PARA SALVAR A DEMOCRACIA É PRECISO RECONSTRUIR A AGENDA

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Foto: pintura “A Desintegração da Persistência da Memória”, de Salvador Dali (1954).

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

O mito do controle do tempo como elemento de libertação deixou de existir há muito tempo. Um dos grandes marcos de poder dos capitalistas com a revolução industrial foi a administração das jornadas, dos dias, dos minutos, dos segundos, como elemento essencial à acumulação e instrumento de poder e dominação. Não é por acaso que as primeiras manifestações operárias tiveram como alvo a destruição das máquinas e, na Comuna de Paris, o apedrejamento de relógios. Com o capitalismo, o tempo tornou-se inimigo, portanto era preciso derrotá-lo.

Em razão do alargamento dos direitos civis, esse controle do tempo saiu do mundo da produção e foi levado à política, na forma de agenda. A consolidação da democracia parlamentar propôs um arranjo de organização social para legitimar poderes instituídos, e o controle da temporalidade da ação permitiu aos grupos dominantes a possibilidade de enquadrar a ação de resistência, tanto que muitos movimentos sociais passaram a vivenciar um calendário de lutas diretamente vinculado às datas e períodos eleitorais. Quando a esquerda e os governos progressistas chegam ao poder, por exemplo, a mídia oligopolizada exerce um papel fundamental no controle do tempo, associando este às ações das organizações conservadoras. Aliás, num mundo capitalista globalizado, onde notícias também são mercadorias, o interesse comercial se impõe à ação política. Basta lembrar que muitas vezes governos norte-americanos realizaram ações militares no Oriente Médio visando reforçar o seu poder às vésperas de eleições. Em síntese, a mídia também constrói a agenda aliada aos grupos conservadores, bloqueando processos de transformação.

E aqui chegamos ao caso brasileiro. Depois de 17 de abril de 2016 tivemos uma redução da organização de resistência contra o golpe, o que não foi derivado apenas do cansaço, mas de uma certa apatia, especialmente de lideranças. Embora o governo golpista tenha sido instalado sem aprovação social, apenas a juventude e o movimento feminista mantiveram as suas bandeiras na rua, e mesmo com o ajuste fiscal suicida de Michel Temer, que espremeu a economia e massificou o desemprego, observamos uma inércia do movimento sindical, mesmo com a quebra dos direitos trabalhistas em um horizonte por demais próximo.

Aos poucos, observamos uma perigosa subordinação dos movimentos de resistência ao calendário político e, ainda pior, ao calendário do golpe. Mesmo ameaçados pelo fim do ensino público, pelo fim dos direitos trabalhistas, pela ampliação da jornada de trabalho, pela entrega do pré-sal ao capital estrangeiro, pelo fim dos investimentos em infraestrutura, em saneamento e em habitação, o que temos observado são meros protestos em redes sociais. Já as ruas normalizadas como se vivêssemos, de fato, numa democracia!

Entretanto, a democracia não está apenas ameaçada no Brasil. A democracia foi golpeada violentamente. Uma eventual derrubada de uma Presidenta da República democraticamente eleita por um crime inexistente, por uma mera manobra parlamentar, abre um precedente perigoso para o futuro de todos, independentemente do espectro partidário.

Para derrubar o golpe não podemos aceitar o cenário atual de forma pacífica, muito menos nos submeter ao calendário proposto pelos golpistas. Quando ficamos em silêncio diante de injustiças, corremos o sério risco de viver acorrentados…

 

 

 

 

 

 

 

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