Crônica: A RELATIVIDADE DO TEMPO

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

No século XVII, o tempo de vida dos seres humanos era bem menor. Em período atribulado por guerras, ausência de saneamento, surgimento de doenças contagiosas sem tratamento, predominância de tabus, início da revolução industrial, aumento da poluição pela queima de combustíveis fósseis, dentre outros, chegar aos sessenta anos era uma aventura, inclusive nos países centrais, com maior poderio econômico.

Foi somente na segunda metade do século XVII, por exemplo, que Luís XIV promoveu um grande processo de urbanização e saneamento da cidade. Se um parisiense do final do século XVII fosse visitar a “Cidade Luz” no início do século XX, com a exceção do Rio Sena e de Notre-Dame, acreditaria estar em outro lugar tamanhas foram as mudanças promovidas. Ainda mais se considerarmos todo o processo de urbanização que a cidade recebeu posteriormente, com a Reforma Urbana de Haussmann (entre 1852-1870), que extinguiu vielas medievais pelos grandes boulevards contemporâneos.

Aliás, muito provavelmente este cidadão parisiense também não saberia ler e escrever, pois a educação universal, laica e gratuita foi um produto da Revolução, seria bem mais jovem que o homem comum do século XX, mas com aparência física envelhecida pela ação do meio em que vivia. Entretanto, a sua dependência do controle do tempo seria menor do que a das pessoas que o sucederam.

O controle do tempo como um objetivo de vida é uma invenção do final do século XVIII, com o crescimento do capitalismo industrial. O que no início parecia surgir como uma forma de libertação para indivíduos que estavam aprisionados pelas relações de suserania e vassalagem do feudalismo europeu, acabou construindo um novo mecanismo mais eficiente de dominação e de controle social. Pensem: qual é o peso que o controle do tempo tem em suas vidas? Não é pouco, pois vivemos cotidianamente controlados por agendas e calendários.

Na verdade, a administração do espaço e do tempo, de forma conjunta, foi a forma mais eficiente de controle social já instituída, muito mais eficaz do que qualquer norma jurídica. O espaço delimita o campo de atuação dos indivíduos, inclusive define os locais onde deve ser processada a violência social e o outro, onde esta não chega. Já o tempo, define toda a vida dos indivíduos contemporâneos. Utilizamos o controle do tempo para administrar o horário de dormir, trabalhar, passear, alimentar e, até, pasmem, amar! Não há nada que a sociedade atual faça que não seja submetido ao controle do tempo.

Aliás, existe até uma palavra que define com perfeição a importância do tempo para a sociedade: eficiência. Somente são consideradas eficientes as pessoas que conseguem administrar a sua vida e os seus atos dentro do tempo determinado. O resultado prático desta regra é o crescimento, cada vez maior, de doenças como depressão, ansiedade, compulsividade, transtornos de obsessão, dentre outros, todos associados ao estresse e das exigências de controle do tempo.

Todavia, quando vencemos as escalas de controle, começamos a perceber que toda essa rigidez não tem sentido. O tempo é, por essência, relativo. Em escalas curtas, como as que vivenciamos todos os dias, parece que tudo é muito demorado. Por outro lado, quando ampliamos a escala e começamos a olhar retrospectivamente em grandes períodos, notamos que tudo passa muito depressa e que mesmo com os avanços tecnológicos a nossa vida é efêmera.

Einstein trouxe uma luz para este conflito na sua teoria da relatividade e com a discussão sobre a dilatação do tempo. Ao confrontar os efeitos da conjugação deste com a dimensão espacial, comprovou que para os indivíduos parados o tempo anda mais rápido do que para os que estão em movimento. É por isto que quando ficamos aprisionados em uma fila, ou cumprindo uma agenda burocrática, sentimos o tempo sendo desperdiçado. Entretanto, quando estamos passeando na rua, nem percebemos a velocidade do relógio. Aliás, um relógio em inércia viajando dentro de um avião anda mais devagar em relação ao das pessoas que se deslocam no solo. Podemos não perceber, mas há uma viagem temporal de milésimos de segundo, fruto de um efeito menos intenso da gravidade da Terra…

 

 

 

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