A SUAVE INSENSATEZ DA LOUCURA

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Foto: Guernica, obra prima de Pablo Picasso.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Preferi sempre a loucura das paixões à sabedoria da indiferença”.
Anatole France

 

Certa vez, Michel Foucault afirmou que “a psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia”. Não por acaso, o mestre francês escreveu a “História da Loucura”, obra fantástica onde descreve que, na maior parte das vezes, a racionalidade dominante utilizava-se da internação como estratégia para afastamento daqueles considerados como impróprios para o meio, como os rebeldes, os intelectuais, os profetas ou, simplesmente, os excluídos.

Durante a Idade Média europeia, grandes pensadores, como Galileu, foram obrigados a abdicar das suas ideias revolucionárias, e outros, como Giordano Bruno, receberam condenação à fogueira, simplesmente por demonstrarem que o mundo era diferente do modelo de racionalidade dominante.

Engana-se quem pensa que a genialidade, a rebeldia e capacidade de mudar o mundo não é desconsiderada no mundo de hoje, e que é apenas uma peça histórica da “Idade das Trevas”. O próprio Einstein, que provou a relatividade da verdade, e que é possível viver diversas trajetórias em dimensões diferentes, foi reprovado em física e matemática. Já o croata Nicola Tesla, maior responsável pela chegada de energia nas nossas casas, morreu pobre, esquecido e tratado como louco, ao mesmo tempo que seu maior adversário intelectual, Thomas Edson, vivo rico, premiado e reconhecido, mesmo que para tanto tenha se aliado ao poderia financeiro de J. P. Morgan, e tenha assassinado um doce elefante em praça pública para desacreditar o trabalho de Tesla. No fim, Tesla estava certo, e Edson errado.

Se não fosse a loucura rebelde de mestres das artes como Pablo Picasso, jamais teríamos a fantástica “Guernica”, uma denúncia contra a violência da Guerra. Mesmo o gênio hoje reconhecido de Leonardo Da Vinti foi perseguido e teve desacreditada a sua arte e sua ciência. Além disso, a sua crítica em relação à falta de respeito dos seres humanos contra as demais espécies sempre foi tratada como uma excentricidade pelos donos do poder.

E aqui, passamos por um ponto importante e fundamental, que é a necessidade de diferenciarmos a loucura, em todas as suas acepções, da psicopatia. Hitler, Mussolini, Franco, Thomas de Torquemada, dentre outros facínoras, não eram loucos, eram psicopatas. O psicopata, por natureza, não demonstra empatia para com os outros, e usa todas as armas racionalmente existentes para atingir o poder. Tem preocupação com si próprio, e para impor seu domínio não tem a menor preocupação de eleger alvos, que serão objeto da sua violência. Destes não poderemos esperar nada, salvo o aprisionamento na “jaula de ferro” da racionalidade dominante.

Muitos psicopatas ocupam assentos de grandes agências financeiras, de bancos e outros espaços onde a empatia com os demais seres é considerada como algo prejudicial. Além disso são beneficiados por grandes espaços de interlocução com a sociedade pela mídia.

Mas é daqueles que são desacreditados pelo poder dominante, que mantém a sua capacidade de sonhar, o seu desejo de transformar, a sua inconformidade com sistema, e a sua suave insensatez, é que podemos esperar algo de bom, e alguma mudança! Como já disse Luther King, “desejo viver feliz embora louco, do que em inconformidade viver”.

O “bóson de Higgs” foi predito inicialmente pelo físico teórico Petter Higgs em 1964, e somente em 2013 foi oficialmente reconhecido pela humanidade, com o Prêmio Nobel, depois de ter sido desacreditado por muitos, mas comprovado nas experiências do “grande colisor de hádrons”. Ou seja, o que em determinada época não tinha o menor valor, depois de alguns anos pode se tornar em verdade irrefutável, e a própria ciência precisa se curvar diante daqueles que não deu valor.

Se isto ocorre no campo das ciências naturais, imaginem no mundo da política, da arte, da literatura, e do pensar humano. Pois são muitos dos chamados de loucos, que não abdicam da esperança, da luta por transformações sociais e pelo desejo de um mundo melhor que ainda dão significado à palavra esperança. E esta loucura inconformada, rebelde e lutadora, que permite nos fazer acreditar que um outro mundo melhor é possível.

Mesmo oprimidos pela tragédia das mudanças climáticas criadas pelo próprio homem, e pela insistência equivocada de alguns gestores públicos em modelos de regência da falida racionalidade moderna, milhões ainda lutam pela mudança de paradigmas, e pela construção de um mundo que tenha como foco central a vida. Estes, tomando emprestada uma assertiva de Bertolt Brecht, “são imprescindíveis”.

E mesmo estando muito distante do intelecto genial de mestres como Picasso, Brecht, King, Tesla, dentre outros, prefiro me situar no campo dos loucos e insensatos. Pois a minha loucura me mantém vivo e fornece as armas necessárias para lutar por um mundo melhor.

Portanto, aviso aos dominantes:

No dia que deixar de acreditar, de sonhar, de amar, não precisarei mais ser internado.

Neste dia, peço apenas que joguem as minhas cinzas nas ondas do mar,

Pois terei levado a minha luta e a minha loucura para outra dimensão”…

 

 

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