O CANTO DA ROSA DESPEDAÇADA

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Foto: Alusão ao livro “O Pequeno Príncipe“.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

“Há coisa encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo”
Frederico Garcia Lorca

 

O mestre Antoine de Saint-Exupéry certa vez afirmou com precisão: “aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. Apesar de ter vivido em época de guerras, o escritor francês, mas conhecido pela fantástica obra “O Pequeno Príncipe”, lutava para demonstrar em seus escritos a importância da interação e do companheirismo no comportamento humano.
A Rosa”, acompanhada da “Raposa”, é o símbolo supremo dos seus textos, talvez seja a mais representativa da sua mensagem, pois a importância desta para os seres humanos não está na sua singeleza, na sua beleza ímpar, ou outros atributos adjetivadores, mas no tempo que nós dedicamos para o desenvolvimento da mesma.
Portanto, a flor da obra de Saint-Exupéry nada mais é do que um simbolismo para os nossos princípios, nossos valores, nossos sonhos, nossos mais supremos desejos… Ocorre que, não raras vezes, “aprisionamos as nossas rosas”. Sublimamos nossos desejos, aspirações e vontades em torno de uma vida pragmática, pela busca incessante de resultados que nos permitam sobreviver num mundo mecânico, sem luz, sem reflexo, sem brilho…
A alma humana é engolida pelas paredes dos muros da lógica do cálculo. Temos a substituição do ser pelo ter, e a perda da nossa essência como seres sociais. A vida dentro da redoma de aço da racionalidade da eficiência é um espaço sem sentido, campo aberto para todas as formas de niilismo, e para a redução dos nossos anseios.
Os muros, as paredes, e outras formas de dominação sufocam os gritos, amaciam a carne, e tornam nossos corpos dóceis ao domínio sem contestação. A vida perde o halo mágico da esperança, e é transformada num eterno contínuo de procedimentos e rotinas.
Não é à toa que Weber demonstrou que a racionalidade do capitalismo ocidental promoveu o “desencantamento do mundo”. E, da mesma forma, nos conduziu organizadamente para dentro de uma “gaiola de ferro”.
Quando perdemos nossa essência de humanidade, nos refugiamos na casa frágil das drogas medicamentosas. Nunca consumimos tantos remédios para depressão, ansiedade, compulsividade, e uma série de outras respostas que o nosso organismo oferece para o nosso distanciamento de uma vida verdadeiramente em sociedade, como no mundo atual.
Somos peças fragilizadas, que embora tenham nascido para o brilho, parodiando Madiba, são alimentadas pelo “medo à liberdade”, o “medo à felicidade”, o “medo ao abraço”, “medo dos sentimentos”, dentre outras. Agir de forma natural, expressar sentimentos, preocupações ou empatia para com os outros indivíduos que dividem o nosso ambiente, é apenas um passo vigoroso para a condenação pelo panóptico dos valores, que nos conduz diariamente para dentro dos muros da realidade sancionada.
Particularmente, não creio na tese de que “devemos aprender a perder”. Não há nada que me fascine na “pedagogia das derrotas”. Devemos, isto sim, “aprender a lutar”, “aprender a vencer”, “aprender a sonhar”, “aprender a amar”…
O amar não é um eterno jogo de aceitação”. Como diria, como diria Vladimir Maiakovski, “onde tudo é aceito, desconfio que haja falta de amor”. Pois não somos, de forma alguma, seres lineares, e carregaremos, por toda a vida, o peso das nossas contradições. É a força da contradição que alimenta a nossa vontade de libertação frente aos grilhões do sofrimento imposto. É a diferença que alimenta o mundo, pois se todos fossem fabricados em série como produtos da indústria, não precisaríamos mais de vida, de sonhos, ou de humanidade…

 

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