CODE GEASS: A Impressionante Metáfora de um Mundo Totalitário.

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Foto: Cena de Code Geass, soldado refletindo diante da morte de civis em batalha.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Imaginem um país dividido em duas castas bem distintas, uma com acesso a tudo (britannios) e outras sem acesso a nada (elevens/japoneses), ambas vivendo dentro de uma sociedade militarizada e manipuladas por uma mídia onipresente que é controlada pelo grupo que detém o poder. Sim, a breve interpretação inicial do Japão (chamado apenas de Área 11) dominado pelo Sagrado Império da Britannia, um dos eixos centrais desta série de animação, tem muito a ver com a realidade que presenciamos diariamente e não nos damos conta.

A história narra a vida do jovem Lelouch Lamperouge, príncipe deserdado do império da Britannia e que junto com a sua irmã, Nunnally, é utilizado como moeda de troca para o exercício pleno do poder por seu pai, o Imperador, depois do homicídio suspeito da mãe. É importante ressaltar que não há relação direta entre o Britannia e o o Império Britânico, como muitos fazem, na medida em que tratamos de uma ficção científica e, em todos os episódios, a sede do império totalitário é apresentada no território dos EUA.

O primeiro dos 50 episódios das duas temporadas (cada uma com 25), dirigidas por Goro Taniguchi, é impressionante, tanto pela narrativa das batalhas como um grande jogo de xadrez, como na capacidade de mostrar com crueza o genocídio praticado pelo exército/polícia da Britannia dentro de um subúrbio do Tóquio, além de apresentar claramente o trabalho midiático de manipulação das notícias para esconder a violência e transferir a responsabilidade da ação para um dos grupos da resistência japonesa (chamada de terroristas pela imprensa oficial).

É neste mesmo ambiente que Lelouch, por acaso, acaba conhecendo as duas personagens que formarão com ele o triângulo amoroso principal da série, Kallem Stadtfeld (ou Karen Kõzuki), integrante da resistência, filha mestiça de um britanio com uma japonesa, e a misteriosa jovem de cabelos esverdeados, C.C., com quem o protagonista firma um pacto para receber um estranho poder para o controle absoluto da vontade das pessoas, o “Geass” (que dá nome à série), poder este que será utilizado por ele para destruir o poder do império, vingar a morte da mãe e tentar criar um mundo melhor para a irmã.

A construção do personagem protagonista é muito interessante, pois ao mesmo tempo em que ele que transmite um forte idealismo e preocupação com as pessoas, especialmente com a sua irmã, com C.C., Kallem e com o seu antagonista e amigo, Suzaku Kururugi, e sofre com o resultado das suas decisões, também aparenta a sua paixão pelo poder e o fato de muitas vezes ser engolido pela vaidade. Tal dualidade é transmitida pelos excelentes diálogos travados dentro do roteiro conduzido por Ichoro Okouchi.

Para enfrentar o poder da Britannia, Lelouch cria um codinome, Zero, e passa a se apresentar em público fantasiado, com capa, usando máscara, para comandar o exército de resistência, a “Ordem dos Cavaleiros Negros”. Na sua vida cotidiana é um simples estudante dentro de uma escola formada pela elite do Império, vida dupla que também é vivenciada por Kallem. Aqui um outro corte interessante, pois estão presentes muitos elementos estéticos e visuais de um outro nobre de vida dupla, Zorro. Só que as coincidências terminam aí, pois, na verdade, Code Geass é muito parecido com uma saga ao estilo “Senhor dos Anéis tecnológico”.

Suzaku Kururugi também é um personagem muito bem construído. Amigo de infância do protagonista e filho do ex-primeiro Ministro do Japão. É considerado como um britânio honorário e oficial do exército imperial. Possui forte idealismo e, mesmo sofrendo discriminação constante por sua origem, pretende transformar o governo imperial por dentro. Diferentemente de Lelouche, que é um estrategista, Suzaku é um soldado de alto nível, obstinado, que vai galgando postos por suas ações em campo de batalha. Ao longo da série vai tendo os seus ideais confrontados com a realidade e depois de receber uma ordem de controle do amigo pelo Geass, acaba se obrigando a sobreviver em todas as lutas.

Embora as armas principais dos exércitos sejam robôs gigantes, os “Knightmares”, estes são apenas um suporte militar e vão recebendo melhoria tecnológica contínua durante toda a série, em razão da corrida bélica travada pelos dois lados e pelo constante trabalho de espionagem. Aliás, alguns personagens trocam de lado mediante as conveniências e existe uma luta diplomática de bastidores, fazendo com que nunca exista certeza sobre os apoios de cada um dos lados. O certo é que cada batalha apresenta uma novidade e nestas fica evidente a importância do papel humano, seja do voluntarismo de Suzaku, que vira cavalheiro do império, ou de Kallem (principal oficial da Ordem dos Cavaleiros Negros), seja do trabalho dos cientistas ou do brilhantismo estratégico de Zero.

Outro elemento muito interessante é a apresentação da crueza da guerra, dos impactos do uso de armas de destruição em massa, do massacre de civis e de inocentes e a crueldade de uma sociedade divida em estratos sociais rígidos onde poucos tem muitos e maioria não tem nada, sendo mero insumo produtivo. O alívio da série é dado pelo triângulo amoroso principal, pelas peripécias do protagonista na sua vida de estudante e, até, por um gato de rua que é adotado por Suzaku. O gato acaba roubando a cena muitas vezes, como no furto acidental da máscara de Zero.

A série que muitas vezes choca, possui reviravoltas surpreendentes e termina de forma brilhante, deixando os espectadores embasbacados. O desejo de continuidade de muitos vai acontecer em 2018, no décimo aniversário do final de Code Geass. Já é certo que será lançada uma terceira temporada neste ano, embora ainda não tenha sido divulgado o formato e o número de capítulos.

Mesmo sendo uma animação, existem muitas mensagens transmitidas na série. Nenhum personagem é perfeito, não há maniqueísmo, personagens secundários acabam cumprindo papeis fundamentais e o auto-questionamento é uma constante. Esta multiplicidade de elementos é a maior qualidade de Code Geass, servindo, inclusive, como uma metáfora para interpretar os conflitos econômicos e militares atuais.

 

Detalhe: a trilha sonora é excelente, como pode ser visto nesta breve apresentação da próxima temporada:

 

 

 

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