BOLSONARO E O COMPLEXO DE CAPACHO

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Foto: Bolsonaro batendo continência para a bandeira dos EUA.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda

Durante muito tempo o brasileiro conviveu com uma expressão cunhada por Nélson Rodrigues: “complexo de vira-lata”. Brilhante cronista e com uma sagacidade impressionante, o jornalista carioca afirmou que o brasileiro “é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. Na prática ele buscava narrar uma tendência que vinha da política brasileira e que contaminava o mundo do futebol de se colocar voluntariamente em condição de inferioridade frente as demais culturas, achando que tudo que vem de fora é melhor.

Tal definição acabou sendo alçada para a ciência política, transformando-se em um dos muitos conceitos de senso comum utilizados para analisar o nosso comportamento em situações de conflito, tal como o “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Hollanda. Rodrigues não era um cientista social nos moldes cunhados pelos padrões acadêmicos, mas a sua inteligência sempre esteve acima da média e uma análise empírica da nossa tradição cultural permite reconhecer uma postura depreciativa ao que é produzido no país até mesmo na esfera intelectual. Paulo Freire, por exemplo, é um dos teóricos mais citados em teses acadêmicas no planeta, mas o método de ensino brasileiro ainda é a falida educação bancária, acompanhada de um crescente apreço pelo apostilamento. Os defeitos herdados do péssimo modelo de ensino implantado na ditadura militar ainda estão presentes pelo deficit histórico de investimento no setor e mesmo com a universalização do ensino que vem sendo implementada desde a Constituição de 1988, o Brasil ainda está muito atrás de outros países da própria América Latina e, infelizmente, a tendência é de retrocesso. O país ainda pode retornar a padrões medievais de ensino, com a colocação de militares no comando de escolas, dogmatismo religioso e uma possível implementação de educação domiciliar ou à distância desde o ensino básico. Em síntese, podemos perder os avanços de 30 anos em pouco tempo.

Este pequeno parêntese sobre educação serve para introduzir a grande novidade da política brasileira, que foi o rebaixamento do “complexo nacional” ao nível do chão. Bolsonaro conduziu o Brasil à condição de capacho internacional. Não é uma coisa pequena, é o maior retrocesso das ações diplomáticas do país desde a nossa época de colônia. A tradição pragmática, cunhada pelo brilhantismo do Barão do Rio Branco e de Rui Barbosa, foi jogada por terra em apenas 2 dias de visitação do atual Chefe de Estado do Brasil aos Estados Unidos. Se há apenas quatro anos o país buscava um assento permanente do Conselho de Segurança da ONU, hoje estamos abandonado a condição de protagonista na OMC por uma possível indicação inútil à OCDE. O Brasil troca um mercado consumidor de quase 3 bilhões de pessoas nos BRICS (Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul), para virar comprador das sobras da subsidiada agricultura estadunidense. Além disto, fez outras várias concessões, como a entrega da estratégica Base de Alcântara, sem nenhuma resposta real ou reciprocidade com do governo dos EUA.

O problema é que a política internacional do (des) Governo Bolsonaro é feita por lunáticos, que se inspiram em teorias conspiratórias risíveis e batem continência para a bandeira dos Estados Unidos, como se isto lhes colocasse em situação de superioridade. É algo semelhante ao comportamento da elite agrária colonial que só comia carne e morria de escorbuto e desnutrição porque entendia que a horticultura não era algo nobre.

Neste tema, o atual Governo está muito abaixo até mesmo dos militares que comandaram o país no pós 1964. Se é verdade que a CIA formava torturadores para os porões do DOPS e do DOI-CODI, o Governo Geisel não teve vergonha de visitar países comunistas para ampliar os laços comerciais em plena guerra fria. A “desideologização” defendida pelos bolsonaristas é a defesa da ideologia mais tacanha e equivocada que este país já viu. Só milenaristas inconsequentes podem trocar a difícil relação construída com os países árabes, com enorme riqueza econômica e cultural, para mudar a embaixada do Brasil em Israel. Isto jamais seria visto na República Velha, por exemplo, apenas para tomar uma referência de um mundo com valores distorcidos como o atual.

Fico pensando o que Nélson Rodrigues escreveria nos dias de hoje. Provavelmente, com seu espírito crítico, riria da complicada situação dos nossos cronistas econômicos e políticos para justificar o volume de atrocidades executadas pelo atual governante em menos de três meses.

 

 

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