O DIREITO DE SER ÚNICO: uma crônica sobre identidade.

chaplin

Foto: Charles Chaplin, no filme “Tempos Modernos“.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis
(Bertolt Brecht)

 

Quando vezes já ouvimos a frase: “ninguém é insubstituível”? Qual será o conteúdo de verdade que levou à sua formação? Qual será o valor pedagógico do seu conteúdo? Por que é repetida tantas vezes, com tanta intensidade e, muitas vezes, sem muita reflexão?

Inicialmente, e isto é evidente, temos o ponto de vista religioso e moral que perpassa toda a nossa vida. A primeira mensagem é o reforço da humildade, a necessidade de informar as pessoas das suas limitações, evitando-se, assim, a arrogância e a soberba.

Mas existem outros elementos que não podem ser esquecidos, e nesse sentido, o trabalho de Marx sobre a alienação no capitalismo é fundamental. Para o mestre alemão, o fenômeno da alienação se manifesta de três formas: a primeiro como um processo normal de troca, da alienação de uma mercadoria que é a força de trabalho; a segunda, é a  perda de identidade com aquilo que se produz, que passa a pertencer ao proprietário dos meios de produção; já a terceira, e provavelmente a mais cruel, é a perda de identidade com o próprio ser. O indivíduo passa a se ver apenas como uma peça do processo de produção, como uma ferramenta ou como uma mercadoria.

O proletário é, em essência, o trabalhador alienado e, diferentemente do que afirma o marxismo vulgar, de base soviética, o trabalhador intelectual também está sujeito à proletarização, e temos a indústria do “paper” na academia como a prova mais evidente.

Particularmente, não acredito que sejamos substituíveis. Cada indivíduo é uma riqueza em si próprio, e seus atos não seriam possíveis de serem realizados, da mesma forma, por outros. Se, por um lado, há semelhança nas ações dos indivíduos, por outro, não há identidade.

A racionalidade do modo de produção capitalista criou a falsa ideia de que a produção em escala resulta em produtos perfeitamente idênticos, e existe até um sistema de qualidade que é voltado para essa “busca da perfeição”. “Ter qualidade”, “ser perfeito”, então, para o modo de produção capitalista é não ter identidade, ser massificado, inclusive quando se refere às ações dos indivíduos.

Ocorre que tal mito só encontra eco nas vozes que o aceitam, e a insurgência moral e intelectual é fundamental para derrubá-los. Como afirmava Mandela, nascemos para brilhar, e este é um dever que temos para conosco e para com os outros. Aqueles que se escondem na sombra do silêncio permitem a continuidade de sistemas de ódio e de opressão.

Desta forma, ninguém é substituível, somos seres únicos, e quando tomarmos consciência da nossa própria individualidade e identidade poderemos, de fato, construir um mundo melhor e mais justo.

 

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