A ARTE DE AMAR: Uma homenagem aos ensinamentos do mestre Erich Fromm.

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, metre em ciências sociais.

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

(Fernando Pessoa)

Na sua obra “Ter ou Ser” (publicada em inglês com título idêntico: ‘To Have or to Be”), Erich Fromm observa um esvaziamento total do indivíduo, tanto sob o ponto de vista material como espiritual. Preso às suas próprias contradições e àquelas colocadas pelo sistema dominante, o ser humano acaba destruindo o seu íntimo em momentos pouco expressivos ou esvaziados.

Para Fromm, “somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade: solidão, ansiedade, depressão, destruição, depressão, dependência; pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil de conquistar. ” O tempo, que foi sinônimo de liberdade em períodos pretéritos, hoje é a principal amarra que limita a nossa capacidade de progredir como seres cientes, conscientes e criativos. Passamos a ter a nossa vida controlada como máquinas, que devem agir e executar atividades dentro do máximo de eficiência produtiva, sem pensar, sem desejar, sem sentir…

Passamos a ter uma visão reificada da nossa essência, e o sentir também foi convertido em ter, como se pudéssemos exercer o domínio sobre os sentimentos, e como se estes fossem coisas. O amor, por exemplo, deixa de ser verbo para ser convertido em substantivo, e ao contrário de amar algo ou alguém, passamos a ter amor sobre pessoas, sonhos ou bens. Assim, o próprio amor, que nas palavras de Freud é o ponto de partida para a cura de muitos de nossos problemas, elemento fundamental para a psicanálise, é tratado como coisa, como elemento de domínio ou, ainda, como justificativa para a violência (vejamos os inúmeros exemplos de crimes causados por ciúmes, típica conduta derivada do domínio do ter sobre o ser).

Ignoramos a influência das autoridades anônimas sobre o nosso comportamento, e é exatamente por isso que Erich Fromm entende que o “o homem moderno vive sob a ilusão de que sabe o que quer, quando na verdade ele deseja aquilo que se espera que ele queira”. Assim, somos eternamente condenados ao jogo da aceitação, do agir sancionado, e quanto maior a escala de responsabilidade, menor a liberdade e maior a dependência da aceitação.

Temos, assim, a invasão da privacidade, o aprisionamento da consciência, e a pior de todas as formas de desconstrução da nossa essencialidade como seres viventes que é controle do sentir.

Somos condenados à eterna frustação do controle, seja pelo tempo, seja pela Lei, seja pelas convenções sociais. É evidente que nem todas as formas de controle sociais são ruins, caso contrário abriríamos um território infinito para psicopatas. Ocorre que estes não demonstram empatia para com pessoas ou outros seres, assim não sentem, ou pelo menos não demonstram sentimentos não direcionados a finalidades.

O psicopata, na realidade, é a expressão mais precisa da pessoa que é buscada numa sociedade onde o sentir é coisificado, pois os sentimentos de terceiros são tratados apenas como pontes para alcançar objetivos. Portanto, a moderna sociedade racional-capitalista não apenas acolhe os psicopatas, mas o elege como modelos, elevando-os à condição de dirigentes e formadores de opinião.

É racional pisotear o seu adversário na busca de poder! É racional matar e morrer por uma determinada finalidade! Pode ser racional manter uma relação familiar por conveniência social. Quando saímos da barreira do domínio do racional é que as coisas se tornam mais complexas, e como afirmaria Freud, encontramos o “abismo mais profundo”.

Na metáfora da separação do cérebro (racional), do corpo (dominado pelos sentidos), o primeiro, de forma isolada, poderia aceitar pacificamente a guerra e a violência como atos racionais. Contudo, tal metáfora não possui fundamento real, pois o nosso cérebro também é espaço de emoções e sentimos, razão pela qual tem sido fato comum entre os seres humanos a somatização das nossas emoções e frustrações na forma de doenças como ansiedade, neurose, fobia, síndrome do pânico, dentre outras.

Na realidade, é muito mais difícil enfrentarmos o nosso “eu” do que administrar o nosso comportamento dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade. Somos formados para uma sociedade de confrontação, de conflitos, é conforme já ensina o mestre austríaco da psicanálise, “podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”.

O próprio Freud afirma com precisão que somos incapazes de esconder segredos, pois se “a boca cala, falam as pontas dos dedos”. Nossos olhos, muitas vezes, expressam muito mais informações sobre o que somos ou sobre o que pensamos do que tratados escritos em milhares de livros. A linguagem corporal não é uma descoberta recente, mas cada vez mais é adotada pelos analistas do comportamento humano, inclusive como forma de exercício de poder e de domínio mas, também, como instrumento de auto-libertação.

É por isso que Carl Jung é ainda muito mais duro com os seres humanos: “quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda”. Já freudiano Wilhelm Reich é definitivo: “a verdade é mais perigosa quando diz respeito a você”. Talvez por isso, o nosso maior medo não é saber o que as pessoas pensam sobe nós, mas que elas saibam o que realmente pensamos sobre o mundo e sobre a vida, ou, ainda, sobre as outras pessoas.

As barreiras sociais acabam criando espaços de conveniência, ambientes de conforto, refúgios onde o “eu” acaba protegido da confrontação com o real, mesmo que essa proteção importe em sofrimento e neuroses. Para derrubar tais barreiras precisamos aceitar a nossa insegurança como elemento fundamental ao “desenvolvimento do ser”. Nas palavras de Fromm, “um homem livre é, por força, inseguro. Um homem pensador é, forçosamente, dubitativo”.

Quando pensamos, nos libertamos do comportamento mecânico imposto pelos regimes de conveniência, pelas autoridades anônimas expressas na opinião pública, na imprensa, e outras formas de controle social, entramos no mundo criativo da dúvida, um mundo cheio de possibilidades que ainda não conhecemos. A nossa mente, na realidade, é um mundo que ainda, felizmente, não foi colonizado!

As possibilidades de mudança, de transformação, passam, obrigatoriamente, pela aceitação da nossa imperfeição e pelo reconhecimento de que os nossos passos estarão sempre sendo medidos por nossas incertezas. A incerteza é uma verdadeira força motriz para o nosso pensamento e, com certeza, o mais rico universo de possibilidades para o ser.

É por isso que o próprio Freud demonstra existir mais verdade nos sentimentos do que na racionalidade dos argumentos, na medida em que “existem momentos na vida, em que as palavras perdem o sentido ou parecem inúteis, e, por mais que a gente pense numa forma de emprega-las elas parecem não servir. Então, a gente não diz, apenas sente”.

E como ficam os sentimentos e, especialmente o amor, numa sociedade dominada pelo cálculo racional como a nossa? A resposta de Erich Fromm é lapidar: “o amor é, por necessidade, um fenômeno marginal nos dias atuais das sociedades ocidentais”, porque numa sociedade centralizada na produção, só o não-conformista pode defender-se com sucesso contra esse fenômeno.

Daí, talvez, as crescentes explosões de ódio, depressão e frustração. Vivemos numa sociedade que oprime os sentimentos e celebra o comportamento calculista e desumanizado. Devemos, a todo o momento, oferecer respostas racionais para o conjunto opressor do sistema, isto quando não nos tornamos a própria fonte de opressão do nosso íntimo.

Para aqueles que se preocupam efetivamente com o sentir, ou com o amor na linguagem de Erich Fromm, “como a única resposta racional ao problema da existência humana devem, então, chegar à conclusão de que importantes e radicais mudanças em nossa estrutura social são necessárias, para que o amor se torne um fenômeno social, e não um fenômeno altamente individualista e marginal”.

Portanto, amar, como já afirmamos em outras oportunidades é, de fato, uma atitude revolucionária. Eu iria mais longe, poderia afirmar que é o verdadeiro alicerce para uma ruptura transformadora. Obviamente, amar não pode ser um lamento, como algo distante e impossível, nem apenas tratado como o amor erótico, como tentam impor os meios de comunicação de massa. Como ressalta Herbert Marcuse, o sistema dominante espera sempre que tenhamos posições unidimensionais e limitadas.

Amar é, por natureza, um fenômeno social. Podemos expressá-lo de várias formas, seja como amizade, compreensão, fraternidade, como amor romântico, erótico, dentre outras. O certo é que coisificar sentimentos ou reprimi-los só poderá resultar em fracasso, na perda da nossa essência, e na nossa transformação em autômatos. E um ser que não sente, ou que aceita facilmente o aprisionamento pela racionalidade do cálculo, é presa fácil para um sistema de dominação baseado no ódio…

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