SUBVERTENDO A FÁBULA DO CARNAVAL

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Foto: O Desespero de Pierrot, de James Ensor (1892)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

O Carnaval, desde a sua origem, ainda na Europa Medieval, é uma festa popular subversiva, que derruba padrões e questiona o poder estabelecido. Apesar da “fidalguia reclusa em seus salões de bailes de máscaras e fantasias”, foi na arte das ruas que surgiram as mais ricas personagens, as mais belas histórias e os mais nobres sonhos deste universo de festas. Um exemplo disto é poder do samba e do frevo, verdadeiras artes populares conhecidas mundialmente e que são os símbolos do Carnaval Brasileiro. Nesta festa popular, os pobres passam a ser nobres, reis, rainhas e personagens heroicos, tal qual narrado na maravilhosa e crítica “Vai Passar”, de Chico Buarque de Hollanda.

Mas um dos contos mais populares do carnaval, herdado ainda da famosa Commedia Dell’Arte italiana e francesa, é a fábula do triângulo amoroso entre Pierrot (ou Pedrolino, na versão italiana), Colombina e Arlequim.

Pierrot, tímido, pobre e vítima de gozações, amava Colombina em silêncio. Esta, bela e educada, apaixona-se pelo esperto, fanfarrão e galante Arlequim. Mas será que a história foi realmente assim? No universo revolucionário das artes, dos sonhos e das fábulas, tudo pode ser subvertido e novas versões podem ser criadas, assim como faziam os artistas mambembes, especialmente no Carnaval. Vamos, então, para uma nova versão.

Pantaleão era o dono de uma fazenda produtora de flores, muito rico, avarento, mas pouco esperto, motivo pelo qual era objeto de chacota por seus empregados. Tratava os seus trabalhadores com desprezo, com exceção de Colombina, que ainda criança foi criada como filha por sua esposa, dando-lhe educação e nobreza. Apesar de criada como nobre, a moça jamais perdeu a sua simplicidade e comumente vivia entre os empregados e empregadas da fazenda, dentre os quais destaca-se Arlequim, que costumava se vangloriar diante dos demais trabalhadores contando suas aventuras em reinos distantes, as suas lutas contra monstros e seres malignos, além de cantar melodias românticas visando encantar todas as moças que trabalhavam na fazenda. Por certo, chamou atenção de Colombina, que vivia impressionada com aquele mundo de aventuras.

Colombina também era conhecida por sua beleza, diziam que o seu sorriso desafiava os poetas, que os seus olhos mudanças com as estações, que a sua pele era mais leve que a mais pura seda e que era impossível não percebê-la em qualquer universo. Nem mesmo a rudeza de Pantaleão conseguia diminuir a admiração de todos pela jovem.

Neste mesmo local, vivia Pierrot, o jardineiro, responsável por cuidar das mudas de flores. Ao contrário de Arlequim, ele era jovem, tímido e de origem muito humilde, sempre acompanhava as conversas do grupo em silêncio. Apesar de desarrumado, não era feio, suas roupas eram feitas de velhos tecidos e por sua timidez, não fazia o mesmo sucesso de Arlequim. Por ter muito cuidado com as flores, era vítima de gozações e brincadeiras, as quais sempre aceitava com tranquilidade e respondia com um sorriso. Entretanto, guardava uma grande segredo, nutria em silêncio um amor gigantesco por Colombina, embora pouco contato tivesse com a bela jovem.

Quis o destino que um dia, pensando em decorar o seu quarto, Colombina procura-se Pirrot para conseguir algumas flores. No momento, em que a moça chegou, o jovem corou, derrubou todos os instrumentos de trabalho e começou a gaguejar. Surpresa com a reação, ela começou a rir em gargalhadas: “– preciso de flores para decorar meu quarto, quais você me indica?

Depois de pensar, refletir, olhar ao longe e fugir daqueles olhos encantadores, o jovem respondeu: “– margaridas”. “Margaridas – disse ela com uma certa frustração – mas elas não são muito frágeis”! O rapaz pensou, olhou novamente para as flores e disse: “– não, as margaridas são belas, simples e resistentes. Duram mais tempo do que as demais flores e são capazes de resistir a grandes tempestades. Os ventos podem quebrar um carvalho, mas apenas curvam as margaridas, que flexíveis voltam ao normal seguindo a luz do Sol”.

Surpresa novamente com a resposta, a moça aumentou a curiosidade e fez uma nova pergunta: “– e as outras flores, o que você acha delas? As rosas, por exemplo, que possuem um perfume tão delicado?”. Pierrot olhou para um botão de rosa branca, colheu, entregou para Colombina e disse: “– não é apenas o perfume das rosas que é delicado, as suas pétalas também. Ao tocá-las em sua face, perceberás a suavidade da planta. Nada, no universo, possui tamanha leveza ao toque.

Cada vez mais curiosa com a conversa, a moça perguntou: “– e sobre as demais, o que tens a me dizer?”. O jovem Pierrot, vencendo a sua timidez passou a falar sem medo: “– cada planta possui uma característica própria. As gerberas, por exemplo, são parentes dos girassóis e das margaridas, são coloridas e resistentes. As azaleias nascem em árvores grandes e volumosas, são ideias para jardins, assim como as hortênsias com seus múltiplos buques. Já o amor-perfeito é uma flor delicada e que nasce somente em momento e condições especiais durante o outono, e florescem por pouco tempo…”

“– Amor-perfeito perfeito – respondeu a jovem –, não sabia que existia. Dizem que todos os amores são imperfeitos, com exceção daqueles que habitam os nossos sonhos”. “Na verdade – respondeu Pierrot –, o amor-perfeito que eu conheço é somente a flor. Os amores humanos, para serem reais, devem ser imperfeitos, pois estão em constante construção, eles nos ajudam a crescer”.

Cada vez mais encantada com a conversa, de surpresa novamente, a moça fez a moça fez a seguinte pergunta: “– e eu, pareço-me com qual flor”? Pierrot, de forma mecânica respondeu: “– nenhuma flor combina com você”. “Como assim, não tenho a perfeição de nenhuma flor, nunca fui tão ofendida”, respondeu Colombina decepcionada. “Não é isto”, disse Pierrot. “Não foi isto que eu quis dizer, mas você é, a síntese de várias flores. Os seus olhos possuem as cores vivas das gerberas, a sua pele e tão leve quanto as pétalas de rosa, o teu sorriso, a mesma delicadeza das margaridas, e o som da tua voz ilumina todas as flores como o Sol”.

E a partir agora, vocês decidem o final da história. O certo é que Arlequim continuou muito alegre e brincalhão, cantando as suas músicas e contando as das suas aventuras que tanto alegram o carnaval.

 

 

 

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