O Brasil e a “Parábola do Mau Samaritano”

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Foto: Hieronymus Bosch, Crist Before Pilate, 1520.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas, X, 27)

Inicialmente, é importante destacar que não me considero um cristão. Entendo que existem bons ensinamentos em todas as religiões, do budismo ao cristianismo, do africanismo ao xintoísmo. Uma das essências da civilidade é conviver com as diferenças e respeitar as posições sinceras expressas nas crenças das pessoas, desde que estas não violem a dignidade de outrem. Aliás, se existe um limite para o exercício religioso, independente da crença, é quando está viola a dignidade, nestes casos deve sempre prevalecer uma ponderação que faça prevalecer a vida, a liberdade, a igualdade e o amor. Mas este é um debate longo e para um outro momento.

Quanto ao cristianismo, existem várias passagens maravilhosas da Bíblia que podem servir de guia moral tanto para as outras religiões como para aquelas pessoas que não possuem religião. Quando falamos em paz, em amor e dignidade, o sectarismo e a pregação do ódio são sempre o pior caminho. Aliás, são o caminho contrário, Um destes bons ensinamentos está na famosa “Parábola do Bom Samaritano”, a qual tomo a liberdade de repetir aqui:

25. Levantando-se um doutor da lei, experimentou-o, dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26. Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na Lei? como lês tu? 27. Respondeu ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. 28. Replicou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás. 29. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? 30. Prosseguindo Jesus, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que, depois de o despirem e espancarem, se retiraram, deixando-o meio morto. 31. Por uma coincidência descia por aquele caminho um sacerdote; quando o viu, passou de largo. 32. Do mesmo modo também um levita, chegando ao lugar e vendo-o, passou de largo. 33. Um samaritano, porém, que ia de viagem, aproximou-se do homem e, vendo-o, teve compaixão dele. 34. Chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma hospedaria e tratou-o. 35. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: Trata-o e quanto gastares de mais, na volta eu te pagarei. 36. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 37. Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai-te, e faze tu o mesmo”.

Qual é o objetivo da parábola do bom samaritano? De forma bem direta, demonstrar que o dever de todo o cristão é o de ser solidário para com o próximo quando este encontra-se em dificuldade. Para este dever não existe diferença de crença, de gênero, de religião ou de nacionalidade. É um imperativo moral obrigatório ou, nas palavras de Kant, um imperativo categórico.

Ocorre que, contrariando tal ensinamento, o futuro Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Sr. Ernesto Araújo, manifestou ontem que o país deverá sair Pacto Global Para Migração das Nações Unidas. Não é preciso dizer que, em virtude das mudanças climáticas, das guerras civis e tribais, de genocídios, da fome, de perseguições políticos e do medo do surto de doenças como o ebola, o mundo tem apresentado um movimento migratório cada vez maior. Para garantir o mínimo de dignidade aos migrantes e evitar que estes sejam vítimas de ações de ódio e preconceito ou, ainda, de mais violência, os países-membros da ONU construíram, coletivamente, um acordo internacional. Dirigidos por Donald Trump, os EUA foram os primeiros a abandonar o pacto. Logo depois governos de extrema-direita, como Polônia, Hungria e República Tcheca também o fizeram, no que foram acompanhadas por novos governos direitistas, como da Itália, de Israel e da Áustria. Agora, o Brasil segue a horda fascista no mesmo caminho.

A justificativa do futuro chanceler do nosso país é a pior possível: defesa da soberania. Exatamente o mesmo argumento utilizado por Jair Bolsonaro (PSL/RJ) e seus asseclas para atacar terras indígenas e o Protocolo de Paris. Para estas pessoas, a soberania deixou de ser um valor diplomático e um atributo do país para virar uma arma política visando a disseminação do ódio.

O curioso é que Ernesto Araújo se afirma um cristão e a sua primeira manifestação oficial de uma medida como um futuro chefe de diplomacia é negar valores como misericórdia e solidariedade, é negar a essência da parábola do bom samaritano. A postura de Araújo é a mesma do Levita e a do Sacerdote, passar ao largo de quem sofre e deixar de prestar auxílio. Nesta conduta vergonhosa do futuro chanceler do Brasil observamos mais um traço do fascismo: utilizar Deus como justificativa para comete as mais diversas atrocidades, tal qual a Inquisição Católica, o fascismo de Mussolini ou o nazismo de Hitler. Não podemos esquecer que as tropas nazistas rezavam antes das batalhas e depois queimavam judeus, ciganos, deficientes e homossexuais nas câmaras de gás.

Neste momento, não vou discutir os aspectos constitucionais da proposta de Araújo, a qual viola os fundamentos da nossa Lei maior. O foco deste artigo é apenas o elemento moral. E, novamente, o nobre Chanceler entra em contradição, pois o livro que ele diz utilizar como guia afirmar que “o verdadeiro cristão é medido pelos seus atos”. Não adianta orar mais alto, fazer discursos longos, dizer que ama a Deus e odiar os seus inimigos ou, ainda pior, odiar aqueles que sequer possuem condições de sobreviver e dependem da solidariedade (1 João, 4:20). Pois, na verdade, como ensina Madre Tereza, para o verdadeiro cristão, “as mãos que servem são mais importantes do que os lábios que oram”. De nada adianta rogar a Cristo, se na hora em o seu próximo precisa de ajuda, você prefere apoiar aos “Vendilhões do Templo”. Neste caso, serás sempre um mau samaritano!

 

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