A INSUPORTABILIDADE DO MUNDO

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Foto: Amor Impossível, de Marc Brunet.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Que mundo é este que propõe a solidão como alternativa?

Que esconde as pessoas entre muros,

suprime a voz, sufoca, aprisiona, destrói sonhos, a natureza?

Que mundo é este que prega o silêncio como sabedoria?

Nos faz esquecer daqueles que foram abandonados pela sorte,

trata a tristeza como normalidade, esconde sentimentos,

só valoriza o sucesso e a concorrência?

Que mundo é este que se torna cada vez mais insuportável?

É algo que oprime até a alma mais sonhadora

castra a rebeldia e o direito de dizer: eu não concordo! Eu não aceito!

Somos conduzidos como máquinas sem alma,

submetidos ao reino do ódio e do medo,

todos são suspeitos, todos são perigosos, todos são inimigos.

A concorrência é assim, o reino da esquizofrenia racional,

da pobreza do espírito, da morte em vida e da dor incorporada.

Somos cobrados incessantemente para sermos fortes, resilientes,

fontes de espírito vazio preenchido exclusivamente pelo eu.

A socialização, maior avanço da civilização, foi jogado por terra.

O ser humano ideal é aquele autossuficiente, é uma máquina,

não tem amigos, não tem emoções, não tem vida!

Querer viver é um ato de insubordinação constante ao modelo dominante

que nos apregoa a submissão, a aceitação, a repetição de modelos.

Este mundo é insuportável! Este não é o meu mundo! Nele não quero viver!

Sonho e sonho intensamente, porque desejos mudanças.

Quero poder acordar todas as manhãs e poder sentir que o Sol está na janela,

ouvir a voz das pessoas, como de fato existentes, trocar ideias, aprender…

Quero viver intensamente, quero amar intensamente, sabendo que amar não é ofensa.

Quero gritar aos quatro ventos o som da minha liberdade e sentir a minha loucura saindo da prisão.

Sim, a minha loucura de não ser uma máquina racional, de não silenciar diante do absurdo.

Quero, e desejo muito, transformar esta realidade doentia onde todo mundo é inimigo ou perigoso.

As pessoas temem mais receber uma flor do que comprar uma arma!

Isto é ser civilizado? Se for, prefiro ser chamado de selvagem,

pois eu amo a beleza dos gestos singelos e simples e a complexidade da arte.

Não acredito nas vozes da razão que oprimem e pregam submissão.

Prefiro viver apaixonado e perdido entre versos do que mascarando cálculos.

Sentir o barulho errante dos tambores do que as pedras do ódio.

Estou cansado deste mundo de moralistas disfarçados,

que apenas escondem a maldade atrás da sua dissimulação.

Não pretendo vender a minha alma para encontrar o sucesso,

pois não vejo sentido no sucesso sem vida!

Sou imperfeito e amo a minha imperfeição!

Sou incompleto e aceito que a minha vida precisa ser preenchida por meio da troca com outros indivíduos.

Quero aprender com outros seres incompletos, quero evoluir, ter a humildade de reconhecer que não sou nada diante de um universo de diversidade.

Quero caminhar pelo mundo, ouvir o mar e as suas ondas rebeldes.

Sonho voar como os pássaros e invejo a sua liberdade.

É tão mesquinha a nossa vida normativa, que apequena as outras criaturas.

Sou e quero continuar sendo um transgressor de padrões.

Não acredito na tábua rasa dos uniformes. Nem que a infelicidade traga grandeza.

A paz, esta palavra tão pequena e esquecida, vem acompanhada de liberdade,

de respeito ao agir diferente, ao pensar diferente, ao amar diferente…

Somente admitindo que a verdade é uma realidade translúcida é que sairemos desta jaula doentia.

O mundo não precisa de armas, nem de ordem, nem de silêncio.

Precisa, isto sim, de vida! E somente ocupando os espaços com solidariedade e voz ativa que realmente poderemos viver sem medo!

 

 

 

 

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Um comentário

  1. Se houvesse classificação para o contexto desse texto, eu diria que é “contemporâneo” e se houvesse alguma conclusão para o caos existencial dos sujeitos, faço uso da sua expressão […] “Não pretendo vender a minha alma para encontrar o sucesso”.

    Infelizmente estamos vivendo a era do “ter” e não do “ser” portanto, vale a pena viver as nossas imperfeições, são elas que nos ajudam a enxergar as múltiplas realidades do mundo.

    Curtir

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