O MEDO DE AMAR

Tristão&Isolda_Salvador Dali_1944

Foto: Tristão e Isolda, de Salvador Dali (1944)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, cronista e mestre em ciências sociais.

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim

Finja que o amor acabou e se esqueça de mim […]”

(Medo de Amar, Vinicius de Moraes)

Vivemos em um mundo que, ao mesmo tempo, apregoa e teme o amor. Quantos discursos, músicas e versos são ouvidos diariamente defendendo ardentemente a vivência de um amor pleno, incondicional, eterno, que rompe qualquer barreira e permite a sua subsistência nas mais complexas e difíceis situações! Por outro lado, cada vez mais as pessoas se afastam dos relacionamentos com medo do sofrimento ou, ainda pior, como se amar fosse uma espécie de aprisionamento.

O certo é que existe uma grande diferença entre sonhos, discursos, e o mundo real. Não duvido que existam amores plenos e eternos, incondicionais, por assim dizer, mas esta é uma realidade mais próxima do universo das metáforas do que da vida real. Talvez a expressão mais realista sobre o amor seja a Vinicius de Moraes, “que seja eterno enquanto dure”. Ou seja, o amor pode ser pleno mesmo que efêmero, durar uma eternidade em pouco tempo e, nem por isto, deixa de ser amor.

A nossa sociedade possui traços fortemente hedonistas e, contraditoriamente, masoquistas. Busca-se se prazer, mas também busca-se a dor, às vezes como lados de uma mesma moeda. O sofrimento, o viver isolado, é um refúgio para aqueles que temem sair da zona de conforto e, mesmo que sofram com um comportamento típico dos eremitas, o medo de avançar para novos tipos de relações acaba servindo de barreira para a vivencia de um amor real.

Na verdade, somos diariamente bombardeados por formas efêmeras de prazer, o que serve de refúgio para o distaciamento do amor. Amar vira sinônimo de ter, e não ter é frustante, pois preciamos acumular patrimônio, incluisve patrimônio amoroso. Aliás, o medo de não ser correspondido é um sintoma grave que afeta a juventude em diversas partes do mundo, onde a concorrência acumulativa domina plenamente o mundo das emoções. Em casos extremos temos o medo patológico de amar, a malaxofobia.

Também observamos um crescente apego à rotina, inclusive à rotina da dor. É muito mais fácil vivenciar as formas de dor já conhecidas do que enveredar por uma aventura que pode nos proporcionar crescimento e, ao mesmo tempo, outras formas de dor. Novamente, se não podemos ter, acumular sentimos, a sensação de derrota acaba nos servindo de barreira. O conformismo é uma resposta direta e imediata ao medo de sentir dor. Daí porque a nossa sociedade envelhece à sombra dos medicamentos utilizados para enfrentar a mais pesada das dores que é a emocional. Antidepressivos e ansiolíticos são refúgios seguros para as frustrações de uma sociedade que teme amar.

Não existe uma solução lógica e simples para a ruptura das barreiras do medo de amar. Cada pessoa responde de forma diferente ao problema. Algumas superam as dificuldades com a maturidade, outras apenas com orientação especializada. O ponto de partida, em todos os casos, é o autoconhecimento e o aprendizado emocional. Aprender emocionalmente, contudo, não é ir para escola, mas viver, trocar experiências, reconhecer limites e potenciais. É saber que ali adiante podemos encontrar no outro ensinamentos mais ricos do que no isolamento social, nos permitindo, assim, caminhar.

 

 

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