A NUDEZ E O AMOR

casal_eloísa-serpa

Foto:Casal“, de Heloísa Serpa

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Amor e nudez são sinônimos. Falo, obviamente, do amor romântico e não das suas variações afetivas. Nada nos deixa tão transparentes, tão abertos, tão entregues, quanto o amor. Por isto costumo caracterizar o amor como a nudez da alma.

Não existe amor pudico, sem desejo, sem contato, formado exclusivamente por uma confluência espiritual hipotética. O amor platônico é masoquismo, algo que só existe na mente de ególatras. O amor, quando real, nos agride, não com violência, mas com emoção. Freud diria que as emoções explodem por todos os poros e isto é verdade. Podemos alcançá-lo, podemos perdê-lo, mas não podemos deixar de senti-lo. A dor do amor, sofrer por amor, é algo natural, especialmente quando existem rupturas ou fracassos. Se não houver nenhuma emoção, poderia existir tudo, menos amor.

O amor e o sexo são partes integrantes da mesma jornada. Não se afastam, não se excluem. Em todas as relações afetivas, os corpos se encontram. Seja no acariciar de mãos, na angústia de um beijo, no abraço que não termina, na intimidade do prazer conjugado. Não existe amor quando apenas um corpo se satisfaz, apenas desejo, a perda da parte mais importante do relacionamento entre duas pessoas, que é a troca. O que há de mais prazeroso do que tocar a pele da pessoa amada, sentir seu corpo vibrar em cada movimento, ouvir sussurros, gritos e a explosão suprema? Nada, absolutamente nada.

Embora não cristão, entendo que a metáfora do amor pode ser lida no gêneses, pode ser descrita como uma representação perfeita da descoberta da sexualidade, quando dois jovens encontram-se nus no paraíso da inocência e se autodescobrem. Primeiro vem a vergonha, depois o desejo, por último a culpa da incerteza. Está culpa, erroneamente chamada de pecado, é a verdadeira maturidade, a transição da infância para a fase madura. O aprendizado, o primeiro passo para o amor pleno.

Os pecados da carne foram uma desculpa para impor a dominação patriarcal e restringir a emoção. Nos desumanizar enquanto espécie e substituir o reino das emoções pela culpa e pelo cálculo. Na verdade, somente somos plenos quando superamos os limite do medo e deixamos as nossas emoções fluírem, passamos a amar, ficamos nus.

A linguagem do amor é a linguagem dos corpos. Dos sorrisos que se retroalimentam, dos olhares que se cruzam em momentos incertos, do movimento dos cabelos, do toque na pele, da voz em desequilíbrio, da nudez do espírito e dos corpos, da entrega. Se isto for pecado, desejo pecar eternamente. A vida só tem sentido em plenitude, e cercear o amor é a condenação a morte em vida.

 

 

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