DERROTAR ESTIGMAS E PRECONCEITOS: um diálogo com a luta antimanicomial

Memory-of-the-Garden-at-Etten

Foto:Memória do Jardim de Etten“, Vincent Van Gogh (1888)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

Era através de suas palavras que se reconhecia a loucura do louco; elas eram o lugar onde se exercia a separação; mas não eram nunca recolhidas nem escutadas

(Michel Foucault)

O que é loucura? O que é normalidade? Quem tem o poder para definir as pessoas que devem ser socialmente excluídas do convívio social e as que devem ser consagradas como gênios, mesmo destruindo a vida de milhões de outras pessoas? Até que ponto o problema da humanidade não é o nosso modelo de racionalidade?

Este conjunto de perguntas iniciais serve para introduzir o grau de fragilidade dos elementos que utilizamos para definir a chamada “loucura” ou “conjunto de patologias médicas que resultam na internação em hospitais psiquiátricos”. Na sua “História da Loucura” Michel Foucault demonstra que desde o final da Idade Média os problemas psiquiátricos foram um instrumento de exclusão.

No início, “os alienados” eram expulsos das cidades, embarcados nas “naus dos loucos”, mas co m desaparecimento da lepra em toda a Europa, os antigos leprosários passaram a ser utilizados para abrigar todos aqueles que eram vistos como insanos e “representavam o novo medo da sociedade”, o que incluía desde mendigos, doentes, pessoas que professavam outras religiões a notórios inimigos do estado.

O “louco” deixou de ser sujeito, e com a “perda da subjetividade” acabou sendo impedido de assinar documentos, prestar depoimentos na justiça e assinar contratos. O método de “exclusão pela loucura” foi quase tão eficiente quanto a fogueira da Santa Inquisição, tanto que até hoje ainda é utilizado por muitos sistemas de saúde.

No século XIX, as internações passaram a ser mediadas por critérios considerados científicos, abrindo um grande mercado para a indústria farmacêutica. Mesmo assim, métodos como a imersão em gelo, eletrochoque e outras aberrações, isolamento em celas, dentre outros, continuaram a ser utilizados, muitos dos quais são considerados como práticas de tortura por normas internacionais nos dias atuais.

Apenas na década de 1960 o italiano Franco Basaglia deu início ao movimento antimanicomial, ou psiquiatria democrática ou de “negação da psiquiatria”. Antes disso, já existiam trabalhos pioneiros de profissionais como a brasileira Nise da Silveira, que fundou a Casa de Palmares utilizando a terapia ocupacional e a arte como instrumentos de tratamento.

É importante destacar que nem sempre as doenças psiquiátricas foram tratadas com exclusão, em interessante trabalho acadêmico, Gabriella Bastos Ferreira, inspirada em Foucault demonstra que já na Idade Média os árabes possuíam hospitais destinados exclusivamente aos “loucos” e empregavam práticas interativas, artísticas, como música, dança e espetáculos teatrais, obtendo resultados mais efetivos do que os europeus. A intenção era “curar a alma alienada” e não excluí-la. Portanto, o método da exclusão sempre foi uma técnica de dominação.

É por isto que Foucault vai mais longe e afirma que nos hospícios não há, propriamente, uma reprovação dos loucos, mas um julgamento, no qual se vigiam os corpos e as mentes, muitas vezes sem obter resultados pela libertação: “mas ao mesmo tempo uma psicologia da loucura torna-se possível, uma vez que sob o olhar é ela continuamente convocada, na superfície de si mesma, a negar sua dissimulação”.

 

 

 

 

 

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