VAMOS FALAR DE AMOR?

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Foto: Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux em cena do filme La vie d’Adèle, vencedor da Palma de Ouro (2013)

 

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, pesquisador, mestre em ciências sociais

Os ataques recentes à filósofa norte-americana Judith Butler expõem a gravidade de dois problemas crescentes da sociedade: o preconceito e o ódio. Entendo por preconceito uma visão reificada e estigmatizante contra indivíduos e o ódio, de uma forma bem simples, como a suprema falta de amor.

Butler é uma das mais importantes teóricas do tema “gênero” na atualidade, desconstruindo a visão binária da sexualidade onde somos divididos apenas entre homens e mulheres, entre masculino e feminino. Dando ênfase a elementos trabalhados também por Michel Foulcalt, ela resgata a historicidade do corpo e do sexo e da diversidade das relações de amor.

Na verdade, a teoria defendida por Butler encontra sustentação em elementos fáticos, documentados e reconhecidos, inclusive, em obras religiosas. Mesmo os estudos bíblicos enfrentam, atualmente, um grande debate intelectual sobre o que são narrativas reais ou meramente normativas, como as citações que se referem ao amor entre o rei Davi e Jônatas (vide: 1Samuel 18.1-5). Esta é uma das muitas citações utilizadas por autores para abordar a suposta bissexualidade de um dos personagens mais referenciados pelas doutrinas cristã e judaica.

Particularmente, não pretendo avançar no debate bíblico, pois precisaria aprofundar mais a pesquisa sobre o tema. Mas é necessário ressaltar que tanto Butler, quanto Foucalt, têm absoluta razão quando colocam em cheque a divisão binária do gênero, do amor e do sexo. Se fizermos uma breve revisão histórica sobre o assunto vamos perceber que muitos dos tabus foram construídos no final da Idade Média, quando o poder da Igreja Católica se expandiu e serviu como uma das bases de sustentação do imperialismo ocidental e do capitalismo.

O modelo de racionalidade adotado como marco da modernidade sempre foi binário, patriarcal, parcelar e estigmatizante, o que ajudou no fortalecimento do poder e do modo de produção capitalista. E aqui um ponto importante: sempre que falamos sobre gênero e sexualidade, falamos, também, em poder e em formas de dominação.

Mas o modelo ocidental não é universal. O hinduísmo indiano trata o feminino é como a força transformadora do universo (Shiva), portanto temido por aqueles que detém o poder. Aliás, o induísmo também possui uma tríade central de deuses, o “Trimurdi”, formado por Shiva (feminino), Vishnu (masculino) e Brama (também masculino), rompendo com a lógica binária.

Ainda com relação à Índia, país onde a Suprema Corte reconheceu transsexuais (hijras) como terceiro gênero, há uma passagem do épico Mahabharata onde o próprio deus Krishna (oitavo avatar de Vishnu), toma a forma de mulher para casar com o herói Aravan. Ou seja, a formação religiosa do hinduísmo fala sobre a possibilidade do amor de um deus que representa o masculino com outro homem. Todavia, mesmo com esse histórico, a comunidade homoafetiva local ainda é vítima de repressão policial, pois a homossexualidade é considerada ilegal no país, algo que foi herdado da legislação colonial britânica.

Como se observa, o debate sobre amor, sexualidade e gênero não pode ser realizado dentro dos limites estreitos do dogmatismo cego ou do mero estruturalismo. Exige a identificação de relações de poder multifacetadas e diversificadas ao longo da história. É necessário uma revisão de narrativas para romper com os paradigmas moldados pela cultura ocidental e, acima de tudo, também é fundamental reconhecer que não existe justiça numa sociedade onde as pessoas são impedidas de amar e expressar a sua identidade.

 

 

 

 

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