O FASCISMO ESTÁ NAS RUAS

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Foto: Manifestação de neofascistas contra a filósofa Judith Butler em São Paulo (fonte: Revista Fórum)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

 

A filósofa e professora da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, Judith Butler, é uma das mais importantes e conceituadas intelectuais da atualidade. Dentre os temas por ela trabalhados encontramos as questões de gênero e a democracia política.

Considerada como pós-estruturalista, defende em seus trabalhos a teoria de que a identidade de gênero e a orientação sexual não estão automaticamente associadas ao sexo biológico, reconhecendo a importância dos elementos cultural e social na sexualidade dos indivíduos. Embora seja um avanço conceitual significativo, que se alinha com trabalhos anteriores como de autores como Michel Foucalt, que destacavam a mudança da sexualidade ao longo dos tempos, Judith é muito criticada e até perseguida por grupos conservadores e neofascistas.

Mas a teórica norte-americana vai mais longe e hoje representa uma das vozes mais fortes na construção de um novo ethos democrático. No momento em que a sociedade é assolada por tendências racistas, xenófobas, machistas e homofóbicas, Butler defende a necessidade de aprendermos a abraçar “a rearticulação do humano em prol de um mundo mais amplo”, reconhecer as diferenças como parte integrante de um mundo mais justo. Cartazes, faixas, mensagens e um abaixo-assinado foram espalhados pela cidade e pelas redes sociais.

Não restam dúvidas, portanto, que a sua presença, no dia 07 de novembro, no seminário “Os Fins da Democracia”, na USP, está mais do que justificada. Entretanto, ao contrário de comemorar o privilégio único de reunir intelectuais como a já citada Butler, Natalia Brizuela, Monique David-Ménard, dentre outros, um grupo de conservadores paulistanos iniciou uma campanha nacional para impedir a presenta da filósofa norte-americana no Brasil, com o argumento de que a sua presença em um simpósio pago por uma fundação internacional para um “evento comunista” não é um desejo da maioria da população.

O problema deste fato não é a simples manifestação, em alguns momentos com tons de “extremo mal gosto” e agressividade. Mas é o crescimento aberto e ativo da militância fascista no Brasil. O que antes era visto apenas como patético e com um certo deboche, hoje vem ganhando proporções alarmantes que ameaçam avanços sociais em todos os campos, especialmente em um momento que direitos fundamentais são caçados e ameaçados pelas diretrizes que comandam o Planalto e o Congresso.

Os ataques à Butler estão no mesmo campo de projetos como “escola sem partido”, “cura gay” e outros ataques à minorais sociais. Foi criado até um novo jargão indefinido para os ataques: “ideologia de gênero”. É como se vivêssemos em uma sociedade de iguais e não existisse nem ódio contra os diferentes e nem discriminação social gritante. Ao contrário, os problemas são graves e precisam ser enfrentados.

Aos poucos a “onda neofascista” ganham as ruas e colocam um dos membros, o do Deputado carioca Jair Bolsonaro (PSC-RJ), como potencial candidato à Presidente da República.

Antes de os profetas do proselitismo se manifestem, é preciso afastar qualquer discriminação contra tendências ou grupos religiosos em específico, especialmente os ataques aos evangélicos e outros grupos religiosos estigmatizados que, em sua grande maioria, mais de 80%, são contrários à politização da religião e vítimas de alguns dirigentes maliciosos. Algumas igrejas, inclusive, mantém projetos para a inclusão social de minorias, pouco divulgados pela mídia. Existe, inclusive, uma Frente Evangélica Nacional pela Democracia e Contra a Intolerância Religiosa, mas isto é um assunto para outro artigo. Criticar “Felicianos”, “Bolsonaros” e “Malafaias”, não é uma crítica a nenhuma religião, mas as posições fascistas dessas pessoas.

Há um perfil específico das novas lideranças neofascistas: branco, jovem, sem formação política, com baixa produção intelectual, de classe média e sem claras tendências religiosas, embora a maioria se apresente como católica. Qualquer semelhança com a juventude hitlerista da Alemanha na década de 1930 não é mera coincidência! Formam a base de movimentos como o MBL e são fortemente associados à mídia oligopolista.

Há, portanto, uma diferença em relação aos movimentos neonazistas que atuam em alguns grandes centros, como São Paulo e Curitiba, pois tais grupos eram formados, predominantemente, por um lúmpen branco e sem muitas perspectivas sociais. O novo grupo, ao contrário, tem dinheiro e acesso ao mundo do poder e aos poucos caminha para ações mais agressivas, especialmente a violência simbólica. Portanto, é muito mais perigoso!

Está na hora da sociedade abrir os olhos, pois a história já demonstrou o resultado da omissão contra o crescimento de comportamentos reacionários. Temos o holocausto a maior prova viva na nossa memória.

 

 

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