COMO EU QUERIA QUE VOCÊ ESTIVESSE AQUI: Um convite ao resgate das Utopias.

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

Como eu queria
Como eu queria que você estivesse aqui
Nós somos apenas duas almas perdidas
Nadando num aquário
Ano após ano
Correndo sobre o mesmo velho chão
O que nós encontramos?
Os mesmos velhos medos
Eu queria que você estivesse aqui
(Wish You Were Here, Pink Floyd, tradução livre).

 

Lembro das primeiras vezes que sentei para analisar a metáfora contida nas transformações enfrentadas por Adão e Eva na saída do Paraíso. Para um adolescente crítico, incapaz de aceitar a leitura literal imposta pela professora de ensino religioso no ensino médio de Santa Catarina, era impossível que os mestres da cultura hebreia apenas impusessem a expulsão do paraíso como consequência da descoberta do Amor e da superação da castidade.

Com o tempo, a minha mente inquieta identificou que havia muito mais do que um julgamento maniqueísta entre o bem e o mal, e que a parábola da cobra e da maçã tinham por objetivo demonstrar que a descoberta da sexualidade estava associada, indiscutivelmente, à maturidade, e que a vida que seguia adiante trazia consigo todos os pesos das responsabilidades e dos compromissos tipicamente destinados aos adultos.

Mas pergunto, tais compromissos nos obstruem a capacidade de sonhar, de se opor à injustiça, de buscar um mundo melhor? Nós devemos “trocar nos heróis por fantasmas” como protesta Pink Floyd na sua obra prima “Wish You Were Here”? Devemos aceitar o papel de protagonista numa cela, preferencialmente numa “jaula de ferro” para homenagear Max Weber?

E aqui estamos diante de uma dicotomia que é imposta pela sociedade, que é a do “agir pragmático”, adulto e ocidental, e o “agir utópico”, considerado com ânsia inebriante da juventude e que deve aos poucos ser abandonado quando avançamos na “nossa maturidade”. Mesmo no campo da esquerda, a reação utópica, a tentativa de sobreviver conforme as suas convicções e seus anseios de transformação ainda é uma ação considerada como inadequada para aqueles que pretendem demonstrar competência e serem aceitos pela sociedade.

É mais fácil aceitar a prisão fria do pensar pragmático e sair por aí resmungando contra tudo e contra todos, como se o mundo fosse feito apenas por pessoas com almas emudecidas pelo tempo. Acreditar que é possível transformar, vencer o mal-estar imposto pela sociedade de consumo, protestar contra o cinza da fumaça e do mofo que empobrece a riqueza de cores da cidade, romper com a ditadura dos relógios que insistem em controlar nossos passos? Impossível… segundo os jargões da mediocridade reinantes.

O que falar então das Utopias que sempre enriqueceram a nossa vida e que, como dizia Galeano, nos ensinavam a caminhar… esquecidas, abandonadas entre os escombros de um mercado que insiste em ser dominante.

Nesse cenário além das Utopias abandonamos a nossa própria existência à uma alienação interminável. A prisão imposta pelas celas dos escritórios, das fábricas, das escolas, e outras estruturas montadas em forma cada vez mais frias, metálicas e sem personalidade, tais como contêineres e conjuntos de concreto pré-moldado. “Agimos como almas perdidas dentro de um aquário”, como diria a música já citada do Pink Floyd.

As casas para as massas do pós-guerra, com janelas pequenas e fachadas repetidas, são verdadeiras mansões frentes aos contêineres que se apresentam nos canteiros de obras. Se Marx se indignava contra as “injeções de sais minerais” aplicadas aos operários ingleses durante a revolução industrial, hoje os trabalhadores são submetidos à alimentação pastiche de produtos plastificados e embutidos.

Mas este cenário construído por meio do esquecimento das Utopias começa a demonstrar que não possui mais sustentação na medida em que o mundo é solapado por duas poderosas forças criada pela própria sociedade do domínio do racional: a crise ecológica global; e a crise financeira instaurada em 2008, que demonstra não ter mais fim…

Destas, com certeza a crise ecológica é a mais grave, pois coloca em cheque a sobrevivência da própria humanidade, muito embora a crise financeira tenha apresentado uma espiral de medo, desemprego e fome em todo o globo.

Enquanto ficamos cercados nos nossos círculos de eficiência produtiva, cobrindo a nossa agenda social e calendário de eventos, diariamente são lançadas milhares de toneladas de gases estufa na atmosfera, com resultados práticos sentidos por todos, como as enchentes no Sul do Brasil, especialmente na região metropolitana de Porto Alegre, a seca em outras regiões do país, a perda de alimentos sadios, a elevação do preço dos hortifrutigranjeiros, sem contar a perda de sentido da nossa vida cotidiana.

O mito do ser humano isolado, presente em algumas obras literárias do modernismo morre com a descoberta do eu! Tanto Freud, como Erich Fromm demonstram a dificuldade que os seres humanos possuem para viver em ambientes isolados, sem a companhia de outras pessoas que possam contribuir para o seu crescimento como ser ciente.

E daí, novamente, fenômenos da vida moderna podem explicar a explosão das crises de ansiedade, depressões, estresses, problemas cardiovasculares e neurológicos que afetam a humanidade e lotam clínicas e hospitais.

Novamente, enjaulados numa “gaiola de ferro” ou “presos num aquário”, somos massacrados por agendas imprecisas, pelo domínio dos relógios, pelos encontros artificiais, pelas festas de calendário, e uma série de outras situações que apenas contribuem para uma vida estressante e para a nossa dificuldade de integração com o meio onde vivemos.

Se, como afirmava Foucault, Jeremy Bentham via no “Panóptico”, uma forma eficiente de controle das pessoas, como todo o seu jogo de vidros, espelhos e controles, na moderna sociedade tal preocupação não é necessária, pois assumimos uma vida panopticoniana. Somos escravos de convenções sociais que nos oprimem e impedem o enfrentamento das frustrações. Aliás, o indivíduo competitivo, o líder draconiano, portanto, seres frustrados, são perfeitos funcionários na moderna sociedade de consumo.

Como poderemos enfrentar a crise ecológica se não nos ofertamos a oportunidade de sair para caminhar na beira na praia no final ou no meio da tarde, ou criar a oportunidade para distinguir “um campo esverdeado do aço gelado”? Assim como as grandes transformações da sociedade não foram alcançadas apenas em gabinetes, não existe luta ambiental de gaveta.

Precisamos, essencialmente, romper com as amarras que nos aprisionam, vencer nossos medos e assumir o nosso imenso potencial libertador. Para tanto, as utopias devem ser recuperadas e colocadas novamente no nosso horizonte! Não é possível propor um mundo melhor sem sonhar, e não é possível sonhar sem uma vida efetivamente vivenciada.

 

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