A ARROGÂNCIA HUMANA E A EXTINÇÃO DE ESPÉCIES

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Foto: Orangotango no Zoológico de Brasília-DF, e que hoje vive num santuário de primatas (Autor: Sandro Miranda).

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Uma pergunta rápida para que possamos refletir: o que há em comum entre o exuberante Gorila das Montanhas, o gigante Elefante Africano, o robusto Rinoceronte, o inteligente orangotango, o belíssimo Leão do Congo e a delicada Ararinha Azul? Poderíamos partir do óbvio, afirmando que todas são espécies nativas que compõem a fauna de países de vários continentes. Mas infelizmente, o que unifica todos estes animais, que povoam o nosso imaginário desde a infância, é o fato de fazerem parte da lista internacional de espécies que sofrem algum tipo de ameaça de extinção, conforme dados periodicamente registrados pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais – IUCN, mundialmente respeitada e com sede na Suíça.

Ainda na infância tive a oportunidade de ler a famosa obra “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”, de Clive Staples Lewis – mais conhecido como C. S Lewis –, na qual humanos, animais e seres mitológicos, os “narnianos” lutavam contra o domínio da Feiticeira Branca para defender Nárnia. No referido livro observamos uma integração entre crianças animais na luta em defesa do reino onde parte dos seres humanos, atuavam em conjunto com os animais, sob a regência do mitológico leão Aslam, contra aqueles que haviam sido seduzidos pela mágica e poder da malvada Feiticeira.

O livro que povoa o universo infantil há muito tempo, foi escrito em 1940, e da lá para cá várias espécies que poderiam estar acompanhando o reinado de Aslam desapareceram, como o Rinoceronte Negro Africano (Diceros bicornis longipes, declarado extinto em 2011), o Tigre-Cáspio (Panthera tigres virgata, considerado extinto em 1960), e a foca monge do caribe (Monachus tropicalis), cujo último exemplar foi visto por pescadores na natureza em 1980.

Os motivos para a extinção das espécies, incluídas numa lista que cresce diariamente, são sempre os mesmos: caça, introdução de doenças desconhecidas e trazidas ao local por colonizadores, ou a destruição de habitats. O responsável, também, é sempre o mesmo ator: o ser humano.

Quando criança, depois de ler “Alice no País das Maravilhas”, que achei que o “mítico pássaro Dodô” (o Raphus cucullatus) era uma ave que vivia comumente em nosso mundo e que todos os conheciam. Qual a surpresa quando, pouco depois, descobri que a espécie tinha sido declarada extinta por volta de 1700 através da caçada continua das aves pelos navegadores europeus.

O curioso é que as Ilha Maurício, habitat natural da ave em questão, foram visitadas por embarcações árabes durante toda a Idade Média e a espécie nunca foi ameaçada. Apenas depois do domínio europeu, instalado em 1598, é que a espécie passou a ser caçada impiedosamente para consumo preferencial da sua “moela”, pois a carne, em si, era considerada como “dura” pelos viajantes, e em pouco mais de um século tronou-se extinta.

Mas o Dodô não é a única espécie vítima de uma ação predatória intensiva. O Tilacino, mais conhecido como “Lobo ou Tigre da Tasmânia”, um raro marsupial carnívoro, foi objeto de caçada oficial determinada pelos colonizadores. Dede o início do processo de colonização da Ilha da Tasmânia, que hoje pertence à Austrália, foi introduzido um sistema de recompensas pela caça do marsupial considerado como nocivo à criação de ovelhas, que foram introduzidas no local pelos europeus. Entre 1888 e 1909 o Governo da Ilha passou a pagar 1 libra esterlina por cabeça de animal ou 10 shillings para filhotes, com o objetivo de proteger os rebanhos e eliminar a “ameaça” à sua atividade econômica. Oficialmente, depois de extensamente caçado, o último Tigre da Tasmânia ou Tilacino (Thylacinus cynocephalus), morreu em cativeiro no ano de 1936, quatro anos antes da publicação da obra de C. W. Lewis.

 

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Imagem: Pássaro Dodô na ilustração do Livro “Alice no País das Maravilhas” (Fonte: Wikipédia).

 

Se a caça intensiva, a destruição de habitats, além da introdução de doenças alóctones, são os fatores mais comuns no desaparecimento de espécies. Mas outros vêm ganhando um espaço nada desprezível neste universo nada honroso das extinções, merecendo destaque o uso intensivo de agroquímicos e de engenharia genética na agricultura, além é óbvio, as mudanças climáticas causadas no ambiente pela ação predatória dos seres humanos.

Não são apenas as espécies do ártico como gigantesco Urso Polar, pinguins e focas que são vítimas das mudanças do clima produzidas pela atividade humana nos últimos anos. Quase todos os anfíbios, espécies com pele mais sensível estão na lista internacional de espécies ameaçadas, no mesmo caminho seguem peixes, corais, e toda uma biodiversidade aquática ou marinha. As mudanças climáticas são, sim, com certeza, um novo fator causador do processo intensivo de extinção de espécies, e isto inclui algas e plânctons, que estão na base da cadeia alimentar.

No caso da biotecnologia, existe um risco gritante de quebra integral da cadeia alimentar terrestre e uma ameaça constante de que o ciclo da extinção avance ainda de forma mais agressiva sobre os vegetais. Uma “verdade silenciosa” está tomando conta de campos e fazendas com o desaparecimento contínuo das espécies responsáveis pela polinização das plantas, como abelhas e borboletas. O “glifosato” e outros agrotóxicos agressivos matam, diariamente, milhões de insetos, e com eles, todo um potencial reprodutivo de vegetais que compõem a base de toda a estrutura de vida do planeta, desde a geração de energia até a produção de alimentos.

Além disso, a clonagem de indivíduos estéreis na monocultura do eucalipto também elimina a pólen e, com isto, a produção do mel e possibilidade de reprodução e alimentação de insetos. O efeito perverso da utilização de clones nas atividades agrícolas é contínuo, silencioso, gravíssimo, e desconhecido pela maior parte das pessoas, e já é sentido por apicultores em todo o planeta.

As cenas de uma terra estéril, sem alimentos, dominada por um vento seco e eventos climáticos extremos, observada no filme “Interestelar” são bem mais reais do que a pretensão ficcional de Christopher Nolan. Caminhamos, sim, para a extinção dos processos naturais de produção de alimentos nas próximas décadas se nada for feito imediatamente para que tenhamos de pelo menos um controle ético sobre a biotecnologia.

Se os dinossauros levaram milhões de anos para serem extintos e, mesmo assim, por causa da explosão de um cometa sobre a nossa atmosfera, o ser humano, com uma história bem menor já promoveu a extinção de centenas, senão milhares, de outros indivíduos, e caso continue observando de forma distante os acontecimentos produzidos pela sua própria arrogância intelectual, em pouco mais de duas centenas de milhares de anos extinguirá com a maior parte das espécies vives do planeta, inclusive com as suas futuras gerações.

 

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