GÊNERO E SEXUALIDADE NOS ANIMES: Um debate que surpreende

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Foto: Confissão de Amor em “Eubeke! Euphonium” (Kyoto Animation, 2015)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

Uma menina entra na adolescência, muda de escola e, ao mesmo tempo em que avança no conhecimento do seu campo de estudo, a música, também começa a descobrir sua sexualidade e afetividade. Duas pessoas disputam o seu coração: o seu amigo de infância e a ex-rival e agora melhor amiga. Não estou tratando de nenhum roteiro voltado ao público adulto, mas de um anime produzido por um dos maiores e respeitados estúdios do Japão, o Kyoto Animation, e que tem como público principal o infantojuvenil. Trata-se de “Hibike! Euphonium” (de 2015), dirigido por Tatsuya Ishihara, onde narra a vida da jovem Kumiko Oumae, uma instrumentista de eufônio que ingressa na nova escola e inicia a sua caminhada para a maturidade, o que envolve, além de muita música, o despertar amoroso. Embora ela tenha iniciado um namoro oficial com o seu amigo de infância Suichi Tsukamoto, na segunda temporada da série, em pesquisa realizada pelo site especializado FANDON, a grande maioria dos votantes preferia que ela ficasse com a sua amiga, a trompetista Reina Kousaka.

Mas este não é um caso isolado. Há muito tempo as animações japonesas já enfrentam as questões de sexualidade e gênero sem nenhuma dificuldade, algo que deixaria qualquer demagogo do “escola sem partido” com cabelos em pé. Não quer dizer que estejamos falando de um sistema perfeito. A maioria dos animes ainda reproduz um comportamento machista dos protagonistas, mesmo que em alguns casos o próprio personagem identifique isto e resolva mudar, como na visual novel Shuffle. Em outros casos, como no consagrado Toradora, meninos e meninas estão em pé de igualdade, e o protagonista Ryuji Takaso só consegue estudar graças à sua mãe solteira batalhadora. Durante o desenvolvimento do roteiro vamos descobrindo a grandiosidade desta mãe que, no início, parece um pouco ingênua, mas que foi capaz de enfrentar uma verdadeira batalha para que o seu único filho conseguisse estudar, mesmo depois de abandonada pelo marido e pela família.

Outros dois exemplos recentes de mangás/animes que abordam muito bem as questões de gênero ou de sexualidade são Citrus, uma comédia/drama romântica protagonizada por duas meninas, inclusive com direito a casamento e vestidos de noivas,e Banana Fish, um roteiro policial que foi regravado (o original é de 1985) e manteve o interesse romântico entre os dois protagonistas masculinos. Outro exemplo semelhante é Kiddy Grade, um anime de ficção científica Shonen, assim como Banana Fish, onde romance entre meninas. Beijos entre pessoas do mesmo sexo, algo que somente foi permitido na televisão brasileira nesta última década e depois de uma grande polêmica de mídia, são comuns em animações apresentadas pela televisão estatal japonesa, a Tokyo TV.

É claro que não estamos tratando de um processo pacífico e sem conflitos, ou que tenha iniciado recentemente. O debate sobre a liberdade sexual no Japão remonta há séculos e ainda está inconcluso. O Kabuki, por exemplo, espécie de teatro tradicional japonês, criado século XV e considerado como patrimônio da humanidade pela Unesco, possui como marca principal a aparência e maquiagem andrógena dos atores. Apesar de criado originalmente como uma forma de expressão cultural por mulheres, até pouco tempo apenas aos homens era permitido a participação neste gênero teatral, o que hoje já foi superado. O mesmo vale para animes e mangás, pois como bem relata a autora de Citrus, ainda existe muito preconceito ao trabalho de mulheres neste campo.

Pois retornando a estes, ainda temos segmentos próprios que tratam da relação entre homens (Yaoi) ou entre mulheres (Yuri). Isto não quer dizer que os personagens sejam homoafetivos, mas que o amor pode se expressar além do limite dos gêneros. Da mesma forma, o segmento Bishonen (garotos bonitos) e Bishoujo (garotas bonitas) são destinados ao público adolescente independente do gênero.

Mas a grande evolução está nos animes não segmentados, classicamente classificados como shonen, embora abertos a todos os públicos além do masculino. Em Fuuka, por exemplo, um ótimo anime musical, um dos personagens mais significativos (Makoto) é um homossexual assumido e não estereotipado. O shoujo (público feminino) Netsuzou Trap está longe de ser classificado como um drama Yuri. Em R-15, uma comédia Ecchi (com conteúdo sensual) e roteiro bem menos intenso do que os dois anteriores, pois é mais cheio de clichês, a rivalidade romântica é travada naturalmente entre os personagens sem quaisquer restrições de gênero. Ou seja, não é o gênero que define o personagem, mas a sua personalidade dentro do contexto do roteiro.

Indo além do mundo da sexualidade, considerando a afirmação por direitos de igualdade, temos o excelente “O Conto da Princesa Kaguya” (2015), um longa-metragem que aborda a vida de uma jovem que é adotada por uma família pobre, torna-se rica, e rejeita qualquer tipo de imposição de casamento arranjado, criando tarefas impossíveis para os seus pretendentes da nobreza. Esta posição não sofre nenhum questionamento dos deuses, mais preocupados com o comportamento gananciosos do seu pai adotivo, o qual somente se arrepende dos erros no final.

Portanto, embora seja impossível afirmar que o mundo dos mangás/animes superou as questões de gênero, é inegável o avanço neste campo do cinema, consolidado ao longo do tempo e que supera a barreira da idade. O debate proposto por algumas pessoas mais conservadoras no Brasil, de que a infância e adolescência não comportam a discussão sobre sexualidade seria motivo de piadas no mundo dos animes, pois esta é uma discussão superada há muito tempo. É evidente que muito ainda precisa ser feito, mas é um exemplo a ser estudado, até porque estamos tratando de campo da cultura onde os principais produtores e consumidores são jovens e adolescentes. Por sinal, muitos consagrados escritores de “light novels” e mangás ainda não possuem idade para dirigir ou beber. E como a arte também é uma forma de expressão, talvez por isto o mundo dos animes/mangás não comporta mais debates tão atrasados sobre sexualidade como os que ainda são feitos em segmentos religiosos e meios de comunicação no Brasil.

 

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