FILMES QUE FALAM VERDADEIRAMENTE SOBRE AMOR

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Foto: Cena do filme o “Jardim das Palavras” de Makoto Shinkai

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Esta postagem, como todas, tem uma pequena história inicial. Fazendo uma pesquisa sobre cinema, encontrei uma lista assinada pelo site www.cineseries.com.br citando os 100 melhores filmes românticos dos últimos 25 anos. Após olhar a lista notei que, além de já ter assistido 90% das obras, todas possuem características comuns: são melodramas norte-americanos (no máximo britânicos), com roteiros repetitivos e personagens lineares, alguns vazios. Conclui que se o tema for amor, jamais indicaria qualquer um deles.

Aliás, a listagem indica um pouco da pobreza do debate ocidental sobre emoções. Talvez por isto a nossa sociedade esteja sempre aprisionada em doenças afetivas ou isolamento. Em geral, o nosso cinema transmite a errada ideia de que amor é sofrimento e tristeza, com alguns clichês cômicos que são comuns nessas obras. Mas seria esta a forma correta de abordar um sentimento tão amplo e tão nobre quanto o amor?

Pensando nisto, fiz uma breve listagem de filmes, bem mais modesta, mas trabalhando algumas premissas básicas: primeira, o amor é algo amplo, que enriquece a vida dos seres humanos; segunda, o amor pode ser encontrado mesmo nos pequenos gestos; terceira, o amor liberta, e tão somente por isto merece ser vivido.

Então, vamos à lista que não é hierárquica, mas apenas uma forma de organização. Aliás, vocês vão notar que a foto que ilustra o post é do filme “Jardim das Palavras”, um pequeno poema cinematográfico de Makoto Shinkai, mas ele não aparece na lista. Não é necessário, pois o recomendável, como ponto de partida, é assistir toda obra deste diretor que ainda é muito jovem.

1) Truman (Argentina/Espanha, 2015)

Amor? Um filme cujo título é direcionado a um cachorro? Sim, esta comédia dramática do cineasta espanhol Cesc Gay é uma aula sobre emoções. Com atuações memoráveis de Ricardo Dárin, Javier Camara e Dolores Fronzi, conta a história de Javier (Dárin), que ao descobrir sobre a sua morte iminente em razão de câncer terminal, recebe a visita do amigo Tomás (o excelente Câmara) e os dois partem na busca de uma casa para Truman, fiel companheiro de Javier. Afinal, o belíssimo cachorro, que rouba a cena várias vezes, não pode ficar sozinho depois da morte prevista do amigo. Ao longo da história, as personagens reconstroem relações, recuperam amizades, descobrem sonhos escondidos e, claro, encontram um final tão óbvio quanto surpreendente para a guarda de Truman.

2) Fresa y Chocolate (Morango e Chocolate, Cuba, 1994)

Dirigido por Tomás Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabío, a história se passa na Havana de 1979, quando um estudante comunista, David, conhece Diego, um ativista Gay descontente com a política de Fidel Castro para a comunidade LGBT. No início, David tenta evitar a qualquer custo a convivência com Diego, mas ao longo do filme os dois formam uma sólida amizade com mútuo aprendizado. No fim, vamos descobrir que não basta carregar as bandeiras de esquerda para deixar de ser alienado e que muitas respostas para vida vão além da ciência política. Vencedor do Urso de Ouro de Berlim e do Kikito de Gramado, o filme merece todos os elogios.

Ah, amor… quem disse que amizade não é uma forma de amor? Além disso, esperem para ver o quanto David vão amadurecer com os ensinamentos do amigo Diego.

3) Il Postino (O Carteiro e o Poeta, Itália, 1994)

Confesso que aprendi muito sobre poesia assistindo este filme. Ele mesmo é um poema de amor tão rico quanto a obra de Pablo Neruda. Dirigido por Michael Rachford, adaptado do livro de Antônio Skármeta, conta detalhes da amizade entre o grande poeta e o tímido carteiro Mario, semi-instruído e apaixonado pela bela Beatriz, durante o exílio de Neruda na Itália (importante: é uma obra de ficção). Ao longo do filme, temos um crescimento de Mário que, aos poucos, também começa a se apaixonar pelos ideais comunistas de Neruda. Infelizmente, esta foi uma das últimas e brilhantes atuações de Troisi, que morreu logo após o filme.

4) Okuribito (A Partida, Japão, 2008)

A morte é o fim de tudo? Viver com a morte é alguma coisa ruim? Ou ela pode nos ajudar a libertar o íntimo perdido? Esta obra maravilhosa, dirigida por Yojiro Takita merceu cada um dos prêmios recebidos e conta a história do Daigo Kobayashi (o excelente Masahiro Motoki), violoncelista que perde o emprego após o súbito dissolvimento da orquestra na qual tocava. Recém-casado, Daigo vai trabalhar como “nokanshi”, uma pessoa que prepara os mortos para o velório e cremação. Aos poucos vai descobrindo o sentido da vida e a importância de aliviar a dor das outras pessoas. Destaque: a cena de Daigo tocando violoncelo na colina é um momento mágico do cinema e, para quem gosta de música e intensidade, vale a pena ser vista e revista várias vezes.

5) Koe no Katachi (A Voz do Silêncio, Japão, 2016)

Segundo filme japonês da minha lista e o meu momento sádico. Sim, porque apesar de ser a única animação aqui listad, é o famoso filme para chorar rios de lágrimas. Mas a maior mensagem talvez esteja aqui: “amor é redenção”. A obra dirigida por Naoko Yamada conta a história do desajustado Shoya Ishida, que na infância era o valentão da escola e torturou vários dos seus colegas, inclusive a frágil Shoko Nishimiya, menina que possui problemas auditivos. Ocorre que depois de tanto incomodar Nishimiya, Ishida descobre que a sua própria vida não tem sentido e inicia um processo de reconstrução da própria vida, transformando-se numa pessoa capaz de ajudar a todos os que tem problemas, enquanto sofre profundamente com as suas próprias limitações. É claro, antes de tudo isto, tenta e desiste do suicídio. O filme inteiro é de uma beleza incomum e o final é a verdadeira redenção. É daquelas obras que não saem da memória das pessoas que se permitem viver as emoções que a vida oferece.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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