O TORTURANTE SILENCIO POLIFÔNICO

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Foto: Você Pertence a Mim, de Cyril Rolando/Aquasixio

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Muitas vezes é ensinado que o silêncio é sinal de sabedoria.

Trata-se de uma meia verdade, a ser aplicada diante em momentos de arrogância,

de desrespeito, de intolerância, do ego inflamado.

Se for para uma ofensa sem sentido, é melhor o silêncio.

Mas questiono: e diante da injustiça, da violência, da opressão,

devemos ficar em silêncio?

E justo ficar silêncio quando assistimos vidas sendo violadas,

silenciar diante do uso do poder em benefício próprio?

Existem silêncios e silêncios. E por mais incrível,

por maior que seja a tecnologia, o barulho dos carros,

a algazarra de cidades caóticas, a tortura das máquinas,

vivemos em uma sociedade dominada pelo silêncio.

Chamo esta, de sociedade do silêncio polifônico.

E um silêncio que se impõe pela polifonia do caos anacrônico,

de sociedades injustas, que torturam e invadem a intimidade dos indivíduos,

ouvimos o barulho ensurdecedor das cidades, mas silenciamos o coração.

A nossa alma foi silenciada pela aceitação do injusto,

pelo massacre incessante do amor em favor do ódio competitivo,

pela violação sistêmica de direitos pelos poderosos,

pela convivência pacífica com os absurdos.

Abandonamos as ruas e nos enclausuramos.

Deixamos o espaço público privatizado pelo barulho das máquinas.

Trocamos de realidade e passamos a viver de prazeres passageiros,

viramos ególatras de momentos vazios.

Deixamos que a nossa alma, no seu aspecto mais vibrante,

fosse engolida pelo silêncio polifônico dos donos do poder.

Não questionamos, não contestamos, simplesmente aceitamos

e aos poucos somos desumanizados também.

A grande consequência do silêncio polifônico,

imposto de forma contraditória pelo barulho ensurdecedor das máquinas

e a destruição do nosso ser, o massacre do espírito, a morte da alma.

Silenciamos e passamos a ser máquinas aprisionadas pela estética das luzes.

A cada disparo de nove milímetros, mais uma voz é calada.

Mas antes disto muitas foram caladas pela fome, pelo ódio, pelo preconceito.

Quando deixamos de nos insurgir e calamos por medo, ganha a força do silêncio.

Segue a polifonia do ódio e da mecânica racional.

A arte é substituída pela simetria das bandas marciais.

As vozes de luta, pelos cantos de exaltação.

O grito de horror pelo aplauso a barbárie.

O silêncio polifônico, sem reação das vozes dissonantes, não tem limites.

Enquanto nossas vozes ficarem presas na garganta,

os nossos corações pulsarem sem reação, a nossa mente congelar por medo

ou receio de perder espaços. Enquanto silenciarmos por conveniência,

não seres capazes de derrotar o silêncio, e viveremos aprisionados pela polifonia do ódio.

 

 

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