NÃO SE CONSTRÓI UM NOVO MUNDO DESTRUINDO A ESPERANÇA

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Foto: Parque dos Sonhos, de John Bramblitt

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

Somos arquitetos de um novo mundo. A nossa tarefa é gigantesca diante de tamanho universo de infortúnios. A fome, a miséria e a falta de dignidade são apenas a face humana de um planeta onde seu habitante com intelecto mais avançado é o principal responsável pela extinção da vida. O especismo, o desmatamento, a desertificação e o enlouquecimento do clima são a outra parte da nossa contribuição para o caos.

Segundo Nietzsche, precisamos carregar o caos dentro de nós para poder dar a luz a estrelas cintilantes. Mas quais são as estrelas que podemos construir quando proclamamos o ódio, o isolamento e a violência? Quando pessoas são fichadas pelo estado simplesmente por exercitarem o seu direito de andar pelas ruas? As estrelas da opressão são estrelas mortas, funcionam como buracos negros e utilizam a sua força magnética para atrair tudo o que circula no entorno para uma massa amorfa e sem vida.

Quando olhamos animais sufocados por sacos plásticos que nadam livremente pelo mar, pneus formando cordilheiras sobre a terra ou submarinas, a fumaça sendo sugada por pulmões que não mais respiram, casas amontoadas como um quebra cabeças sem alma, temos a pura certeza de que algo está errado, que é preciso mudar.

Alguns dizem que toda a mudança começa dentro de si. Talvez seja uma verdade, mas tomar consciência interior do processo de destruição do planeta e ficar em silêncio pode ser sinal de cumplicidade. Albert Einstein, sempre previdente afirmou que o mundo não será destruído pelos maus, mas por aqueles que os olham e não fazem nada. Não falam, não protestam, não reagem. Ficar em silêncio por mera conveniência é a melhor forma de alimentar o erro e a destruição.

Não podemos agir como autômatos e aceitar este movimento permanente de encastelamento de egos, de destruição de vínculos, de subordinação a rotinas formatadas por cortinas agendadas. Enquanto agimos como se nada acontecesse, geleiras derretem diante da impunidade da poluição, espécies são extintas e crianças são mortas por guerras fomentadas com o único objetivo de apropriação de fontes energéticas.

O mundo exige reação. Não apenas por palavras, mas por movimento, consciente, organizado, coletivo. O agir pragmático é uma repetição vazia e um passo breve para sistemas opressivos. Precisamos do agir consciente. Talvez utópico, talvez romântico, mas carregado pelo brilho da certeza e da esperança. Se é verdade que algo deve ser destruído para alcançar o novo mundo, comemos pelas barreiras e pelos muros que nos afastam do mundo real, das ruas e da socialização. Uma das grandes revoluções humanas para atingir a civilidade foi a de viver em sociedade. Hoje esquecemos disto e transformamos o outro em inimigo.

Precisamos de uma nova ética! Estou cansado de egoísmos performáticos, do insulamento da autoproteção. Parodiando Leff, o novo mundo não será aquele da alteridade, que enterrou o século XX em guerras de poder, mas da outridade, da ética do reconhecimento, da solidariedade, do apoio mútuo, inclusive das espécies cuja voz não é entendida por nossa linguagem, cada vez mais pobre, frente ao epistemicídio exercitado pela cultura dominante. É somente tendo o outro ou a outra como ponto de partida que talvez consigamos semear as sementes perdidas da esperança!

 

 

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