SUA MENTIRA EM ABRIL

472954-anime_girls-trees-anime-Shigatsu_wa_Kimi_no_Uso-748x390

Foto: Cerejeira em Flor (cena da animação japonesa Shigatsu Wa Kimi no Uso)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

O que você faria se soubesse que a sua vida está por um fio? Esta pergunta simples é uma premissa importante para assistir à obra-prima japonesa Shigatsu Wa Kimi no Uso (ou Your Lie in April, nome mais utilizado pelas redes de distribuição), brilhantemente dirigida por Kyohei Ishiguro.

Trabalhar a análise de filmes tendo como ponto de partida animações japoneses (os famosos animes) não é coisa pequena. Diferentemente do que nos é vendido pela comércio ocidental, o cinema oriental é muito mais rico em conteúdo e em emoções do que parece. Conviver com Naruto e Dragon Ball Z, citando dois exemplos de ótima qualidade, nos faz pensar que todos os trabalhos deste tipo são místicos ou infantis. Mas esta é uma perspectiva totalmente equivocada. Quem já assistiu os clássicos Akira, ou Perfect Blue, sabe que a coisa é muito diferente. Aliás, o último filme influenciou muito a obra de Darren Aronofsky, diretor de filmes fortes como “Cisne Negro” e “Réquiem Para um Sonho”. Claro, nunca podemos esquecer toda a arte do cinema japonês no trabalho de gênios como Akira Kurosawa (Sonhos, Ran, Ráshomon, dentre outros) ou de Youjiro Takita (do belíssimo “A Partida”). Temos, também, a arte um pouco mais infantil dos Estúdios Ghibli, e da maestria de Hayao Miyazaki.

E é desta rica tradição que nasce a história do pianista Kosei Arima, um menino tímido, genial e reprimido, que deixou de tocar piano após a morte da sua mãe e rígida professora Saki Arima. Como um estudante normal, segue a sua vida, acompanhado dos seus amigos desportistas, Tsubari Sawabe (que nutre uma paixão escondida pelo protagonista) e Ryota Watari. Tudo muda quando Arima conhece a bela violinista Kawori Myiazono (Kaori), por quem se apaixona de forma quase imediata.

Apesar destes traços típicos de uma melosa aventura romântica, a série/filme, ao longo dos seus 12 capítulos, está muito longe disso. Há um mergulho profundo na alma humana dirigido pela música e muitas descobertas acabam atingindo as personagens e os próprios espectadores, isto sem contar a brilhante trilha sonora composta por ninguém menos do que Chopin, Rachmaninoff e Camille Saint-Saëns. Existem cenas memoráveis, como o dueto entre Arima e a irmã de seu maior rival (Takeshi Aiza), a adolescente Nagi Azima tocando a “Valsa das Rosas” de Tchaikovisk, demonstrando o poder das notas musicais para tocar corações e exorcizar fantasmas. A cena musical final, com Chopin, é uma obra prima.

Ao longo da história as pessoas vão sendo surpreendidas pelos fatos, vão descobrindo que as suas impressões sobre determinados acontecimentos estavam erradas. Aliás, algo comum na cinematografia oriental: nos colocar contra a nossa própria racionalidade e nos fazer repensar. No fundo, nesse processo de redescoberta da vida, descobrimos eu está é muito importante para ser abandonada pelos nossos medos, razão pela qual devemos sempre estar abertos para novos aprendizados.

 

Brinde: Valsa das Rosas (Adágio) – Tchaikovisk

 

 

 

 

Anúncios

3 comentários

  1. Pensando num ser integral incluindo suas ações, emoções, sensações e atitudes vale destacar o conteúdo sensível dessa proposta. Realmente, precisamos ser surpreendidos para despertar e, sem dúvida, “estar abertos para novos aprendizados”. Mais um texto excelente!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s