OPERAÇÃO ZELOTES E “SWISSLEAKS” COLOCAM MIDIA GOLPISTA NO CENTRO DOS ESCÂNDALOS DE CORRUPÇÃO

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AUTOR: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

O termo “Zelote” faz referência ao movimento dos “zelotistas”, grupo político judaico que buscou incitar o povo da antiga Judeia contra a dominação Romana, sob a liderança de “Judas, o Galileu”.

Mas “Zelote”, na língua portuguesa, também possui outros dois significados: “aquele que tem falso zelo; aquele que finge ter zelo”.  Portanto, trata-se de uma palavra bem escolhida pela Polícia Federal para identificar tanto corruptos como corruptores envolvidos na operação que leva o nome de Zelotes. No primeiro lado do esquema temos membros do estamento burocrático da Receita Federal. Na outra ponta, grandes empresas, especialmente Bancos e o Grupo de Comunicação RBS, sucursal da Rede Globo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. No centro, como intermediários, empresas e esquemas privados de consultoria.

A operação Zelotes começa a desmascarar um esquema de corrupção antigo, provavelmente o maior da história do país, que já deu um prejuízo de R$ 19 bilhões ao erário, e que envolve baluartes do moralismo na política. A sua interface com o escândalo do HSBC, mundialmente conhecido como “SwissLeaks”, o maior escândalo de lavagem financeira do planeta, tem em comum muito mais do que a gritante omissão dos grandes grupos de comunicação na sua divulgação. Tais grupos estão no centro da investigação e, muito provavelmente, devem dividir o maior espaço no banco dos réus com agentes financeiros e os grandes empresários.

Não há como dimensionar o tamanho no “SwissLeaks” no Brasil, pois diferentemente do que ocorreu em outros países, a associação de imprensa não teve a menor preocupação em divulgar nomes.  O jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo e do site Uol detentor da lista teve a sua credibilidade questionada por demorar na divulgação de nomes que, entre outras pessoas, incluía o principal dirigente do Grupo Folha de São Paulo, Luiz Frias, que é beneficiário de uma conta criada no banco investigado em 1990, conta esta que foi encerrada em 1998.

Além de dirigentes da Folha de São Paulo, também aparecem na lista do HSBC Suíço, integrantes da família Saad, donos da Rede Bandeirantes de Televisão, da Família Marinho, donos das Organizações Globo, inclusive o falecido Roberto Marinho. Outros nomes ligam sócios e administradores de outras empresas de comunicação ao esquema, como a extinta Gazeta Mercantil, a TV Verdes Mares (outra filiada da Rede Globo), o Diário do Nordeste, a Jovem Pan, a Editora Abril e de outro veículo da família Marinho, O Jornal O Globo.

Não temos como saber, sem uma divulgação pela Receita Federal, o nome da totalidade dos investigados, pois a lista foi vazada pelo Internacional Consortium of Investigative Journalism (Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo), cujo membros, no Brasil, são funcionários dos próprios investigados. Como investigações fiscais sofrem sigilo, e como os meios de comunicação optaram por uma divulgação escassa de dados, a tendência é que o escândalo do HSBC não receba a cobertura devida pela mídia oligopolista.

Temos a impressão que os dados divulgados até agora pelo Uol e pelo O Globo são tentativas de antecipar efeitos negativos de investigações realizadas em paralelo, especialmente pela CPI do HSBC, numa clara tentativa de construir uma versão mais branda dos fatos.

Das poucas informações disponíveis temos a presença de 8.667 brasileiros na lista, mas este dado já havia sido divulgado por jornalistas europeus. Logo, a ação do Jornal o Globo foi mera antecipação de fiscalização. Também são identificados, dentre outros os nomes de empresários que desde a década de noventa operam no esquema da Lava-Jato, de artistas da Rede Globo, beneficiários, na época das contas, da Lei Rouanet, do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vinculado ao PSDB, e principal responsável pelo programa econômico da campanha de Aécio Neves Aécio Neves (PSDB). Todos negam a participação no esquema, numa situação de extrema raridade em que o oligopólio de mídia brasileiro admite, de forma envergonhada, um contraditório.

Dada o período das investigações no HSBC, que vão de 1988 à 2002, embora as contas investigadas sejam de 2006 e 2007, há quase certeza de que o “SwissLeaks” pode criar uma ponte esclarecedora entre os resultados da Operação Lava Jato e a Operação de Furnas, do Banestado e os grandes escândalos das privatizações da década de noventa. Sem contar o vínculo com a recém divulgada operação Zelotes.

Mais do que isso, ninguém pode esquecer que o HSBC foi beneficiário, em 1997, de recursos do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional – PROER para comprar o extinto Bamerindus e, até o Governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), não haviam operações do HSBC no país.

Esse curioso jogo de coincidências, mais a escandalosa omissão ou timidez da mídia na divulgação de nomes dos esquemas da Zelotes e do HSBC, algo absolutamente incomum nos últimos 13 anos, demonstra que existem possibilidades de chegarmos às verdadeiras origens dos escândalos atuais de corrupção, e que o crescimento das investigações confronta, diretamente, os interesses da grande mídia.

Outra questão que volta a ganhar espaço é a urgência de uma Lei dos Meios, que imponha o controle social sobre o financiamento da mídia no Brasil. Ninguém defende que os princípios da liberdade de imprensa sejam atacados, ao contrário, defendemos que os jornalistas tenham liberdade concreta para expor ideias e opiniões. Mas enquanto o financiamento dos sistemas de mídia estiver numa caixa lacrada, como no caso das concessões de serviços públicos de rádio e televisão, não será possível falar em real liberdade de imprensa, e situações escandalosas, como as que envolvem a RBS e a Globo, na Zelotes e no “SwissLeaks”, respectivamente, vão continuar sendo omitidas ou jogadas em pequenas notas de ponta de página.

 

 

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4 comentários

  1. Se estivéssemos em um País sério, a imprensa investigativa brasileira estaria ávida para desbaratar as cortinas que escondem os “indiciados”, nas atividades secretas do suiçalão, e da maior sonegação fiscal de todos os tempos.
    Mas, infelizmente, as grandes quadrilhas que mandam nos conglomerados da imprensa brasileira, todas com o rabo preso, pois são famíglias atreladas ao posto político, entre seus proprietários coligados, todas, sem excessão, todas a grande imprensa esconde o escândalo HSBC e Zelotes, mas dão ênfase quando os “averiguados” são da troupe dilmista petista.
    Imaginem se entre os correntistas do HSBC fosse descoberto o filho do Lula, com uma fortuna de cincoenta milhões de dólares não declarados ao Fisco?
    Imaginem, no mesmo plano, se a filha do Senador por São Paulo, José Serra, caísse como “averiguada” com contas no HSBC? Ou os filhos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso? Ou a irmã do senador por Minas, o Aécio Neves, com fortuna amealhada protegida no sigilo do HSBC?
    Brasileiros e Brasileiras, se o Brasil fosse um País sério, com Justiça ilibada, com a Polícia Federal apartidária política, seria a grande chance, a maior chance, de muitos escândalos de roubalheira do dinheiro público serem esclarecidos, como SIVAM, BANESTADO, LAVAJATO, VENDA DA VALE DO RIO DOCE, PRIVATARIA TUCANA, apenas para exemplos crassos, e de domínio público.

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  2. Os imbecilizados pela mídia também não percebem que essa guerra suja movida contra o governo e contra a maioria do povo que elegeu Dilma democraticamente não tem nada a ver com corrupção, pois as direitas criaram a corrupção no Brasil, portanto elas simplesmente não ligam para corrupção. O que querem é, mancomunadas com o capital internacional, chantagear o governo, enfraquecer a Petrobras, para que Dilma ceda e privatize a empresa orgulho nacional. Tudo isso para pegar o grande tesouro que é o Pré Sal. Esse é o real motivo de toda esse funesto espetáculo que temos visto ultimamente.

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