A FLOR DO CONCRETO

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Eu não preciso de ti.
Tu não precisas de mim.
Mas,
Se tu me cativares, e se eu te cativar…
Ambos precisaremos, um do outro…
(Antoine de Saint-Exupéry)

 

Qual é a melhor forma de tratar da alma humana? Vários mestres já se debruçaram sobre o problema e construíram as suas interpretações. Para Hobbes, por exemplo, somos o lobo da própria espécie. Já para Rousseau, bons por natureza, mas deturpados pela convivência em sociedade. Freud, na crueza da sua psicanálise afirma que “cada pessoa é um abismo. Dá vertigem olhar dentro delas”.

Particularmente, tento construir uma leitura mediada entre as diversas formas de pensamento que povoam a nossa mente. Mas concordo que muitas vezes somos limitados por nossos medos, nossa ansiedade e nossa dificuldade para compreender o pensar do outro.

Numa sociedade cada vez mais individualista somos ensinados a temer não apenas o abismo do nosso íntimo, como ao outro que nos cerca. Este indivíduo, o outro, é apresentado como um competidor, como um adversário, como um inimigo a ser batido numa guerra por espaços cada vez mais restritos. A tolerância tornou-se um substantivo aceito apenas para os fracos, e palavras como amor, amizade, companheirismo e tantos outros sentimentos são tratados como pontos de conflito.

Talvez por isso o horizonte cinzento e envidraçado das grandes cidades, permeadas por fumaça e sombras, tanto nos oprima. Se o outro é um inimigo, resta-nos apenas o intocável mundo do “eu” e, diariamente, somos confrontados com espelhos onde a nossa alma é refletida e todo o nosso pensar idealizado, mecanizado ou robotizado, é derrubado por imagens frias que novamente colocam “o abismo freudiano” aos nossos pés…

Para enfrentar tais dificuldades, a sociedade, ou melhor, a esfera dominante da sociedade, nos oferece o jogo das emoções artificiais roteirizadas numa rotina interminável. Somos controlados pelos relógios e o lúdico é jogado na hiper-realidade dos ideais midiaticamente construídos.

Vocês já perceberam o vazio que é sentido num evento festivo produzido com músicas pré-formadas, que muitas vezes é suprido apenas pelo efeito pastiche do álcool, das drogas químicas e da comida “fast-food”? No fim, temos o nosso horizonte bloqueado por redes envidraçadas, e o pouco de vida criativa surge quando olhamos para o passado e nos refugiamos numa qualidade outrora perdida frente ao poder das grades que nos foram impostas pela sociedade de consumo.

O problema é que temos apenas a ilusão de que somos seres racionais, ou melhor, exclusivamente racionais. A parte atávica do “id” é engolida pela robótica social e somente tem liberdade de aparecer nos crimes e momentos de passionalidade. Aqui, somos dominados pela racionalidade legal, instrumental, mecânica, como já alertava a sociologia compreensiva de Weber com elevado grau de certeza.

Mas somos seres essencialmente racionais? Nem sempre… e eu completaria, felizmente! Freud é cabal, existem momentos em que as palavras, nosso respiro de racionalidade, perdem o sentido, ou parecem totalmente inúteis… nestas situações, falar, escrever, descrever, dissertar são ações inúteis ou desnecessárias. “Então, a gente não diz, apenas sente”…

E aqui, novamente, enfrentamos uma dificuldade gigantesca! O nosso sentir, na moderna sociedade industrial e de consumo passou a ser significado de ter. Sentir, sem ter, é algo que conflita que nos oprime, foi conflita com essência formalmente sancionada ao ser humano atual…

É por este motivo que retorno aos ensinamentos de Saint-Exupéry, que mesmo em obra literária destinada à infância, conseguiu traduzir, em vários momentos, traços característicos e reais da alma humana. Para o mestre francês, “os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa”.

Ainda segundo Exupéry, o que diferencia esta rosa das demais não é a sua singularidade, mas a nossa dedicação, pois “foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante”! E é exatamente nesse momento que a obra literária do mestre francês se aproxima do brilhantismo do psicanalista Erich Fromm “o amor é uma atividade, não um afeto passivo; é um ato de firmeza, não uma de uma fraqueza… é propriamente dar, e não receber”. Em síntese, sentir não é ter, dominar, apropriar-se, sentir é, definitivamente, transferir aos demais aquilo que temos de melhor!

Não é preciso lembrar que para Fromm a palavra amor possui uma escala muito mais ampla de significados do que a encontrada nas obras literárias. O amor se expressa das mais diversas formas, como amizade, carinho, respeito, solidariedade, erótica ou romanticamente. Também podemos amar elementos abstratos, a natureza, a vida, ideias, virtudes…

Inspirados em Neruda poderemos afirmar que os sentimentos nos permitem romper com a lógica dominante da sociedade:

E a minha voz nascerá de novo,

Talvez noutro tempo sem dores,

e nas alturas arderá de novo o meu coração

ardente e estrelado”.

Numa época em que o ódio e a dominação são valorizados como estratégias de vida, valorizar os sentimentos é um passo adiante, e uma forma de garantir uma evolução da sociedade. Por isso, desconfiai do ser humano que não possui capacidade de sentir emoção com a harmonia dos sons, com as vozes da natureza, com o canto dos pássaros, com o brilho do Sol ao raiar do dia, ou com a luz melodiosa das noites iluminadas pela Lua. Estes, como já afirmou o mestre inglês William Shakespeare, já estão maduros, mas não para uma vida em sociedade, e sim para a traição, para o roubo e para a perfídia: “sua inteligência é morna como a noite, suas aspirações sombrias como Erabo”!

Ao romper com modelos mecanizados de viver, talvez consigamos alcançar a nossa liberdade, mas, com já destacado por Freud, a liberdade envolve responsabilidade, “e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade”.

Libertar-se, portanto, pressupõe aceitar o outro, cativá-lo, trazê-lo para a convivência, responsabilizar-se. “E tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, como já advertiu, novamente, Saint-Exupéry. O problema é responsabilizar-se sobre os outros, quando a sociedade nos impõe um comportamento antissocial, competitivo e individualista.

É por esse motivo que tenho fé no nascimento de uma flor mais rústica para enfrentar esse mundo cinzento, dominado pelo concreto, pelo ferro e pelo vidro, e que, talvez, não tenha a beleza ou a pureza de uma rosa! Pode ser uma flor nascida da resistência, uma flor simples e desbotada, mas, como na poesia de Carlos Drummond de Andrade, que é capaz de paralisar o tráfego, silenciar os negócios, iludir a polícia, pois é uma flor que “rompe o asfalto”.

 

 

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