A ARTE DE TENTAR SOBREVIVER: crônica sobre um mundo em processo de destruição

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Foto: Criança Morta, pintura de Cândido Portinari.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

Na década de 1990, Pierre Bourdieu organizou um livro que é uma referência para todas as pessoas que pretendem compreender os impactos das políticas neoliberais sobre a sociedade: “A Miséria do Mundo”. Nesta obra, com a participação de vários intelectuais, temos um retrato fiel do impacto das ações de desregulamentação da legislação protetiva, de ajustes fiscais e financeiros, privatizações e de desmonte do Estado.

Se por um lado, temos um crescimento exponencial da acumulação capitalista (neste ponto, também é bom ler a obra de outro francês, François Chesnais, “A Mundialização do Capital”), em patamares jamais sonhados nos tempos de Marx e de Engels, por outro, há um crescente processo de pauperização e exclusão de trabalhadores em todos os cantos do planeta. Surgem profissões com rendas insignificantes, como guardadores de carros e passeadores com cachorros, as quais são acompanhadas por um tipo de indivíduo cada vez mais presente na Europa neoliberal e que se espalhou para o resto do mundo: o “inempregável”.

Quem são os inempregáveis? Trata-se de uma resposta complexa, porque estes podem ser encontrados tanto no campo dos profissionais com baixa formação, como no dos altamente qualificados, com experiência e titulação, os quais são simplesmente excluídos pelo mercado de trabalho. Há uma revolução conceitual nos tipos históricos do marxismo, como proletários e lumpesinato. O proletário, já há muito tempo, havia deixado de ser o operário fabril. Trabalhadores intelectuais também passaram por um processo de proletarização, fato narrado com extrema propriedade por Ernest Mandel em “Os Estudantes, os Intelectuais e a Luta de Classes”.

Mas o lúmpen, grupo dos excluídos do próprio exército de reserva capitalista, passou a ser integrado por profissionais com titulação superior e pós-graduação. Se fizermos um breve exercício de memória, é possível notar que os acampados de Madri eram, em sua maioria, estudantes que saíram das universidades e não encontraram mercado. Ou seja, o atual modelo capitalista criou uma crise estrutural que empobrece, exclui e marginaliza, não escolhendo pessoas, formação acadêmica ou não. Há um processo de exclusão generalisada.

As respostas neoliberais, especialmente as vinculadas aos ajustes fiscais/financeiros, ajudam apenas na acumulação capitalista e reforçam a crise estrutural e do desemprego. Os países que conseguiram melhores resultados em termos de “inclusão profissional” e não em “crescimento econômico” (conceitos que hoje antíteses), foram os que investiram no aumento das políticas de proteção social e redução da jornada de trabalho. Para que cidadãos e cidadãs tenham uma vida melhor, algo é essencial: o capital, especialmente o financeiro, precisa perder! É uma regra imperativa. Não existe modelo econômico inclusivo com o domínio do economicismo vulgar e do capitalismo financeiro globalizado e sem regras. Quanto menos regras e impostos para a circulação de capitais nos mercados globais, pior para a sociedade.

O atual modelo de desenvolvimento, centrando na acumulação fetichista de capital financeiro, destrói postos de trabalho, o meio ambiente, a vida e a dignidade das pessoas. Nesse sistema, o que morre primeiro é a solidariedade, depois a esperança. E como diz a personagem que representa o medo no maravilhoso filme “A história Sem Fim”: “pessoas sem esperança são mais facilmente dominadas”.

 

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