OS PERIGOS DO SECTARISMO POLÍTICO

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Foto: Quino, em Mafalda pensante.

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso

(Melanie Klein)

O termo sectarismo vem, na verdade, do pensamento religioso. Chamam-se sectários os grupamentos fechados, dogmáticos, com visão estreita, intolerante e avessos ao diálogo. Embora com uso predominante no campo político da esquerda, especialmente como crítica negativa ao aos grupos esquerdistas, avessos à ruptura de paradigmas, os maiores exemplos conhecidos de sectarismo político vêm dos conservadores, como no nazismo e no fascismo.

Pensar sectariamente é fácil, pois reproduz exatamente o não pensar, o não reflexivo, a segurança imperfeita das redomas. Na política, o agir e o pensar sectário acabam fomentando o ódio, a xenofobia e a não política. É um problema vivenciado em todos os campos que acaba contribuindo para a desconstrução dos espaços de diálogo democrático.

É exatamente por isto que o pensar sectário não transforma o mundo, não permite uma real evolução social. Ao contrário, isola até mesmo potenciais teorias críticas ao abrir espaço para a reprodução de práticas e hábitos conservadores. As barreiras que são levantadas afastam o mais perigoso de todos os adversários do sectário, que o direito de pensar. Em universos dominados por leituras sectárias, aceitar a crítica ou a contribuição externa acaba derrubando hierarquias, modelos, formatos, falso inimigos, destitui poderes, rompe-se com o paraíso dominado pelos modelos de pensamentos preguiçosos.

Se no mundo concreto os maiores exemplos, mas não os únicos, de modos sectários de pensamento e organização são derivados do campo conservador, quando levamos este problema para o universo intelectual, a maior vítima sempre é a teoria crítica. Vejamos o nefasto impacto da escola soviética sobre o marxismo. Durante muito tempo foi impossível analisar o mundo com óculos diferentes dos utilizados brilhantemente por Karl Marx no século XIX. As formas de alienação do trabalho se modificaram ao longo dos anos, mas muitos pensadores ainda continuaram classificando apenas o operário fabril como proletário, isto em pleno século XXI.

Para alguns sectários, até os avanços construídos pela Escola de Frankfurt ou por Foucault eram vistos como perigosos. O feminismo, por exemplo, apesar da sua relevância e contribuição para uma efetiva mudança social, ainda é visto por muitos teóricos formados em paradigmas do passado, como um tema de segundo plano. Afinal de contas, dizem eles, o mais importante é a ruptura com o domínio do capital, pouco importando a discriminação de gênero diariamente executada contra as mulheres. O que dizer, então, das questões ambientais, do racismo, da homofobia e de outros tantos problemas sociais transversais? Até mesmo a tolerância religiosa volta ao plano quando confrontamos dogmas sociais do pensar sectário.

Portanto, se queremos realmente ver a sociedade evoluir, precisamos lutar contra o dogmatismo sectário, caso contrário, viveremos eternamente em uma sociedade que anda em círculos.

 

 

 

 

 

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2 comentários

  1. Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    “Os perigos do sectarismo político” – Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais

    “Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso”

    (Melanie Klein)

    O termo sectarismo vem, na verdade, do pensamento religioso. Chamam-se sectários os grupamentos fechados, dogmáticos, com visão estreita, intolerante e avessos ao diálogo. Embora com uso predominante no campo político da esquerda, especialmente como crítica negativa ao aos grupos esquerdistas, avessos à ruptura de paradigmas, os maiores exemplos conhecidos de sectarismo político vêm dos conservadores, como no nazismo e no fascismo.

    Pensar sectariamente é fácil, pois reproduz exatamente o não pensar, o não reflexivo, a segurança imperfeita das redomas. Na política, o agir e o pensar sectário acabam fomentando o ódio, a xenofobia e a não política. É um problema vivenciado em todos os campos que acaba contribuindo para a desconstrução dos espaços de diálogo democrático.

    É exatamente por isto que o pensar sectário não transforma o mundo, não permite uma real evolução social. Ao contrário, isola até mesmo potenciais teorias críticas ao abrir espaço para a reprodução de práticas e hábitos conservadores. As barreiras que são levantadas afastam o mais perigoso de todos os adversários do sectário, que o direito de pensar. Em universos dominados por leituras sectárias, aceitar a crítica ou a contribuição externa acaba derrubando hierarquias, modelos, formatos, falso inimigos, destitui poderes, rompe-se com o paraíso dominado pelos modelos de pensamentos preguiçosos.

    Se no mundo concreto os maiores exemplos, mas não os únicos, de modos sectários de pensamento e organização são derivados do campo conservador, quando levamos este problema para o universo intelectual, a maior vítima sempre é a teoria crítica. Vejamos o nefasto impacto da escola soviética sobre o marxismo. Durante muito tempo foi impossível analisar o mundo com óculos diferentes dos utilizados brilhantemente por Karl Marx no século XIX. As formas de alienação do trabalho se modificaram ao longo dos anos, mas muitos pensadores ainda continuaram classificando apenas o operário fabril como proletário, isto em pleno século XXI.

    Para alguns sectários, até os avanços construídos pela Escola de Frankfurt ou por Foucault eram vistos como perigosos. O feminismo, por exemplo, apesar da sua relevância e contribuição para uma efetiva mudança social, ainda é visto por muitos teóricos formados em paradigmas do passado, como um tema de segundo plano. Afinal de contas, dizem eles, o mais importante é a ruptura com o domínio do capital, pouco importando a discriminação de gênero diariamente executada contra as mulheres. O que dizer, então, das questões ambientais, do racismo, da homofobia e de outros tantos problemas sociais transversais? Até mesmo a tolerância religiosa volta ao plano quando confrontamos dogmas sociais do pensar sectário.

    Portanto, se queremos realmente ver a sociedade evoluir, precisamos lutar contra o dogmatismo sectário, caso contrário, viveremos eternamente em uma sociedade que anda em círculos.

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