UMA CRÔNICA SOBRE A VIRTUDE

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Foto: Gandhi conduzindo a “marcha pelo sal“, momento decisivo na libertação da Índia da dominação britânica.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

A modéstia não pode ser considerada uma virtude, pois assemelha-se mais a um sofrimento do que a uma qualidade”.

Aristóteles

 

A virtude tem sido tema de debate entre filósofos de todos os matizes desde a antiguidade. Muitos viam na modéstia, no silêncio, e na limitação pessoal ou coletiva uma virtude. Max Weber, por seu turno, preocupado com a frágil econômica de uma Alemanha que ainda engatinhava com a unificação no século XIX, buscava num grande líder “carismático” o caminho para a superação dos problemas do país, mas a resposta de Bismarck foi negativa, levando o país a uma guerra de destroçou vidas e a economia do país, deixando campo aberto para a celebração do ódio e do racismo durante a regência do nazismo.

Particularmente, entendo que o grande traçado sobre o conceito real de virtude foi feito por Maquiavel, numa obra que chegou a ser queimada pela Igreja na Idade Média por ser considerada ofensiva ou, em termos práticos, por falar a verdade. “O Príncipe”, nunca foi apenas um manual de conduta extremamente racional sobre as melhores formas de manutenção do poder. O seu ponto mais importante permeia todo o texto e deve ser encontrado nas entrelinhas, é a palavra “virtu” ou, em bom português, “virtude”.

O grande líder, o grande príncipe, “deveria ser um agente virtuoso, capaz de manejar o poder frente a objetivos maiores do que os seus próprios desejos pessoais”. No fundo, Maquiavel, que era um democrata republicano, sonhava com uma Itália unificada, e que tivesse no seu povo, ou, na linguagem textual, “o seu exército”, o grande alicerce da construção nacional.

Antônio Gramsci foi quem ofereceu a mais notável na interpretação do mestre italiano, e via o “Partido Comunista Italiano” um Príncipe em potencial, capaz de conduzir o povo à revolução, derrubando a situação de desigualdade que afetava o país mediterrâneo, especialmente após a introdução do capitalismo e o fim da segunda guerra. Sendo assim, para Gramsci “a virtude era um bem coletivo, e não um mero atributo individual”.

Se caminharmos adiante, veremos virtude na condução do processo de libertação da Índia do domínio Britânico pela ação de resistência pacífica conduzida por Mahatma Gandhi. Não foram armas, mas o exemplo de conduta moral e de coragem do pequeno e franzino Gandhi que conduziram a libertação do seu país do julgo europeu, construindo o que hoje reconhecemos como a “maior Democracia do planeta”.

Seguindo o caminho do líder indiano, o pastor norte-americano Martin Luther King também foi um exemplo de virtude, pois na sua luta pelos direitos civis da comunidade negra, ou afrodescendente, para utilizar a linguagem adotada nos Estados Unidos, também foi notável, e provou que coragem, organização e resistência pacífica, mas nunca passiva, são suficientemente fortes para derrubar o ódio e a violência pregados pelos brancos racistas daquele país.

Mais recentemente, outro que demonstrou suprema virtude foi o mestre Nelson Mandela, nosso amado Madiba, que saiu das prisões do vergonhoso apartheid sul-africano para mostrar ao mundo que nascemos para brilhar, e que o nosso maior adversário é medo, não o medo comum da violência, “mas o medo de sermos grandes”, em essência, virtuosos.  Mandela, mostra, assim, como os seus antecessores, que a “virtu” de Maquiavel não está apenas nos líderes públicos. Ela pode ser encontrada nos milhões de anônimos que lutam diariamente por um mundo mais justo, por igualdade, por direitos fundamentais, pela conservação da natureza, contra o ódio, contra a opressão, pelo reconhecimento do direito à diferença, e por tantas e importantes causas que são oprimidas por sociedade dominada pelo poder financeiro, pelo ódio midiático, e pelo sectarismo dos estratos mais abonados na sociedade.

Assim como Gramsci, como Gandhi, como Luther King, Mandela demonstra que a “virtude” também pode ser democratizada, e fortalecida com organização, coragem e resistência frente aos poderosos.

A “virtude”, desta forma, não está apenas em livros, muito menos em dogmatismos, a virtude é produto do exemplo. Do reconhecimento de que podemos ir muito além dos limites que nos é imposto pelo sistema, e de que temos um papel essencial de transformar o mundo, derrubar barreiras, e darmos a todos o espaço necessário para a demonstração da sua “virtu” inata.

Somos, sim, “Príncipes” (ou Princesas), por excelência. Mas não dentro dos paradigmas de concorrência adotados pela literatura corporativa. A nossa grandeza está na nossa capacidade de colaborar, de compreender as especificidades étnicas, culturais e pessoais dos outros, e de construirmos redes onde a igualdade e a solidariedade sejam as bandeiras fundamentais.

Particularmente, nunca vi aprendizado nas derrotas. As derrotas somente possuem sentido se transformarmos estas em vitórias. Para tanto, devemos celebrar a virtude, e caminharmos com firmeza para um mundo melhor, mais equilibrado e mais igualitário.

 

 

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