CRISE AMBIENTAL E DESIGUALDADE

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Foto: Modelo desigual de ocupação urbana no Rio de Janeiro (2012).

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

Basta assistir a uma corrida de automobilismo para identificar que a humanidade já possui tecnologia suficiente para não depender mais dos combustíveis fósseis. Já existem veículos elétricos com autonomia de mais de 8 h na bateria ou 613 km. A meta é atingir 1.000 km em 2 anos e isto, por si só, ultrapassa o potencial de qualquer veículo com motor de combustão em atividade. Da mesma forma, veículos híbridos já circulam em todo o mundo, sem contar os instrumentos de recuperação de energia utilizados para economizar no consumo.

Assim como acontece com os meios de transporte, há muito tempo já se conhece o potencial par a produção de alimentos em pequenos espaços, seja por hidroponia, permacultura ou agricultura vertical. Isto sem utilizar qualquer tipo de produto químico. Aliás, as grandes cidades são abastecidas por micro e pequenas propriedades que são as verdadeiras produtoras de alimentos. A grande maioria das verduras que abastecem as feiras diárias são originadas de comunidades agrícolas urbanas ou periurbanas. Em algumas cidades, como Nova York, por exemplo, já é comum a produção de alimentos no terraço de edifícios. Hortas urbanas e comunitárias dominam várias regiões da América Latina. Países como a Bolívia, que já deram fim ao analfabetismo, também pretendem obter segurança alimentar plena, produzindo tudo o que é consumido dentro do seu próprio território.

Em síntese, já existem plenas condições sociais, econômicas e tecnológicas para a implementação de um modelo de desenvolvimento que não seja agressivo ao ambiente e que reduza os impactos antrópicos. Então, por que isto não acontece? A resposta para esta questão é simples e já é debatida pela humanidade há séculos: a desigualdade no acesso aos meios de produção e dos resultados da atividade econômica e social.

Hoje, a maior parte do território agrícola mundial, especialmente em regiões tropicais, não é utilizado para a produção de alimentos, mas de commodities. Milho e soja, maiores produtos na balança comercial internacional são, antes de tudo, matéria-prima industrial, inclusive para a produção de energia, e ocupam posição secundária na mesa de alimentação, normalmente em produtos supérfluos ou de pouca relevância. Mas a agricultura de exportação também é responsável por grandes concentrações de terra, pelo consumo excessivo de água, pelo uso massivo de contaminantes, pela degradação e destruição do solo e da biodiversidade e, principalmente, pela urbanização e desigualdade social.

Esta desigualdade, que concentra 90% dos resultados produção social nas mãos de menos de 1% da população, é a grande responsável pela crise ambiental global e pela manutenção de um modelo tecnológico poluidor e superado no tempo. As grandes produtoras de petróleo são oligopólios transnacionais privados, por isto a pressão pela privatização da Petrobras. Além disso, as reservas mundias de energia pertencem a estes grandes grupos, o que mantém o lobby pelo uso de combustíveis fósseis.

Uma simples avaliação sobre a ocupação das áreas ambientalmente sensíveis no meio urbano vai comprovar que esta é resultado da especulação imobiliária que empurra e marginaliza populações em zonas inundáveis e perigosas. A solução para os problemas ambientais, passa, portanto, obrigatoriamente, por uma mudança no modelo de distribuição dos recursos ambientais e dos seus resultados. Enquanto mantido o atual modelo, qualquer política ambiental só atingirá as consequências, jamais a origem do problema.

 

2 comentários

  1. Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    “CRISE AMBIENTAL E DESIGUALDADE”
    Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

    Basta assistir a uma corrida de automobilismo para identificar que a humanidade já possui tecnologia suficiente para não depender mais dos combustíveis fósseis. Já existem veículos elétricos com autonomia de mais de 8 h na bateria ou 613 km. A meta é atingir 1.000 km em 2 anos e isto, por si só, ultrapassa o potencial de qualquer veículo com motor de combustão em atividade. Da mesma forma, veículos híbridos já circulam em todo o mundo, sem contar os instrumentos de recuperação de energia utilizados para economizar no consumo.

    Assim como acontece com os meios de transporte, há muito tempo já se conhece o potencial par a produção de alimentos em pequenos espaços, seja por hidroponia, permacultura ou agricultura vertical. Isto sem utilizar qualquer tipo de produto químico. Aliás, as grandes cidades são abastecidas por micro e pequenas propriedades que são as verdadeiras produtoras de alimentos. A grande maioria das verduras que abastecem as feiras diárias são originadas de comunidades agrícolas urbanas ou periurbanas. Em algumas cidades, como Nova York, por exemplo, já é comum a produção de alimentos no terraço de edifícios. Hortas urbanas e comunitárias dominam várias regiões da América Latina. Países como a Bolívia, que já deram fim ao analfabetismo, também pretendem obter segurança alimentar plena, produzindo tudo o que é consumido dentro do seu próprio território.

    Em síntese, já existem plenas condições sociais, econômicas e tecnológicas para a implementação de um modelo de desenvolvimento que não seja agressivo ao ambiente e que reduza os impactos antrópicos. Então, por que isto não acontece? A resposta para esta questão é simples e já é debatida pela humanidade há séculos: a desigualdade no acesso aos meios de produção e dos resultados da atividade econômica e social.

    Hoje, a maior parte do território agrícola mundial, especialmente em regiões tropicais, não é utilizado para a produção de alimentos, mas de commodities. Milho e soja, maiores produtos na balança comercial internacional são, antes de tudo, matéria-prima industrial, inclusive para a produção de energia, e ocupam posição secundária na mesa de alimentação, normalmente em produtos supérfluos ou de pouca relevância. Mas a agricultura de exportação também é responsável por grandes concentrações de terra, pelo consumo excessivo de água, pelo uso massivo de contaminantes, pela degradação e destruição do solo e da biodiversidade e, principalmente, pela urbanização e desigualdade social.

    Esta desigualdade, que concentra 90% dos resultados produção social nas mãos de menos de 1% da população, é a grande responsável pela crise ambiental global e pela manutenção de um modelo tecnológico poluidor e superado no tempo. As grandes produtoras de petróleo são oligopólios transnacionais privados, por isto a pressão pela privatização da Petrobras. Além disso, as reservas mundias de energia pertencem a estes grandes grupos, o que mantém o lobby pelo uso de combustíveis fósseis.

    Uma simples avaliação sobre a ocupação das áreas ambientalmente sensíveis no meio urbano vai comprovar que esta é resultado da especulação imobiliária que empurra e marginaliza populações em zonas inundáveis e perigosas. A solução para os problemas ambientais, passa, portanto, obrigatoriamente, por uma mudança no modelo de distribuição dos recursos ambientais e dos seus resultados. Enquanto mantido o atual modelo, qualquer política ambiental só atingirá as consequências, jamais a origem do problema.

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