A FARSA DO DISCURSO DA RESILIÊNCIA

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Foto: Paisaje Del Pedregal, Frida Kahlo, 1952.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

Segundo o dicionário da língua portuguesa, resiliência é a capacidade que o ser humano possui para transformar momentos difíceis em oportunidades de crescimento, mudança e de aprendizagem. Fala-se em amadurecimento emocional, em crescimento e, apesar da aparente mensagem positiva, o discurso que sustenta este tipo de tese carrega dentro de si um efeito perverso que destrói e esvazia vidas todos os dias.

De fato, desde a antiguidade já se fala na existência de oportunidades em situações de crise. É a teoria do Yin Yang, presente na filosofia chinesa. Entretanto, ao contrário do que sustentam os “profetas da resiliência”, as oportunidades nem sempre são individuais. Em boa parte das vezes, ao contrário, a grande oportunidade é abandonar o individualismo e buscar construções coletivas que rompam com a barreira do isolamento. O eremitismo, o viver só e em silêncio, serve apenas para criar seres antissociais e autoestigmatizados.

O certo é que as teorias da resiliência sempre surgem em momentos de crise social muito grande e tentam “condenar” os indivíduos pelo fracasso social, profissional ou emocional. Um dos mais grosseiros e grotescos exemplos é a “Lei da Atração”, que ajudou a australiana Rhonda Byrne a ganhar bilhões de dólares em todo mundo, vendendo a farsesca teoria de que havendo pensamentos positivos vamos atrair “riquezas e boas energias”. Na prática, com exceção da própria Byrne e meia dúzia de facínoras do mercado financeiro, não conheço ninguém que tenha “descoberto o segredo”. A riqueza defendida pela profeta do sucesso energético ainda é quimérica para 7 bilhões de habitantes do planeta, muitas das quais submetidas à miséria e exclusão crônicas.

Mas a perversidade das teorias da resiliência vai além da venda de ilusões. Ela cria algo muito pior que é a privatização e individualização do fracasso. Em termos reais, o discurso da resiliência e o da meritocracia caminham juntos e são primos-irmãos da “apatia política”. Se a solução de todos os problemas é individual e passa por uma reforma moral, então nós somos responsáveis exclusivos pelo nosso fracasso? Por incrível que pareça, é esta ideia farsesca que os profetas da resiliência querem fazer que você acredite, a de que somos seres lineares e a solução dos nossos problemas parte, exclusivamente, de ações internas e individuais. Basta pegar a varinha mágica de Byrne e outros autores do gênero nas lojas de conveniência e pronto: seus problemas serão resolvidos como que por milagre.

No fundo é o mesmo modelo de venda de ilusões praticados pela Igreja Católica na Idade Média ou a teoria de que estamos condenados pelos nossos pecados ou, ainda, que de sofremos nesta vida os resultados de ações de vidas passadas. Uma grande panaceia de discursos que visam fazer os indivíduos aceitarem injustiças como resultado de sua única e exclusiva culpa. Um olhar mais crítico sobre a sociedade demonstra que podemos até enfrentar muitos dos nossos problemas, especialmente as frustrações, com trabalho interior e apoio de profissionais. Entretanto, “esperar que milagres brotem da descoberta de um segredo ou da resiliência é a plena condenação a uma vida de destruição do próprio ser”. Resiliência é, na verdade, a lógica da meritocracia aplicada ao espírito.

 

 

 

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