio Grande”, o candidato da ala mais à direita do PMDB recebeu um verdadeiro “cheque em branco” para gerir o Estado e executar as ações que lhe viessem à cabeça. O preço está sendo pago agora.

Também é importante ressaltar que o histórico do político peemedebista, alinhado com os programas de privatizações e de desmonte do Estado de Britto e Yeda (PSDB), também foi omitido durante todo o processo eleitoral. Assim como Marina Silva, para quem o peemedebista rendeu apoio no primeiro turno (no segundo retornou ao ninho do tucanato com Aécio), Sartori tentou se mostrar como algo novo, sem dizer exatamente o que, como se não tivesse um passado político ou surgisse por meio de combustão espontânea no pleito de 2014. Até mesmo a sua passagem pela Prefeitura de Caxias do Sul foi utilizada de forma cosmética e descontextualizada.

O resultado dessa desvalorização da política, começou a ser sentido pelos gaúchos no primeiro ato do atual governador, com a suspensão do pagamento de todos os contratos de serviços continuados e com o corte de diárias e passagens, o que afetou, inclusive, a Brigada Militar (Polícia Militar do Rio Grande do Sul).

O discurso de pânico reproduziu as práticas de Yeda e de Britto, que pouco depois desandaram no seu exercício desmantelamento do patrimônio público. Tudo indica que Sartori deve seguir o mesmo caminho, colocando a CORSAN e o BANRISUL à venda. O roteiro é o mesmo que vem sendo adotado pelos neoliberais desde a chegada de Thatcher ao poder na Grã-Bretanha.

Mas voltado aos fatos recentes no Rio Grande do Sul, logo depois da suspensão dos pagamentos dos contratos de serviços continuados, algo que, por sinal, pode gerar um imenso prejuízo ao erário e à continuidade dos serviços públicos, veio o escândalo do reajuste da remuneração do Governador, Vice-Governador e Secretários, medida esta que já havia sido entabulada na Assembleia Legislativa durante a transição.

Para dar uma ideia, o Governador que suspendeu o pagamento de contratos de serviços essenciais, e ameaça não pagar o funcionalismo em dia, sancionou uma Lei em que recebeu aumento de 46%, bem acima da inflação, com um ganho real de mais de 15%. Já o Vice-Governador e os Secretários Estaduais receberam um aumento polpudo de apenas 64%.

Traduzindo, não existiam recursos para pagar contratos, mas para pagamento dos dirigentes do Estado, sim! No mesmo período em que o atual Governador afirmou não ter como pagar o piso do magistério, mas defendeu com “unhas e dentes a recomposição das perdas dos vencimentos” do seu Secretariado.

Na mesma época estourou o escândalo do helicóptero, quando o equipamento que faltava na “Operação Golfinho”, do Corpo de Bombeiros, para o resgate de banhistas, situação que já estava combalida pela falta de recursos, o nobre Governador utilizou o veículo para visitar a festa de aniversário de um vereador do litoral norte. Ou seja, para um evento particular. O sítio eletrônico Terra chegou a anunciar em 15 de fevereiro: “aeromédico é suspenso, mas Sartori vai de aeronave à festa”.

Ainda nesse mesmo período temos a nomeação da sua esposa para cargo de Secretaria de Estado, numa manobra para evitar que esta perdesse o mandato como Deputada Estadual (já que é, formalmente, a segunda suplente do Partido). Mesmo que o Chefe do Executivo afirme que o cargo é não remunerado, há inegável favorecimento da esposa com o uso de servidores e da máquina pública para a condução de determinadas políticas. Maria Helena Sartori não é Primeira Dama, mas ocupa o eufemístico cargo Secretária de Estado Extraordinária do Gabinete de Políticas Sociais.

O último episódio, e não menos importante, aproveitando a histeria da mídia com o Locaute das empresas de caminhões, o Governador José Ivo Sartori veio a público para uma breve manifestação afirmando que o Estado não consiga manter a folha salarial dos servidores do Estado. Apesar da manifestação calamitosa para milhões de trabalhadores e trabalhadores, e para a atividade econômica de vários pequenos Municípios, a cobertura da mídia oligopolista foi absolutamente tímida sobre o caso, quando não, omissa.

Algumas coisas devem ser observadas na conduta do Governador do Estado e na sua relação simbiótica com os meios de comunicação. Quem ouve a Rádio Gaúcha, do Grupo RBS, representante da Globo no Rio Grande do Sul, e mesmo sabendo que Sartori é professor e filósofo, observa que a o referido meio de comunicação passa o tempo todo exaltado a sua “figura humilde”, arquétipo utilizado durante a campanha.

Essa prática faz parte de uma estratégia destinada, nitidamente, para despolitizar as condutas irresponsáveis do Governo do Estado, transformado as ações absurdas e constrangedoras do Governador em atitudes excêntricas, mesmo que tais medidas coloquem os serviços de saúde, educação e segurança pública em risco, com o corte ou atraso na folha de pagamento, ou no não pagamento dos serviços continuados.

Um segundo ponto que ninguém pode esquecer é que o comando do Governo do Estado do Rio Grande do Sul joga no mesmo time do golpismo, da direita agressiva, que pretende instaurar uma falsa sensação de caos no país, e daí, o jogo acordado com a mídia se encaixa perfeitamente.

Hoje, todo o Estado do Rio Grande do Sul sofre uma grave crise na saúde pela ausência de repasses. Curiosamente, esta crise não existia no Governo Tarso (PT), e surgiu de uma hora para a outra com a austeridade financeira do novo Governador. Situações semelhantes são observadas em todos os setores.

Deve ser destacado, que Sartori não fez nenhum ajuste financeiro ou fiscal verdadeiro, nem realizou nenhum programa de investimentos, apenas cortou despesas de serviços essenciais e aumentou a folha do alto comando do Estado. Ou seja, o humilde Governador tem trabalhado apenas, e tão somente apenas, para a turma do andar de cima e, mais do que isto, para os seus correligionários na administração.

Não é de estranhar que Rio Grande do Sul e Santa Catarina tenham sido os únicos estados onde o locaute dos caminhões manteve algum fôlego. Nessa região foi feito um teste de laboratório da mídia para a sua ação golpista, num jogo de mostra e esconde que faz inveja aos piores momentos da máquina de publicidade hitlerista!

A síntese desse processo é criar um clima de insegurança em todo o país, com caráter nitidamente golpista. Para tanto, até mesmo a tragédia anunciada do Governo de Sartori é transformada numa brincadeira.

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3 comentários

  1. Se Sartori pode ser entendido como a Yeda de calças e careca, pelo programa ou o não programa, o excesso de seus cortes vai acabar por impossibilitá-lo de utilizar, pelo menos num primeiro momento, a violência da Brigada Militar contra os trabalhadores organizados, como ocorreu ao longo do desgoverno tucano, truculento e corrupto da Yeda…

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