A GLOBALIZAÇÃO DA INTOLERÂNCIA

síria

Foto: campo de refugiados na Síria (fonte: AFP 2016/ BULENT KILIC)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

O problema da globalização da violência não é novo. Já foi retratado em obras de autores da década de noventa, como Boaventura de Sousa Santos, Ulrich Bech, Immanuel Wallernstein, dentre outros. Se para Eric Hobsbawn, na sua era dos extremos, o século XX foi o que apresentou as guerras mais mortais de todos os tempos, no final do referido período observamos uma explosão sem sentidos da violência de forma fragmentada, através da ação de grupos de crime organizado, de extermínio, de terroristas, e micro guerras organizadas pelas grandes potencias vinculadas à OTAN contra os seus adversários políticos.

O início do século XXI tem como uma de suas marcas o atentado de 11 de setembro, mas este, por si só, é uma consequência direta da ação militar agressiva dos Estados Unidos e seus aliados, especialmente Israel, no Oriente Médio. Seguindo a lógica de que violência somente gera mais violência, o poderoso império estadunidense acabou colhendo os frutos das sementes de anos de exclusão e bombardeio contra alvos civis na Faixa de Gaza, Kuwait, Iraque, Afeganistão, entre outras nações.

A violência só encontrou limites com a emergência de forças políticas populares e democráticas, voltadas à distribuição de riquezas em regiões como a América do Sul, onde observamos uma redução da influência norte-americana e europeia em países como o Brasil, a Argentina, a Venezuela, Bolívia, Uruguai e Equador. Aliás, as políticas de distribuição de renda implementadas pelos governos brasileiros de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram levadas à África e, somadas ao investimento econômico dos BRICS contribuíram para que vários países africanos encontrassem caminho na democracia, saindo de décadas de conflitos fraticidas fomentados pelo comércio de armas e luta pelos recursos naturais implementados pelas grandes potências ocidentais.

É importante destacar o papel de divisor de águas que o domínio da doutrina neoliberal possui no crescimento ou diminuição da violência e da intolerância. Quanto mais poder ao neoliberalismo financeiro, maior a violência. Quanto maiores as ações igualitárias e de respeito aos direitos humanos, menos violência é observada. A hegemonia do pensamento neoliberal e a explosão da violência, portanto, caminham de braços dados.

Contudo, o final da primeira década do século XXI viu a emergência de uma nova direita xenofóbica, que encontrou reforço com a derrocada do mercado de capitais nos Estados Unidos e Europa na crise financeira de 2008. Se nos EUA tivemos um avanço progressista em relação aos governos anteriores, com Barack Obama, a União Europeia seguiu caminho distinto, com a predominância dos conservadores na Grã-Bretanha, França e, principalmente, Alemanha. Como resultado tivemos uma crise sem fim do Euro, e espaço aberto para as doutrinas de ódio contra imigrantes, comunitários e todos aqueles que não se vinculassem ao arquétipo do europeu branco.

O modelo doutrinário neoliberal gerou milhões de excluídos em todo o planeta, inclusive na rica Europa, criando um lúmpen braquicéfalo, xenofóbico e racista, que odeia todos os tipos de diferenças culturais, sexuais, étnicas e raciais. O ódio também encontrou guarida na juventude sem perspectivas dos países árabes bombardeados pela direta israelense e pelas armas do ocidente. O protofascismo brotou em todos os cantos, na França, na Inglaterra, na Alemanha, nos Balcãs, nos Estados Unidos, dando base para o crescimento de partidos de extrema direita nos parlamentos. A “paz eterna” da modernidade kantiniana foi substituída por uma nova “guerra de todos contra todos”.

Nunca podemos esquecer o papel fundamental da mídia oligopolizada para a disseminação da cultura de ódio. As grandes metrópoles são inundadas por programas policiais que divulgam e pregam a violência como único caminho, o que garante o financiamento de programas de televisão que sustentam o encarceramento. A arquitetura ganha ares neo-feudais e os loteamentos abertos, cercados de áreas verdes e de espaços de integração, que inundaram o sonho da classe média do estado de bem-estar social na sua caminhada para os subúrbios são substituídos por condomínios fechados que mais parecem palácios medievais dado o aparato de segurança.

No Brasil e na América Latina a nova direita surge impulsionada por um aparato midiático que dá inveja à máquina de propaganda de Hitler, e como um contraponto ao avanço social, educacional e cultural de mais de uma década de governos de esquerda. Logo, ainda temos inequívocos traços oligárquicos na nova direita latino-americana, muito embora o peso da influência do capital financeiro e da classe média que não conseguiu ascender aos patamares econômicos mais altos, enquanto observavam o crescimento dos grupos mais pobres, seja incontestável.

Os seguidos golpes de estado observados em países como Brasil e Paraguai, construído no seio do parlamento, demonstram uma mutação estratégica da direita, que prefere buscar respaldo para as suas ações numa falsa opinião pública construída pela mídia.

É exatamente por isso que observamos atos extremados de violência em todos os cantos, como o massacre numa boate gay em Orlando nos Estados Unidos, matando 54 pessoas e deixando outro tanto de feridos, ou o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, o estupro continuado de refugiadas, adultas e crianças, como moeda de troca para o ingresso na Europa, a explosão de bombas em aeroporto na Turquia, a violência sem fim na Síria, na Ucrânia e na Palestina ocupada, atentados na Bélgica, na França dentre outros.

A globalização da violência é a globalização da cultura da violência, resultando do caminho conservador para enfrentar a crise econômica criada pelo próprio capital financeiro, da aliança entre a mídia oligopolista, o citado capital financeiro e a indústria de armas, e da existência de um público alienado disposto a recepcionar a pregação do ódio.

Até hoje, as únicas respostas que deram resultados no enfrentamento do ódio e da violência foram as políticas de inclusão social e radicalização da democracia, em marcha contrária ao discurso dos grupos dominantes.

 

 

 

 

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Um comentário

  1. Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    “O problema da globalização da violência não é novo. Já foi retratado em obras de autores da década de noventa, como Boaventura de Sousa Santos, Ulrich Bech, Immanuel Wallernstein, dentre outros. Se para Eric Hobsbawn, na sua era dos extremos, o século XX foi o que apresentou as guerras mais mortais de todos os tempos, no final do referido período observamos uma explosão sem sentidos da violência de forma fragmentada, através da ação de grupos de crime organizado, de extermínio, de terroristas, e micro guerras organizadas pelas grandes potencias vinculadas à OTAN contra os seus adversários políticos.

    O início do século XXI tem como uma de suas marcas o atentado de 11 de setembro, mas este, por si só, é uma consequência direta da ação militar agressiva dos Estados Unidos e seus aliados, especialmente Israel, no Oriente Médio. Seguindo a lógica de que violência somente gera mais violência, o poderoso império estadunidense acabou colhendo os frutos das sementes de anos de exclusão e bombardeio contra alvos civis na Faixa de Gaza, Kuwait, Iraque, Afeganistão, entre outras nações.”

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