VAMOS FALAR SOBRE DEPRESSÃO?

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Foto: O Desespero, de Gustave Courbet (1843-1845)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

Os dias parecem que não têm fim, exatamente no momento que você queria não existir. As pessoas parecem distantes, quando você mais precisa falar. Mas falar, às vezes é difícil, levantar da cama, impossível! Para que comer, trabalhar, estudar, ler? Melhor dormir, porque talvez no sonho o mundo seja melhor. O coração dói, as noites são um sofrimento contínuo, há um vazio onde deveria existir vida, total falta de vitalidade. Estas frases não são a narrativa de um filme dramático, mas sintomas evidentes de um estado típico de depressão.

A doença, que já atinge oficialmente mais de 11 milhões de brasileiros é considerada como o mal do século e seus números apenas crescem. Atinge adolescentes, jovens, crianças, adultos, idosos, homens, mulheres. Normalmente não precisa de um gatilho, embora em alguns casos, fatores ambientais ou pessoais, notadamente afetivos, sejam o ponto de partida.

Cientificamente, a depressão é conhecida como um “transtorno afetivo de natureza psicossomática”, ou seja, as suas causas não nascem exclusivamente de fatores psicológicos, mas também está associada a alterações químicas do cérebro, principalmente com relação aos chamados neurotransmissores, serotonina, noradrenalina e, às vezes, dopamina. Daí o tratamento com medicação.

Sob o ponto de vista social, há indicativo que os processos depressivos sempre crescem em “períodos de grande repressão”. Assim, a Idade Média, a Revolução Industrial e a década de 1930 teriam sido períodos de onde a doença se manifestou com muita intensidade, mas nestas épocas não existiam nem estudos, nem indicadores adequados. O certo é que o nosso modelo de racionalidade competitivo, excludente, mecânico, hedonista, padronizador e preconceituoso é um dos grandes contribuintes para o crescimento da depressão como epidemia.

É uma doença silenciosa e, muitas vezes, o paciente não consegue reagir sozinho, precisa de apoio e de alguém que o compreenda e tome a iniciativa de buscar apoio médico. Por isto é importante vencer o maior inimigo da depressão: o preconceito, o estigma.

Existe, também, o círculo vicioso da culpa. Antônio Cano, da Universidade Complutense de Madrid, em entrevista ao Jornal El País afirmou que: “por um lado o paciente se isola, e por outro as pessoas não entendem o que passa com ele”. Por isto, os dois maiores aliados do combate à depressão são a informação e a capacidade de falar. Não ter medo de assumir a existência da depressão.

Comumente pessoas depressivas podem apelar para medidas extremas como o suicídio, consumo de drogas pesadas e automutilação. Mas o isolamento e o rompimento com o mundo são os mais comuns. Por isto também é preciso paciência.

Além da medicação e da psicoterapia, existem resultados altamente positivos nos chamados tratamentos alternativos, como fitoterapia, meditação e, principalmente, a arte (dança, música, pintura e literatura). Eu, como portador de “transtorno depressivo persistente”, além do tratamento comum, fui buscar apoio na poesia para libertar a alma e espero que este artigo ajude outras pessoas no tratamento, pois ter coragem é fundamental!

 

 

 

 

 

 

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Um comentário

  1. Inicialmente, parabéns pelo texto! Sem dúvida, a depressão é algo delicado. Precisamos rever conceitos e cuidar desse sintoma. Nesse caso penso…

    “Escrever” é uma ação que faz transbordar muitos sentimentos.
    “Falar” é algo que alivia o coração, por isso, vale a pena elaborar cada momento.

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