FLORBELA E A ARTE DE VIVER AS EMOÇÕES

florbela

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê”!

(Florbela Espanca, em cartas a Guido Battelli)

 

Florbela Espanca nasceu Florbela D’Alma da Conceição Espanca, na cidade de Vila Viçosa, em Portugal, no dia 08 de dezembro de 1894, e morreu jovem, aos 36 anos, também em 08 de dezembro, em Matosinhos, depois de uma overdose de barbitúricos.

Apesar do seu pouco tempo de vida, a poetisa portuguesa teve uma vida marcante, tumultuosa, inquieta, sendo reconhecida como uma mulher à frente do seu tempo. Não por acaso, assim, como Frida Kahlo, é considerada como uma figura icônica do movimento feminista.

Atuou como tradutora, contista, colaborou com as revistas Portugal Feminino, de Lisboa, na Civilização e Primeiro de Janeiro, ambas da cidade do Porto. Mas foi na poesia, carregada de conflitos, de feminilidade e de erotização que encontramos a grande obra da poetisa lusitana, num riquíssimo acervo onde aborda, entre outras coisas, a sua explosão de sentimentos. Aliás, para muitos, Florbela Espanca vivia tão intensamente a poesia que nos seus momentos de maior sofrimento teria escrito as melhores obras.

No momento em que a nossa sociedade que começa a ser novamente vitimada pelo domínio de pensamentos conservadores, resgatar a obra transcendental de Florbela Espanca é um mecanismo importante para derrubar tabus impostos pela pregação do ódio.

É extremamente atual, nesse sentido, a descrição que a portuguesa faz do mundo onde vivia. Embora revolucionária em todos os sentidos, Florbela também carregava uma grande dor. Afinal, o Portugal da sua época era país conservador, onde reinava um pensamento patriarcal, e a sua liberdade sempre esteve aprisionada. Ao descrever-se, no belíssimo soneto “Eu”, destaca a dificuldade de ver-se no meio onde vivia:

 

Eu sou a que no mundo anda perdida 

Eu sou a que na vida não tem norte, 

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte 

Sou a crucificada… a dolorida… 


Sombra de névoa tênue e esvaecida, 

E que o destino amargo, triste e forte, 

Impele brutalmente para a morte! 

Alma de luto sempre incompreendida!… 


Sou aquela que passa e ninguém vê… 

Sou a que chamam triste sem o ser… 

Sou a que chora sem saber porque… 


Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 

Alguém que veio ao mundo pra me ver 

E que nunca na vida me encontrou! 

 

Mas é ao retratar o amor, sentimento que permeia todos os seus poemas, que Florbela demonstra a sua intensidade, e o peso dos seus versos, como no poema “Amar”, por exemplo:

 

Eu quero amar, amar perdidamente! 

Amar só por amar: Aqui…Além… 

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente… 

Amar!Amar! E não amar ninguém! 


Recordar? Esquecer? Indiferente!… 

Prender ou desprender? É mal? É bem? 

Quem dizer que se pode amar alguém 

Durante a vida inteira é porque mente! 


Há uma primavera em cada vida: 

É preciso canta-la assim florida, 

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 


E se um dia hei de ser pó, cinza e nada 

Que seja a minha noite uma alvorada, 

Que me saiba perder…pra me encontrar… 

 

É evidente que seria impossível retratar toda a obra de Florbela Espanca, mas ainda é relevante destacar o soneto “Ser Poeta”, retrata o seu desejo por um mundo liberto, sua sede do infinito, e a importância dos seus versos para essa transformação…

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior 

Do que os homens! Morder como quem beija! 

É ser mendigo e dar como quem seja 

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 


É ter mil desejos o esplendor 

E não saber sequer que se deseja! 

É ter cá dentro um astro que flameja, 

É ter garras e asas de condor! 


É ter fome, é ter sede do Infinito! 

Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim 

É condensar o mundo num só grito! 


E é amar-te assim perdidamente 

E seres alma e sangue e vida em mim 

E dize-lo cantando a toda a gente. 

 

 

 

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