A ARTE REVOLUCIONÁRIA DO SAMBA

Batuque

Foto: “Batuque” (1835), de Johann Moritz Rugendas

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

O samba é uma das mais notáveis expressões artísticas latino-americanas, e tem suas raízes culturais na cultura africana. É um dos principais patrimônios da música brasileira e foi reconhecido em 2005, pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade.

A sua origem não tem donos, é fruto de uma construção anônima. Contudo, para a maior parte dos historiadores um dos seus primeiros alicerces é o “samba de roda”, nascido no Recôncavo Baiano, e nas manifestações religiosas de matriz africana. Também são encontradas bases para a sua construção no Maranhão, no interior de Minas Gerais e em Pernambuco, incorporando diversos ritmos populares regionais. Mas foi no Rio de Janeiro, que o gênero ganhou a sua maior expressão, quando foi incorporado ao meio urbano pelas “comunidades dos morros”.

Não é por acaso que vamos encontrar nos círculos musicais de Vila Isabel, da Mangueira, Salgueiro, de Ramos, de Estácio, da Lapa, dentre outros, alguns dos maiores nomes na composição do samba, como Noel Rosa, Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Cartola, Dona Ivone Lara, Ismael Silva, João de Barro, Zé Keti, dentre outros.

Com o surgimento da Bossa Nova o samba foi ganhou uma nova harmonia rítmica, com traços eruditos, dada a influência do maestro Tom Jobim, de Vinícius de Morais, de Carlos Lyra, de Roberto Menescal, dentre outros. Contudo, já no final da década de sessenta um movimento impulsionado por figuras como Chico Buarque de Holanda, Paulinho da Viola e Martinho da Vila promoveu uma reaproximação do samba com o Morro e com as suas raízes populares.

Sendo um grande e expressivo gênero musical, o samba virou símbolo do carnaval, com os Sambas Enredo das agremiações urbanas do Rio de Janeiro, de São Paulo e Porto Alegre, mas também abrigou subgêneros como o samba-canção, o partido alto, o samba de terreiro, dentre outros. Uma das mais icônicas formas de apresentação deste segmento musical é o samba-de-breque, de origem paulistana, criado por Heitor dos Prazeres, mas que teve em Moreira da Silva e nos Demônios da Garoa as suas vozes mais marcantes. Temos também o samba de exaltação, impulsionado no período “varguista”, nas vozes de cantores como Carmen Miranda e Ary Barroso (vejam o exemplo de “Aquarela do Brasil”).

Entretanto, a grande verdade é que, em essência, quando falamos de samba, também lidamos com preconceitos e discriminação social, como bem retrata Nelson Sargento na clássica “Agoniza Mas Não Morre”:

[…]

Samba,

Negro, forte, destemido,

Foi duramente perseguido,

Na esquina, no botequim, no terreiro.

[…]

Mudaram toda a sua estrutura,

Te impuseram outra cultura,

E você nem percebeu.

[…]

Mesmo enfrentando tentativas de aprisionamento por segmentos da elite cultural, especialmente no formato de exaltação, o samba conseguiu resistir e preservar as suas origens na cultura negra e africana, e foi um grande mecanismo de conscientização da sociedade contra a ditadura militar, motivo pelo qual é inquestionável que o samba também possui traços revolucionários e libertários. Ao longo dos anos, tem dado voz, em seus vários formatos, a uma grande parcela oprimida da população, sejam os “barões famintos”, “napoleões retintos”, ou “pigmeus do bulevar”, como retratam as metáforas da magnífica “Vai Passar” de Chico Buarque de Holanda.

Um exemplo claro dessa voz é o samba do Império Serrano de 1969, da autoria de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira, que cantou “Os Heróis da Liberdade” frente a opressão agressiva da ditadura militar:

Passava noite, vinha dia

O sangue do negro corria

Dia a dia

De lamento em lamento

De agonia em agonia

Ele pedia o fim da tirania

[…]

Já raiou a liberdade

A liberdade já raiou

Essa brisa que a juventude afaga

Essa chama

Que o ódio não apaga pelo universo

É a evolução em sua legítima razão

[…]

Ô, ô, ô, ô, ô

Liberdade senhor!

 

Alguns sambas clássicos:

  1. Ataulfo Alves, “Na Cadência do Samba“, canta: Cássia Eller.

 

  1. Cartola e Elton Medeiros, “O Sol Nascerá (A Sorrir)“, canta: Cartola.

 

  1. Chico Buarque de Holanda, “Apesar de Você“;

 

  1. Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, “Acreditar“, canta: Dona Ivone Lara e Nilze Carvalho.

 

  1. Ismael Silva/Nilton Bastos/Francisco Alves, “Se Você Jurar“, canta: Beth Carvalho:

 

  1. João Bosco e Aldir Blanc, “O Mestre Sala dos Mares“, canta: Elis Regina.

 

  1. Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, “Juízo Final”, canta: Nelson Cavaquinho.

 

  1. Nelson Sargento, “Agoniza Mas Não Morre“, canta: Beth Carvalho e Nelson Sargento.

 

  1. Nelson Sargento, Alfredo Português e Cartola, “Samba do Operário“, canta: João Nogueira e Chico Buarque.

 

10. Noel Rosa, “Com que Roupa?“, canta: trecho do filme “Noel, Poeta da Vila

 

  1. Paulinho da Viola, “Dança da Solidão“, canta: Marisa Monte e Paulinho da Viola.

 

Bônus:

  • Império Serrano: “Heróis da Liberdade“:

 

  • Vila Isabel/Martinho da Vila: “Kizomba, Festa da Raça“:

 

 

 

 

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