CRÔNICA SOBRE A SOLIDÃO

chaplin

Foto: “O Vagabundo“, imagem clássica da obra de Charles Chaplin.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Lembro de um texto da minha infância que retratava a vida de um Palhaço, personagem circense característico que, para muitos, é o símbolo da alegria, para outros do medo, mas que sempre, de alguma forma, também representa a solidão.

Escondido sob a maquiagem com traços típicos, com riso largo, nariz avermelhado, dentre outras, desde tempos antigos, as mais diversas formas de expressão cultural retratam o palhaço como uma pessoa que sofre, que vive isolada, que carrega ao mesmo tempo o encargo social de levar alegria às multidões, mas que esconde, no seu íntimo, a solidão! Vejamos o sofrimento retratado na brilhante “Vesti la Giubba”, da ópera Pagliacci de Ruggero Leoncavallo como um exemplo. A fonte de inspiração do autor foi um julgamento de homicídio presenciado por seu pai, mas é o pagliacci e seu sofrimento e isolamento que domina a cena,

E aqui temos um ponto de partida. Quando falamos em solidão, não tratamos de eremitas escondidos em cavernas, nem de pessoas antissociais, ou que vivem isoladas num mundo distante. A solidão pode ser encontrada mesmo no âmbito de personagens como brilho expressivo, ou com talento reconhecido, que aproximam admiradores tão vibrantes como artificiais, mecânicos e aparentes.

O famoso grupo Pink Floyd produziu um dos seus melhores álbuns, “The Wall” para retratar o muro que crescia cada vez mais entre o grupo de artistas, notadamente a mente genial e criativa de Roger Waters, com o seu público. Qual o valor de carregar multidões para um espetáculo musical quando são poucos que param para refletir na mensagem transmitidas pelas letras de músicas como “Hey You”, um grito desesperado pela libertação de uma sociedade de aparências cada vez mais fugidias? Uma tentativa de “derrubar o muro”, por isso, The Wall.

A solidão, portanto, pode ser encontrada mesmo nas nossas ações mais expressivas. Naquele sentimento pelo qual lutamos por muito, dedicamos nosso tempo, nossas melhores energias, ou quando brigamos por princípios, por valores, mas olhamos para o lado observamos um vazio. Um completo abandono. E não é por acaso que muitos recorrem ao suicídio.

Qualquer estatística sobre o fenômeno crescente da depressão urbana vai demonstrar que a depressão e a síndrome do pânico são frutos, em essência, da solidão, de uma sociedade cada vez mais exigente por resultados, mas que ao mesmo tempo empurra as pessoas mais produtivas para o campo do abando e do isolamento físico, pessoal e intelectual.

Aquele sentimento de que tentamos tocar alguém alguma coisa e quando mais nos esforçamos tudo vai ficando mais distante é típica da solidão. É um mundo de abandono, onde tudo foge e se desmancha como que por encanto, tornando nosso comportamento cada vez mais arredio e distante da sociedade.

Vivemos numa sociedade que condena a afetividade e valoriza o comportamento eficiente e artificial ou o mero hedonismo. Diálogos com profundidade são inimigos do tempo e podem romper com o muro e as redomas de proteção que nos são colocados como imperativos de vida.

O próprio mundo do trabalho é um ambiente dominante por barreiras de mesas. Um escritório do mundo corporativo é cada vez mais parecido com um bunker, onde os guerreiros lutam isolados por resultados, cercados por um infindável número de documentos, numa competição continuada com seus concorrentes, que são os outros, seus companheiros de trabalho.

O pensar diferente, o agir diferente, então, é uma condenação inquestionável ao isolamento. A sociedade exige adaptação. Mesmo nos meios críticos, a dogmática da superficialidade afasta. Devemos agir dentro do roteiro proposto pela sociedade: virtualmente, artificialmente, de forma cada vez mais vazia. Quanto mais superficiais, egocêntricos e distantes nos apresentarmos, melhores são as nossas condições de sucesso social no universo do consumo.

Falar em solidão, portanto, é tratar de um retrato diário do presente. Abordamos um sentimento muito mais presente e mais profundo do que o “mal do século” que afetava os simbolistas do século XIX. É uma forma de abordar um fenômeno real, contínuo, escondido atrás da porta, mas vivenciado todos os dias por milhões de pessoas.

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