A CIDADE TRISTE

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”.

(Fernando Pessoa)

 

Em “A Flor e a Náusea”, Carlos Drummond de Andrade narra a luta de uma flor para romper o asfalto e o concreto, e nascer dentro do ambiente hostil de uma grande cidade. Era uma flor simples, vista como feia. Mas nas palavras do próprio mestre da poesia era uma flor, e por isso era capaz de derrotar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Por traz dos versos do poeta, a narrativa de uma sociedade combalida pela repressão e a dor de viver numa cidade onde a dura violência dos padrões pré-estabelecidos, da ausência de cores, da ausência de uma vida mais livre, causa um sentimento de opressão no íntimo das pessoas. Mineiro, da pequena Itabira, Drummond conhecia esta dor e, de certa forma, a flor que nascia por entre as barreiras urbanas também era uma reação própria contra a dureza desse mundo restrito, tendo a poesia como instrumento mais forte.

Pois cidades apagadas, cinzentas, são um fruto da Revolução Industrial e do início do domínio régio do capital sobre a alma de cidadãos e cidadãs. Primeiro, a cinza veio da fumaça das chaminés e cobria casas, janelas, árvores, flores. Deixava o ar irrespirável e o ambiente empobrecido. Os grandes centros industriais da Europa eram verdadeiros “bunkers” militares dominados pelo breu cinzento da poluição. Os matizes dos jardins foram substituídos por um padrão único de imagem, ao ponto das próprias mariposas mudarem de cor para fugir dos predadores, conforme se apercebeu o naturalista Kettlewell na cidade britânica de Manchester em 1850.

Para vencer os problemas de saneamento que acompanharam o crescimento das cidades, os planejadores urbanos capitalistas estabeleceram políticas construtivas baseadas na padronização, no uso do concreto e do asfalto. Ruas deixavam de ser ruas para virarem pistas. E mesmo que o resultado nem sempre repercutisse positivamente no ambiente de vida das pessoas, na medida em que a colocação de concreto e asfalto nas ruas, sem observância das condições ambientais e da infraestrutura adequada, pode resultar em efeito reverso, estas foram implantadas e surgiram as grandes periferias.

Nos projetos dos planejadores do capital os bairros eram vistos como locais monocromáticos, sem identidade, sem rosto, sem vida, eram uma reprodução estética do proletariado seguindo a visão dos membros das classes dominantes. Algo sem alma. Que estava ali apenas para reproduzir o crescimento exponencial dos lucros.

Mal esperavam, contudo, que surgisse a resistência! A luta continua de cidadãos e cidadãs contra os padrões, contra visão mecânica e militarista do planejamento capitalista. E isto é importante: para o planejador capitalista a melhor forma de organização de uma cidade é transformá-la em um grande quartel, onde todas as casas são iguais, seguem os mesmos modelos e as mesmas cores. É um exército de edificações monolíticas perfilhado esperando o comando da habitação.

Mas a resistência impôs a sua diferença, e os moradores destes blocos monocromáticos expuseram a sua inconformidade com uma explosão de cores, com jardins, com a arte das ruas e com os versos dos poetas insurgentes. Mesmo em regimes opressores, como as ditaduras latino-americanas, as cores silenciosamente mostraram a sua força contra o padrão, tal qual as pedras foram arremessadas contra os relógios na “comuna de Paris”. O ódio foi vencido pela alma dos artistas urbanos!

Pois, novamente, vemos emergir o pensamento padronizador. Assim como Hitler e Mussolini, com seus “camisas cinzentas ou pretas”, João Dória Júnior condenou a cor e a arte em São Paulo. De novo, não apresenta absolutamente nada! É apenas a reprodução contemporânea de uma mentalidade totalitária na qual a rua é o local do silêncio, mesmo que este silêncio se expresse na ausência de cores. O que Dória faz na maior cidade da América do Sul é criar campos de concentração para a arte. Logo a arte, maior símbolo do espírito humano e da sua criatividade!

As cenas grotescas que observamos nos últimos dias, com o fim do maior mural de grafiteiros do país, assemelham-se à queima de livros realizada pelos soldados da SS na Alemanha Nazista. É apenas mais um gesto de violência, de ódio travestido de moralidade. E isto, de forma alguma, pode ser aceito.

Triste é a cidade sem cores! Triste é o país que assiste em silêncio a destruição da arte, da democracia, da vida…

 

 

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