A CURA DAS PAIXÕES

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Foto: Otelo e Dêsdemoda, de Muñuz Degrain (1881)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais, responsável pelo Blog Sustentabilidade e Democracia.

Certa vez escrevi em poema que amor e paixão são irmãos gêmeos, o que muda entre ambos é a dramaticidade. Eles se alimentam com o fogo dos sentimentos e podem ter duração efêmera, mas a paixão é dramática, carregada do peso dos acontecimentos e estar apaixonado é parecer que a vida é impossível sem o objeto de desejo. Não que as paixões sejam ruins, ao contrário, acho estas extremamente salutares pois indicam vida, emoção, vontade de ir além do programado e um pouco de paixão sempre aquece o espírito e nos permite rupturas extraordinárias.

Mas esta não é uma posição uniforme na literatura das emoções. Muitos autores veem na paixão algo patológico, que cria uma espécie de dependência e uma idealização de vida. Novamente, como já havia dito, as paixões possuem elevado grau de dramaticidade. Entretanto, há uma diferença entre uma conduta apaixonada normal e outra patológica.

Um dos primeiros sintomas da paixão distorcida, como patologia, é a obsessão. As pessoas neste estágio, deixam de viver a própria vida e passam a viver como reflexo do seu objeto de paixão. É algo comum entre os fãs de artistas e desportistas famosos e, inclusive, em paixões clubísticas.

Por outro lado, não costumo classificar a violência de gênero como resultado de mera paixão patológica. Esta pode até existir, mas outros elementos, como a cultura misógina e o sentimento de posse/propriedade também são fatores que pesam neste tipo de ação. Logo, não são meros crimes impulsionados pela emoção. A grande maioria desses crimes deste tipo é qualificada, com elevada premeditação e realizado com frieza e desprezo pela vida humana. Portanto, não é paixão!

Outro sintoma patológico da paixão é o comportamento compulsivo. Novamente temos o abandono da vida real e a necessidade de obter tudo aquilo que, de alguma forma, lembra o objeto de desejo: fotos, camisetas, discos, álbuns, etc. Gostar de algo é normal. Destruir a vida e dilapidar o patrimônio por um desejo compulsivo, com certeza não. Se agir por impulso é algo normal nos indivíduos apaixonados, a impulsividade excessiva pode significar uma patologia.

O terceiro e não menos relevante sintoma de paixão patológica (mas não o último), é a perda da realidade. As pessoas apaixonadas passam a sucumbir e a viver exclusivamente em torno daquilo que consideram o fim das suas vidas: a concretização da paixão. É algo muito comum entre adolescentes, e o clássico exemplo do pacto de suicídio entre Romeu e Julieta, algo que no mundo atual pode ser resolvido com a maturidade, é mais uma forma típica de paixão patológica.

Ao contrário da paixão, o amor é um sentimento que já nasce sólido. Discordo da tese que ele é filho do tempo, embora possa ser filho da maturidade. O ato de amar é algo superior, pois há respeito à diferença, à liberdade e aos desejos concretos do ser amado. Quem ama troca, aprende, evolui, mas não aprisiona. O amor pleno pode ser aprendido em conjunto, mas pode ser vivenciado já no primeiro olhar. É um sentimento diferente, que vai além do simples amor romântico. É algo diferente dos “amores platônicos”, pois estes são verdadeiras paixões travestidas de amor. Mas quem ama deseja o bem ao seu amado. Prefiro sintetizar o verdadeiro amor em uma frase: “eu posso até me desapaixonar, mas não deixo de te amar”.

 

 

 

 

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