SERÁ, AMAR, FINALMENTE, UM VERBO INTRANSITIVO?

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Foto: Pintura “Meio Ambiente“, de Cândido Portinari (1934).

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Devo confessar preliminarmente, que eu não sei o é belo e nem sei o que é arte”.

Mário de Andrade

 

Mário Raul de Moraes Andrade é, inquestionavelmente um dos maiores escritores brasileiros, com uma contribuição importante para o nosso modo de escrever, pensar e agir. Membro do “Movimento Modernista” da década de 20, Andrade fez parte da Semana de Arte Moderna, e transformou a literatura ao levar a linguagem coloquial, utilizada no dia à dia, para as suas obras. Rompendo, assim, com o academicismo reinante à época.

Foi poeta, escritor, crítico literário, folclorista, dentre outros tantos talentos. Suas principais obras são, indiscutivelmente, “Pauliceia Desvairada”, publicada em 1922, e a supor polêmica “Macunaíma”, onde derruba de vez com o pensamento idealizado de arte do romântico século XIX.

No mesmo sentido, “Amar, Verbo Intransitivo”, publicada em 1927, também é marcada, até hoje, pela polêmica. Primeiro, ao conflitar diretamente com a nossa gramática, tema que retornarei adiante. Depois por escancarar a forma como a emergente burguesia paulistana tratava as relações sociais.

No livro, de forma sintética, o rico senhor Felisberto Sousa Costa introduz a jovem de origem alemã, Elza, Fräulein (ou senhorita, traduzindo do alemão para o português), visando promover a iniciação sexual do seu jovem filho adolescente Carlos. Formalmente, o a função de Elza era ensinar Alemão e Piano ao menino, mas, na prática, como um bom “Patriarca Paulistano”, o que o senhor Felisberto queria era garantir uma transição controlada de Carlos da puberdade à maturidade.

A mãe de Carlos, a dedicada D. Laura, era burguesa religiosa e acomodada, que tentava manter as aparências da família e sustentar o poder conquistado num mundo tipicamente machista e patriarcal. Não vou avançar para não tirar o gosto da leitura. Mas é inegável que Mário de Andrade bate pesadamente no mundo ajustado, demagógico e de aparências da tradicional família burguesa. E, com um pequeno estudo de história, poderemos observar que a prática do Sr. Felisberto era bastante comum ao “alto patriarcado da emergente elite paulistana”.

O que muda, neste caso, é que a violência no século XIX era praticada contra a jovens negras escravizadas. No início do século XX, dados os efeitos das guerras de unificação da Alemanha e da Itália, e a pobreza naqueles países, a alta burguesia importava jovens brancas e pobres para atender os seus anseios de poder. O uso da violência contra a mulher, em todos os sentidos, era uma prática comum, mas normalmente apagada na maioria dos livros de história.

Retomando aos nossos conflitos gramaticais, na tradição da nossa rigidez acadêmica, amar, como verbo, é sempre transitivo direto ou indireto. Nós amamos algo, alguém, ou alguma coisa. Não é possível, simplesmente, amar, como se este fosse um verbo sem objeto definido. Sem um caminho ajustado, sem um passo pré-determinado.

O ato de amar é tratado como uma condição individual ou filosófica dirigida e, com o tempo, perde o seu traço mais coletivo. Pois não podemos, mais, simplesmente, amar…

Amo o céu, amo a lua, amos os pássaros e as manhãs. Entretanto, nunca, amo, apenas. Se eu disser, num debate acirrado sobre conjugações verbais “eu amo”, serei questionado pelo professor qual é a predição verbal.

Pois nas orações e relações transitivas, entre o sujeito e o objeto sempre existe um verbo. “Fulano os pássaros”. É uma frase sem sentido, mas com “Ceclano ama as flores”, a frase ganha sentido, e o verbo amar funciona como elemento de integração, dando sentido para a conjugação do texto.

E aqui, novamente, um ponto interessante. Assim como na vida real, nas conjugações verbais o verbo “amar”, oferece substância, destacando uma de suas virtudes, talvez a mais essencial.

Ocorre que, neste momento em que vivemos numa sociedade dominada pela pregação do ódio, da desconfiança para com os outros, sinto vontade de conjugar amar como um verbo intransitivo. Trata-se de uma atitude polêmica como a do mestre Mário de Andrade, mas os meus adversários vão além da literatura, pois pretendo ingressar no mundo real, no mundo da vida, e transformar a forma como as pessoas observam o mundo.

Eu quero amar sem definir objetos, como uma atitude de vida, como uma forma de transformar o mundo, e como um meio de resgatar a magia que perdemos frente à racionalidade mecânica do universo competitivo.

Novamente recitando o mestre Mário de Andrade “por muitos anos procurei a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura da originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha”… a minha originalidade como ser pensante, como agente responsável por transformar o mundo, proteger a natureza e romper com o discurso do ódio, é amar… sim, amar, de forma intransitiva

E se mesmo assim me exigirem uma subordinação ao peso da gramática, a minha resposta será um símbolo de rebeldia, pois afirmarei que, de fato, “amo a vida”… “aquela vida que trilhamos todos os dias, e que revivemos, no imponderável do reviver”…

 

 

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