OS RISCOS DE QUANDO O ÓDIO E O OPORTUNISMO VIRAM PAUTA POLÍTICA

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Foto: poster russo contra a violência doméstica.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

A primeira reação de uma pessoa com um nível intelectual razoável ao ler o projeto “escola sem partido” é cair na risada. É pouco crível que em pleno século XXI pessoas ainda sustentem um conjunto de ideias tão absurdos, tão medievais quanto acreditar que a Terra é plana. Na mentalidade de quem defende o projeto, a escola foi tomada por agentes do demônio e estes pretendem levar crianças para o “mal caminho”. Foi cunhado um conceito tão sem sentido quanto o projeto, “ideologia de gênero”, o qual só encontra respaldo em pessoas cuja vida é norteada pela desinformação e o preconceito.

Entretanto, quando paramos para analisar e verificamos a expansão desse movimento, a coisa é preocupante. Tal qual aconteceu com o nazismo na Alemanha da década de 1930, inicialmente ridicularizado, crescem por todos os campos movimentos fundamentalistas, estruturados em torno do preconceito e do ódio, que adotam tais projetos como bandeiras.

Por sinal, sempre há algum agente político ávido por espaço na mídia para defender propostas absurdas, como “dia do orgulho hétero”, por exemplo. É como se existisse algum tipo de discriminação contra pessoas heterossexuais em uma sociedade dominada por valores conservadores. Como se observa, todas as ideias que sustentam esse movimento não possuem referencial histórico, material ou consistência política. Utiliza-se como alicerce um senso comum construído por valores predatórios, dentro de uma sociedade que ainda tem medo e está cada vez mais desnorteada com a avalanche de notícias ruins apresentadas pela mídia.

Na semana passada o problema ganhou em escala de gravidade, com a aprovação de uma proposta absurda de Emenda Constitucional por comissão especial do Congresso Nacional, na qual o aborto derivado de estupro é criminalizado. Na famosa PEC 181 predomina uma lógica criminosa defendida pelos 18 parlamentares homens que votaram a favor da sua aprovação, pois estes legitimam o estupro como se este não fosse uma violência deplorável.

A vítima do estupro, além de ser violada na sua liberdade, na sua intimidade, na sua honra e no seu corpo, passa a ser condenada a carregar durante 9 meses o fruto da violência. A mulher é tratada como coisa, como objeto e como um cidadão de segunda classe. É como se a maternidade do estupro conferisse alguma honra quando, na verdade, é a pior de todas as violações à dignidade feminina.

Por trás deste absurdo esconde-se um fato pouco divulgado pelos meios de comunicação. A maior parte dos estupradores moram com as vítimas ou possuem algum tipo de relação de proximidade com estas. São maridos, pais, irmãos, tios, padres, pastores, médicos, dentre outros. O perfil do estuprador médio é branco, casado, meia idade, com residência fixa e emprego, ou seja, o paradigma de cidadão de bem para os demagogos. Logo, há evidente reação misógina na PEC 181 à Lei Maria da Penha, o que coloca em risco a vida e a segurança de milhões de mulheres em todo o Brasil. Na verdade, o aborto é um grave problema de saúde pública, que resulta em morte e mutilações milhares de mulheres por falta de atendimento adequado pelo sistema de saúde. Não há sentido para que seja tratado como crime, nem fundamento moral ou religioso. É a vida das mulheres que está ameaçada pela criminalização do aborto e não a dos fetos que sequer possuem existência jurídica.

A coisa ainda pode ficar pior, com a tramitação do esdrúxulo estatuto do nascituro no Congresso. Ou seja, fundamentalistas de todos os tipos tentam atacar as mulheres de todas as formas com o farsesco argumento de defesa da vida quando, na verdade, tentam impor à mulher uma condição social subalterna, sem liberdade e sem dignidade.

Como se observa, tal qual o movimento nazista, aos poucos ideais políticos patéticos de grupos conservadores começam a ganhar espaço. Se a sociedade não ser um basta a esse tipo de ação, não tenho dúvidas que novos holocaustos estão por vir.

 

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