O MITO DO SUCESSO INDIVIDUAL: O Ser Humano Como um Indivíduo Fragmentário

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Foto: O Falso Espelho, de René Magritte (1928)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, doutorando em sociologia

O mito do indivíduo racional, completo, sobrevivendo isolado dentro de uma ilha, foi um dos marcos da ideologia utilitarista que reinou em meados do século XIX. Aliás, não apenas complementos, mas hedonistas, indivíduos que se relacionam com os outros apenas em busca de satisfação, prazer, sucesso. Associada à visão da perfeição humana, desenvolvida por Kant e Rousseau, o ser humano racional, mesmo que impondo um regime de opressão contra os seus semelhantes e a natureza, construiu mecanismos de autoperdão que apoiou o desenvolvimento do capitalismo predatório.

A emergência da psicanálise freudiana e da filosofia de Nietzsche, ainda no final do referido século, jogou por terra essa ambição de superioridade humana. A busca de potência, de superioridade, foi desvelada pelo filósofo alemão como um defeito que os humanos tentam esconder. Já Freud, estudioso complexo do comportamento, demonstrou que os humanos são, antes de tudo, animais, o resultado do processo de interações sociais e com o meio onde vivem. Tanto que carregamos durante toda a vida as frustrações das nossas limitações. Mesmo que coloquemos véus mitológicos no nosso entorno, somos, portanto, incompletos.

Tais teorias somaram-se às descobertas anteriores e genias de Darwin, que demonstrou sermos apenas símios, resultado da evolução natural de uma série de outros macacos. Desta forma, todos os mitos de perfeição desenvolvidos na metafísica filosófica e religiosa caíram por terra diante dos fatos científicos. Somos tão dependentes da natureza quanto as formigas e, mais grave, nenhuma espécie passa tanto tempo sob a proteção de outros membros do seu núcleo quanto os humanos. Ou seja, somos incompletos, imperfeitos e dependentes. Não existiríamos sem o apoio dos outros membros da espécie e do suporte natural.

Desta forma, surpreende que teorias que pregam a mágica transformadora da vida dos indivíduos por mera mentalização ou adoção de determinados comportamentos tidos como perfeitos, tenha ganhado tanto espaço. Afirmam tais teorias que se forem observadas regrinhas básicas (6, 5, 4, seja lá quantos passos), o sucesso será alcançado. Este seria um segredo já conhecido pelos gênios do passado, mas somente alcançado por seres superiores que atuam em conformidade com a “riqueza do universo”. O próprio Einstein, ateu e cientista convicto, tem a sua teoria quântica violada pelos novos mágicos. É evidente que tais regras são tão efetivas quanto pisar no campo de futebol com o pé direito. São crendices, farsas, formas que visam criar “messias do comportamento”. O agir positivo até pode elevar a moral de uma pessoa individualmente e por algum tempo, mas o trabalho de um bom profissional de psicologia é muito mais efetivo e consistente e, muito provavelmente, com menor custo.

Aliás, as terapias cognitivas têm avançado bastante nos últimos anos, inclusive com a incorporação de conhecimentos tradicionais. Por sinal, estes conhecimentos são o resultado de um processo sólido de incorporação de saberes e não se confundem com as aberrações do “modismo quântico”. Os sabres tradicionais são fruto da experiência secular, transmitidos, muitas vezes, de forma oral, de geração para geração, ao contrário do modismo que é uma invenção de farsantes iluminados que se sentem tocados por entes mágicos.

Isto não quer dizer que todos os “profetas da moda” sejam mal-intencionados. Muitos atuam de boa-fé e realmente acreditam naquilo que defendem. “Não conseguimos passar no concurso almejado porque não fomos positivos o suficiente”, diriam, quando não passaram pelo elevado grau de concorrência e, muitas vezes, por questões estruturais. Além disso, em regimes de escassez, se não houver distribuição equânime, muitos precisarão ficar fora para outros ganharem. O nosso problema não é existência ou falta de pensamento positivo, mas a distribuição desigual dos benefícios e dos recursos sociais. Se todos tivessem acesso aos melhores pontos de partida, com certeza viveríamos em uma sociedade mais positiva.

Outro ponto importante e que não pode ser esquecido é que ninguém, absolutamente ninguém, alcança sucesso ou melhora as suas condições de vida sozinho. O mérito, em qualquer instância, é o resultado de um processo histórico de interações sociais. É verdade que muitas vezes o esforço supera vantagens comparativas como a renda ou status social. No entanto, mesmo o esforço só é possível em decorrência de um arranjo social onde existe colaboração de amigos, familiares, até mesmo, da localização territorial. Uma pessoa esforçada que mora em São Paulo tem muito mais acesso à informação, dependendo da área de conhecimento, do que algum morador de Rio Branco, no Acre, e isto, de alguma forma, vai fazer diferença adiante. No mesmo sentido, é preciso desmistificar o “sucesso social” como resultado de um esforço individual ou da aplicação de regrinhas comportamentais ou, ainda, de filosofias quânticas. É evidente que a personalidade e a aplicação no trabalho trazem resultados, mas sem o arranjo de convivência social isto é impossível. No fim, somos apenas fragmentos dentro deste universo cosmológico e agimos dentro contínuo de interação com os demais membros da sociedade e com a natureza. Somos incompletos, dependentes de afetos e relações de intercâmbio. Tudo o que nega tais certezas é mera mistificação.

 

 

 

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